Direito ao silêncio



Coloco, abaixo, apenas para reflexão, texto que publiquei no diário LANCE! que trata muito do momento complicado pelo qual passa nossa sociedade, a sociedade da intolerância, a meu ver:

“Domingo retrasado meu colega Luiz Fernando Gomes abordou a falta de informações sobre o real estado de saúde de Michael Schumacher, que acaba, como o colunista bem colocou, gerando as mais diversas especulações. E trouxe declaração do ex-agente do piloto, segundo o qual a família do alemão não revela toda a verdade, além de um pedido do mesmo para que ela diga o que realmente se passa com Schumacher para seus inúmeros fãs.

Boa discussão. Eu, particularmente, discordo do ex-agente, que foi amigo do heptacampeão mundial de Fórmula 1, e entendo a posição da mulher de Schumacher. O direito de se manter calada. E também o de sonegar informações. O direito ao silêncio e o direito à privacidade, num mundo que cada vez mais parece um Big Brother, são fundamentais.

Se Schumacher fosse um político que estivesse no exercício de um cargo público, um presidente ou um primeiro-ministro, um deputado ou algo do gênero, a história seria diferente. Teria que ser. Porque não poderia continuar exercendo o posto. Mas não é o caso. É um ex-piloto cuja família tem o direito de permanecer calada. E o de não passar informações. Sonega-las à imprensa e ao público em geral. Seja porque não queira expor a imagem do ex-campeão, ou porque queira ficar longe dos olhos públicos, seja porque ache que se trata de uma questão privada e não pública, por mais que Schumacher tenha sido um ícone nas pistas.

Se seus fãs (e seus detratores também, porque conheci muita gente que não gostava do alemão e torcia contra ele) estão curiosos por saber como ele está, se houve alguma evolução em seu quadro, como está sendo seu tratamento, quantos quilos ele está pesando etc. etc. etc., sinto muito. O desejo da família tem que ser respeitado. Sua dor também. Até por isso fico contente em ver que a equipe que assessorou e assessora Schumacher desde que se acidentou, em dezembro de 2013, esteja em silêncio, respeitando o que quer a família, o que é raro hoje em dia. Ainda mais numa sociedade que gosta de bisbilhotar a vida alheia e vive, muitas vezes, da tragédia dos outros. Não por acaso temos programas sensacionalistas com grande repercussão e sabemos que tragédias humanas costumam levantar a audiência.

Conheço gente que passou por momentos muito difíceis, caso de uma vítima do atentado em Paris, de novembro de 2015, que já enfrentou diversas operações, teve a vida alterada em todos os sentidos e não quer dar entrevistas e se expor. Prefere lidar com a dor em silêncio e com muita, muita terapia.

Claro que Schumacher era e é uma figura mundialmente conhecida, mas a família pode vivenciar a dor e as consequências do acidente à sua maneira. Na esfera privada, não na pública. Inclusive porque, na era em que as mídias sociais estão aí para atacar todo mundo, em que as pessoas, escondidas num suposto anonimato, agridem e agem como se fossem donas das vidas dos outros, muitas vezes o silêncio é mesmo a melhor resposta. E, mesmo que não seja, é pelo menos um direito que deve ser respeitado. Ainda mais, insisto, em tempos de intolerância como os nossos.”

* Público e Privado: Jogadores de futebol e esportistas em geral têm de tentar separar o público do privado porque boa parte da imprensa (que o digam os tabloides britânicos e norte-americanos também, além dos chamados sites de fofocas) não sabe fazê-lo. Ou não o faz propositalmente, porque a vida dos outros e especialmente a desgraça alheia rendem. Para ela, mídia. Até por isso discordo do ex-agente de Schumacher;

* À margem: Tenho acompanhado, para um livro que estou escrevendo, a vida de algumas pessoas que vivem à margem da sociedade. Muitas vezes por falta de oportunidade, às vezes por outras razões. Nessas horas, já que vários dos personagens são cariocas, sinto na pele o descaso de um Estado que recebeu o Mundial e a Olimpíada há tão pouco tempo com sua população. E educação, saúde e segurança?;

* Oportunistas: Interessantes as declarações de Rui Costa, diretor de futebol da Chapecoense, segundo o qual ele e a nova comissão técnica do time catarinense ouviram propostas que beiravam o desrespeito. Afirmou que pessoas que de solidárias não tinham nada começaram a se aproximar para tentar lucrar às custas da Chape. Não era inesperado, pois há quem queira ganhar na tragédia, sim. Olhos abertos, então.



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