Seleção da ditadura



Reproduzo, abaixo, coluna que publiquei ontem no diário LANCE! sobre a Seleção e a lei do silêncio imposta aos jogadores, que deveria, a meu ver, ser contestada. Dialogar, mais do que nunca, é preciso:

“O corte de Maicon é um episódio que não pode passar em branco nem ser esquecido. Por tudo o que representa.

Até agora não consigo acreditar no pronunciamento de Gilmar Rinaldi, o ex-agente que virou coordenador das seleções da CBF, coibindo perguntas sobre o caso. Abriu margem a inúmeras especulações e mostrou que a CBF pode ser tudo, menos transparente. Fora que atirou, literalmente, o jogador aos leões.

Minha indignação também é com os atletas. Comportaram-se como verdadeiros cordeirinhos. Ninguém teve coragem de, publicamente, contestar a comissão técnica e o grupo, lá nos Estados Unidos, aceitou passivamente a proibição de não tocar no assunto, o cala a boca de Dunga e Rinaldi. Instalada a lei da censura. Já vimos no que isso deu…

Torna-se um contrassenso ver a Globo, com Galvão Bueno, tentando animar o torcedor e reaproxima-lo da Seleção, dizendo que ela pertence ao povo brasileiro, que seria nossa, enfim, quando não é. É de um grupinho que manda e desmanda e faz dela o que bem entende. Sem consultar opinião pública, governo, sociedade civil, nada, nada, nada.

Ela pertence à CBF, que tem uma eleição viciada, com colégio eleitoral dominado pelas subservientes federações estaduais com seus 27 votos. Os outros 20 são dos clubes da Série A, que invariavelmente apoiam a situação. Tanto que Ricardo Teixeira ficou mais de duas décadas no poder e só saiu devido às denúncias de corrupção que pesavam contra ele.

Entrou José Maria Marin, seu vice mais velho, e ano que vem teremos Marco Polo Del Nero, vice mais velho de Marin, o mesmo Marin que também foi eleito como vice mais velho de Del Nero. Parece brincadeira, não? Mas não é.

Para a Seleção ser do povo, muita coisa teria que mudar. Mas com o pessoal que está lá, impossível. Ela ficará cada vez mais desconectada do torcedor.

O próprio histórico de Marin, homem ligado à ditadura militar, político da Arena, partido que dava sustentação ao regime, explica muito do desastre que temos visto na confederação. E do desgaste da imagem da Seleção, que sob sua gestão teve o pior resultado em sua trajetória já centenária.

Marin gosta de disciplina, hierarquia, regras definidas e ninguém para contraria-lo. Principalmente a imprensa, boa parte da qual, diga-se de passagem, tem sido muito subserviente ao dirigente da CBF. Abaixa a cabeça para o cartola como se ele fosse “Deus”. Quando pode ser tudo menos isso.

Marin foi poupado pela mídia do fiasco de 2014, como se nada tivesse com isso, quando é um dos grandes responsáveis pela derrocada do futebol brasileiro. Deveria pedir desculpas, dialogar, reconhecer os erros e não se posicionar como um ditador que não deve explicações a ninguém.

Com sua comissão técnica seguiremos com a tal lei do silêncio. Que deveria ter sido quebrada em Nova Jersey. Faltam jogadores de personalidade. Como Romário quando jogava. E também quando falava. Gilmar Rinaldi que o diga… Mas o que ele quer é justamente isso. Um time sem alguém como Romário, que discorde do status quo.”

Deixo vocês um pouco em paz e volto a publicar apenas na segunda (29). Até lá, sempre que possível, seguirei respondendo os comentários. Bom final de setembro a todos, um abraço, João



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