Não é vida ou morte



Reproduzo, abaixo, texto que publiquei ontem no diário LANCE!:

“O que mais chamou minha atenção nos quatro primeiros jogos do Brasil na Copa foi, além da desorganização tática (ainda há enorme buraco no meio-campo), o desequilíbrio emocional de nossos jogadores. Dão a impressão de estarem carregando o país nas costas, como se dependêssemos deles pra que acontecessem mudanças essenciais no Brasil, quando não é o caso, longe disso. Não vou dizer que futebol seja apenas um jogo, porque envolve muita coisa e se tornou um esporte bilionário, uma grande indústria, enfim, com pontas e ramificações que muitos de nós às vezes desconhecemos até. Sei que tem toda uma simbologia e é ela, na verdade, que me interessa. Mas não estamos falando de um jogo ou torneio de vida ou morte, não. Acho que é isso que os jogadores precisam entender, inclusive para que possam render mais.

Talvez seja a síndrome de Barbosa, goleiro que acabou injustamente destruído pela perda do Mundial de 1950, quando o Brasil fez uma belíssima campanha, a Espanha (de 50), aliás, que o diga. Perder faz parte do jogo. E deveríamos cobrar de nossos políticos, como já disse em outra ocasião, da mesma forma que alguns cobram de nossos jogadores. Ou que os atletas cobram deles próprios, exigindo tudo e mais um pouco, como se não fossem seres humanos e não pudessem errar. E, se for o caso, perder.

Fiquei muito preocupado quando Thiago Silva contou ter ficado tão emocionado na estreia que não se reconhecia como jogador no primeiro tempo contra a Croácia. O emocional, como ele mesmo admitiu, prejudicou seu desempenho e erros continuaram a se suceder, especialmente no primeiro tempo contra Camarões e no jogo das oitavas diante do Chile, quando não fomos eliminados por um triz.

Júlio César, que parece carregar o mundo nas costas só porque falhou contra a Holanda em 2010, não precisa se sentir responsável pela eliminação do Brasil, pois ninguém perde sozinho, nem tem que se redimir agora por conta de uma falha que ficou lá atrás. Erros acontecem e espero que os pênaltis que defende contra o Chile tirem o sofrimento que o acompanha há quatro anos.

Dá pra sentir a tensão no rosto de cada jogador, caso de Jô e Willian, que entraram assustados sábado no Mineirão. E se responsabilidade é importantíssima e a própria pressão tem uma função que pode ajudar os atletas, inclusive no tocante à concentração, quando em excesso pode produzir efeito contrário. Nervosismo, erros infantis, jogadas atrapalhadas e bolas rifadas, por exemplo.

Continuo acreditando no Brasil, mas queria que os jogadores entrassem em campo com mais leveza e descontração. Que pudessem curtir um pouco o Mundial, atuar com alegria e apresentar a poesia que foi a marca de nosso futebol durante muitos e muitos anos e hoje, infelizmente, talvez não seja mais. Que eles tivessem ciência de que não são obrigados a ganhar o Mundial, ainda mais se tratando de um torneio com jogos eliminatórios e de um esporte que tem na imprevisibilidade uma de suas principais características. Relaxa, Brasil!”



MaisRecentes

Nova caminhada



Continue Lendo

O desabafo de Cuca (ainda)



Continue Lendo

As críticas de Cuca



Continue Lendo