Xadrez em alta velocidade



Reproduzo, abaixo, coluna que publiquei ontem no diário LANCE!, seguida por três notinhas:

“Semana passada estive com o esgrimista Fernando Scavasin, que pode representar o Brasil no florete na Olimpíada de 2016. Conversamos no Esporte Clube Pinheiros, do qual sou sócio e ele é um dos atletas de ponta. Tratamos da situação da modalidade no país, da dificuldade que a criança, especialmente a da periferia no Brasil, tem de conhecer os esportes olímpicos e da vitrine que deveriam ser os Jogos do Rio para os menos difundidos, caso da própria esgrima.

Para Scavasin, o esporte é importante instrumento de inserção social e a esgrima, que ele pratica desde os 13 anos, pode tirar a criança da rua, além de ensinar respeito ao próximo e desenvolver coordenação motora e capacidades física e mental. O atleta, medalhista por equipe no Pan de 2011, define a modalidade como “xadrez em alta velocidade”, devido à importância da parte tática e do preparo psicológico e da necessidade de o competidor preparar armadilhas para o adversário, assim como se defender das armadas para ele.

Scavasin estudou a maior parte do tempo em escola pública, frequentando a Lasar Segall, que leva o nome do famoso artista plástico nascido na Lituânia e naturalizado brasileiro, e veio conhecer a esgrima quando passou pelo ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. Interessou-se pela modalidade e começou a treinar com o cubano Guillermo Betancourt. Em 2001 foi chamado pelo Pinheiros e, além dos treinos no Ibirapuera com Betancourt, passou a ter como mestres o russo Gennady Miakotnykh e o brasileiro Marcos Cardoso. Graças a uma parceria do clube com a Unip cursou faculdade de administração e montou uma empresa de tecnologia da informação, à qual dedica parte de seu dia. Pois o restante é todo para a esgrima.

Scavasin, que tem 29 anos de idade, acha que o problema dos esportes no Brasil não é a falta de dinheiro, mas de gestão, com o que estou de pleno acordo. O ideal seria termos centros de treinamento das mais diversas modalidades espalhados pelas cidades para que a criança pudesse conhece-las e ver aquelas em que se sai melhor. E não passar parte do dia na rua, sem fazer nada, como acontece com tantos garotos atualmente. Ele considera que um dos caminhos deveria ser a escola e, aqui acrescento eu, também espaços públicos e discussões urbanísticas, que deveriam estar na pauta política. Afinal, como diz o esgrimista, “dar oportunidade de conhecer todos os esportes é papel do Estado”. Se a criança vai virar atleta ou não é outra questão e aqui entra em discussão o topo da pirâmide, que também deveria ser repensado.

Um talento como Scavasin, que tão bem nos representa no exterior, tem que fazer malabarismos para se sustentar. E como ele há diversos e diversos casos de gente que luta muito para defender nossa bandeira em 2016. Temos de estar de olho neles e pensar com muito carinho em outras modalidades. Passou da hora de sermos “apenas” o país do futebol, inclusive porque, depois daqueles fatídicos 7 a 1, nem país do futebol somos mais.”

* Psicologia esportiva: Ao contrário de alguns atletas de futebol, que antes da Copa achavam que psicologia era coisa pra louco, Scavasin conta que há seis anos frequenta uma psicóloga do clube, a quem vê quinzenalmente. Considera os encontros fundamentais, inclusive para lidar com frustrações, como a de não ter ido por um triz para os Jogos de Londres, em 2012. Aceitar os revezes da vida também é uma arte;

* Exército: Além de representar o Pinheiros, o esgrimista é terceiro sargento do Exército e compete também por ele, tendo participado, por exemplo, dos Jogos Mundiais Militares. Conta que entrou para a corporação depois da abertura de um edital do Exército para atletas de alto rendimento em 2009. Pode, com isso, aumentar seu ganha-pão, além de ampliar as oportunidades para competir. Aqui e no exterior;

* E o tal diploma…: Outra discussão que precisamos ter é sobre a exigência do diploma de educação física para o exercício de determinadas atividades. No caso de esportes como a esgrima, por exemplo, há um cerceamento da liberdade de um ex-atleta, mesmo que de competência comprovada por sua prática e histórico na modalidade, treinar e formar futuros competidores. Ah! A tal reserva de mercado…



  • André

    Bom falar de outros esportes. Imprensa fica muito no futebol. Bela matéria, bela coluna. Precisamos olhar além do futebol. Parabéns ao esgrimista e ao jornalista pelo trabalho.

    • janca

      Obrigado, André. É que existe vida fora do mundo do futebol…

  • André

    Basquete brasileiro é exemplo de uma modalidade que vem crescendo mesmo diante de tantos problemas. Justificou convite para o Mundial. Brasil nas quartas ganhou manchete em jornais e revistas e espaço em rádio e TV.

    • Fábio Cruz

      É prova de que técnico estrangeiro pode trazer resultados.

      • Fábio Cruz

        Em esgrima reparem que o brasileiro treinou com dois estrangeiros. Um cubano e um russo. Só no futebol não aceitam técnicos estrangeiros.

        • Fábio Cruz

          Além dos mais médicos o governo podia fazer o mais técnicos. Cuba manda bem nos esportes.

          • Claudia Resende

            Falta de técnicos em muitas modalidades, técnicos brasileiros, é porque não existe cultura de outros esportes no Brasil. A generalização prevista pelos formados em educação física (reserva de mercado, sim senhor) dificulta o trabalho dos especialistas. Saída seria uma mescla dos dois, generalistas e especialistas.

          • janca

            Também acho interessante uma mescla de generalistas e especialistas, Claudia.

        • janca

          É que temos muitos técnicos brasileiros no futebol, nas outras modalidades, muitas das quais pouco praticadas no Brasil, acabamos importando “professores”, muitas vezes com ótimos resultados, caso do handebol. Mas defendo técnicos estrangeiros também no futebol, inclusive defendia um para comandar a Seleção na Copa de 2014, mas José Maria Marin não quis Pep Guardiola. Uma lástima.

  • Fabiana

    Exigir diploma afasta os picaretas da profissão. Você não é favorável ao diploma de jornalista? Eu sou e sou favorável ao diploma de educação física se não academias ficam em mãos de desinformados e despreparados. Quem luta esgrima entende apenas e tão somente de esgrima.

    • janca

      Eu? Sou contra exigência de diploma para exercício da profissão de jornalista. E sou contra reserva de mercado.

  • Alessandra

    A esgrima é um dos esportes mais legais que tem. Pena termos tão poucos lugares pra pratica-las. Saída é atrelar educação com esporte e aproveitar melhor os espaços públicos. Skate é moda porque as crianças e adolescentes têm onde praticá-lo. Dá pra praticar em praças, ruas fechadas no final de semana, Minhocão fechado, vão livre o Ibirapuera. Isso falando somente de SP.

    • Claudia Resende

      E skate não é esporte olímpico, né não?

  • Victor

    Diferença entre jogador de futebol e atletas de outras modalidades, como esgrima, hipismo e vela, é evidente. Basta ler o item psicologia esportiva, tema tabu até hoje pra jogadores de futebol. Em outras modalidades, com gente mais esclarecida, não existe o mesmo preconceito, que é pura falta de informação.

    • Victor

      Nível dos comentários do post também é outro. Quando é futebol sobram analfabetos funcionais.

      • Claudia Resende

        Incomodava na Copa choro exagerado dos jogadores nos hinos. Acabou isso. No Mundial de basquete ninguém chorou. Ana Moser diz que atleta pode se emocionar mas na hora do jogo tem que se concentrar. Não foi o que vimos na Copa. E Brasil tinha psicóloga.

        • Vai Timão

          Jogo disputadíssimo no basquete. Segundo quarto, parelhos Brasil e Sérvia. E torcedores corintianos na galera. Vai Corinthians!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

        • janca

          O choro dos jogadores no hino nunca me incomodou, pelo contrário, era mais uma prova do comprometimento do time. Agora os vários “apagões” durante os jogos esses sim preocupavam. E acabamos vendo o final da história como foi. Os 7 a 1 e depois os 3 a 0 para a Holanda.

    • janca

      No futebol infelizmente ainda existe mesmo, Victor, grande preconceito e desconhecimento em relação ao trabalho da psicologia esportiva.

  • W. Feitosa

    Vocês falam em psicologia esportiva como se só a seleção brasileira tivesse amarelado na Copa. E a Espanha? A Itália? O Uruguai? E os esportes olímpicos? Já esqueceram as Olimpíadas de 2000? As de 2012? Brasileiro tem memória curta.

    • janca

      Não se trata de amarelar, embora aqui e acolá isso possa acontecer e não apenas no futebol. Mas é muito fácil justificar qualquer revés dizendo que A ou B amarelou. Temos que tomar cuidado com o termo em questão.

      • janca

        E no basquete fogo o que aconteceu no terceiro quarto… Já que tanto se fala em apagão, o Brasil sumiu na quadra e só deu Sérvia. Levamos um baile. Acontece e serve pra tentarmos melhorar no futuro, aprendendo com os erros e as quedas.

  • Zico

    Assim como a mudança no futebol vai demorar alguns anos , defendo o crescimento gradativo dos esportes olímpicos. No caso do esgrima (eu acho muito chato por sinal , mas opinião é opinião) não colocaria como uns dos iniciantes do processo de prática esportiva.
    Poderíamos investir inicialmente no atletismo (lançamentos diversos, saltos) , Bike e ciclismo por não necessitar de uma grande infraestrutura.
    Depois seguiríamos com a esgrima,tiro,levantamento de peso,etc.. Lembrando que todo esse processo começaria na escola.

    • janca

      E agora com as ciclovias em SP e tanta onda em relação às bicicletas é bom prestarmos mesmo atenção no ciclismo, que tende a crescer. E atletismo é outra modalidade pra ficarmos de olho. E incentivarmos.

  • vaz

    Curioso é que técnico algum e em nenhum esporte se mete a preparador físico que é atividade de profissionais de educação física e médicos do esporte já que a maioria dos técnicos em qualquer modalidade não se consideram conhecedores profundos para preparar atletas e na maioria nada conhece da área mas o contrário também é verdadeiro. São raros os técnicos que foram originariamente formados em educação física e só o fazem por causa da absurda lei de proteção de mercado.
    Dentro deste raciocínio torto e corporativista, Bernardinho, Zé Roberto, Zagalo, Felipão, Muricy, Tite entre outros jamais poderiam ter virado técnico (muitos tiraram o tal diploma meio na “galega” para não ter que aguentar encheção de saco). Sou totalmente favorável a abolição desta exigência tola para técnicos e manter a preparação física sim na mãos de profissionais formados. O resto é reserva de mercado já que não conheço universidade na área que ensine tática, técnica e revele talentos técnicos, o máximo que ensinam é a prática do esporte e suas regras e olhe lá.
    Janca, é mais uma daquelas exigências e leis que vão na contramão do mundo e depois não sabemos porque os outros ganham tudo e nós conseguimos uma vez ou outra.

MaisRecentes

A grana de Nuzman



Continue Lendo

Galiotte cobrado



Continue Lendo

Palmeiras ferve



Continue Lendo