Seleção centenária



Reproduzo, abaixo, coluna que publiquei na última terça no LANCE!. No final, coloquei três notinhas, uma delas um convite pra quem estiver segunda que vem (26) em SP:

“A história da Seleção Brasileira, cujo primeiro jogo contra um time inglês completa cem anos em julho, é um retrato da história do país. É impressionante como vemos questões levantadas lá atrás presentes nos dias de hoje e como a Seleção ainda tem o poder de mexer com a sociedade e a própria autoestima dos brasileiros, um dos temas favoritos, aliás, do grande Nelson Rodrigues. Ele gostava de dizer que a Seleção era a pátria de chuteiras ou, como escreveu José Roberto Torero anos depois, o Brasil é que talvez seja a Seleção de sapatos.

Lanço, na próxima segunda-feira (26), com o jornalista Eugenio Goussinsky, uma obra que reconta a trajetória do escrete brasileiro de 1914 pra cá, e chama a atenção como a história se repete. Seja na política, seja no esporte. Nos primórdios da Seleção as diferenças entre cariocas e paulistas eram enormes e eles viviam às turras para comandar uma federação nacional e, consequentemente, a própria Seleção, que é um patrimônio público, embora tratado como privado pela CBF, continua. Como a celeuma sobre o local da sede da entidade, que segue no Rio.

Mesmo a tão comentada “Mão de Deus”, que tanta controvérsia gerou na Copa de 1986 quando Maradona marcou com a mão contra a Inglaterra, não é tão recente assim. Há quase cem anos, na estreia da Copa Roca, entre Brasil e Argentina, Leonardi usou a mão para marcar para os “Hermanos”. O brasileiro Alberto Borghert, que era o juiz da partida, não percebeu e foi logo validando o gol. Só que aí o próprio Leonardi e seus companheiros argentinos avisaram a arbitragem que o gol havia sido irregular e ele acabou anulado. Um gesto cavalheiresco raro nos dias de hoje.

O racismo, tão em “moda” atualmente e um dos temas mais presentes no futebol, tampouco é novo. Em 1919 o presidente Epitácio Pessoa “sugeriu” que jogadores negros não fossem convocados para a Copa América no Chile. O argumento é que eles poderiam sofrer constrangimentos desnecessários na solidão dos Andes e eles, de fato, acabaram não sendo chamados. O Brasil “esbranquiçado” deu vexames no torneio, inclusive levando de seis do Uruguai. E quem achava que era só o presidente Emílio Garrastazu Médici que dava pitacos na Seleção…

Por falar em Médici e ditadura militar, a Copa de 1970, quando o Brasil ganhou o tri, lembra, em muitos aspectos, a de 2014, especialmente no tocante ao clima que paira no ar. Uma turma da esquerda torceu contra a Seleção no México, com receio de que o título fosse usado pelos milicos. Agora tem gente que torce contra com temor de que a vitória favoreça o governo. Só que não dá pra saber se quem torce contra é de esquerda ou direita, já que hoje elas se misturam. Política à parte, espero que, em campo, consigamos ganhar de novo. Encantando, como em 1970. Mas que as reivindicações sociais continuem, legítimas que são.”

* Arbitragem: Acompanhando a história da Seleção e das Copas, vemos que a arbitragem sempre causou polêmicas e agora não há de ser diferente. Em 1954, quando o Brasil perdeu para a Hungria, o polêmico Mário Vianna, que apitara no Mundial, disse que o Comitê de Árbitros da Fifa, do qual ele próprio fazia parte, era um “covil de ladrões”. E que o juiz inglês Arthur Ellis ajudara os húngaros por ser comunista:

* Propaganda: Se as campanhas publicitárias para o Mundial de 2014 têm dado o que falar, com uma overdose de Neymar e Felipão, em 1950 elas também causaram polêmica. Contra a Iugoslávia, Zizinho marcou um gol e festejou bebendo um refrigerante cuja garrafa fora aberta com os dentes pelo goleiro Barbosa. Mas, ao contrário de hoje, nenhum dos dois teria recebido um centavo pelo chamado “gol Guaraná”;

* Lançamento: O livro “Deuses da Bola: Cem Anos da Seleção Brasileira”, que escrevi com o também jornalista Eugenio Goussinsky, será lançado na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, av. Paulista, segunda, dia 26, a partir das 18 horas. Ainda não vi a obra pronta, mas espero que fique legal. `Pra quem tiver a oportunidade de comparecer fica aqui o convite. Esperamos vocês lá.



  • Mario

    se Nelson Rodrigues fosse vivo iria dizer q nossa seleção é a patria de coturnos dada a falta de talento e sua estrutura q ainda é da epoca da ditadura .

    jogador de futebol sempre foi marrento sendo q tanto faz se fosse hj ou nos anos 30 , mas não vejo problema nem um em propagandas ate acho q os clubes deveriam usar mais os jogadores p/faturar mais .

    • Mario

      quase esqueci , parabens pelo livro e se der dou uma passada lá para comprar e vc autografar.

      • janca

        Muito obrigado, Mario. E obrigado também pelas contribuições ao blog. É sempre bom dialogar com você, mesmo que muitas vezes acabemos divergindo. Alguns comentários acabam fazendo eu mudar de ideia. O que é bom. Já outros não, o que também faz parte do jogo.

    • janca

      Não acho que ele diria isso não, Mario, e, com todo respeito, discordo de você sobre a falta de talentos. São jogadores muito bons e que têm feito sucesso lá fora. Sobre a estrutura, estamos de acordo. É dos tempos da ditadura mesmo. E o Parreira ainda diz que a CBF é o Brasil que deu certo… Meu Deus…

      • André

        O Parreira sempre foi subserviente. E homem ligado ao Havelange. Não esperava outra coisa dele.

  • André

    Segunda estarei em Curitiba, se vender lá vou comprar. Gostei muito do livro de vocês sobre o Coritiba, é muito bom. Pena que não se encontra mais. Podiam ter atualizado para o centenário.

    • janca

      Certamente vai estar à venda em Curitiba também. E o livro sobre o Coritiba foi um prazer fazer. Também gostei do resultado final, acabou sendo um livro de arte. Foi sob encomenda para a festa de 90 anos do clube.

  • Dani

    E eu gostei do que tinha os desenhos do Gustavo Rosa. História da seleção pra crianças. Não vão relançar agora? Se bem que o Gustavo Rosa morreu… Fica difícil, né, João?

    • janca

      Se bem que ele deixou trabalhos que poderiam ser aproveitados para essa Copa também. Ele tinha uma ligação forte com o futebol. E um traço e uma alegria em várias fases da carreira que eram únicos.

  • WAGNER

    ANTES DE MAIS NADA, PARABÉNS PELO LIVRO. DIFICILMENTE PODEREI IR POIS SOU COMERCIANTE E FICO NO ESTABELECIMENTO ATÉ AS 19H. MAS ATÉ O ANO PASSADO O ESTABELECIMENTO EM QUE TRABALHAVA ERA NA RUA PAMPLONA, PRÓXIMO DO CONJ. NACIONAL. MAS COMPRAREI O LIVRO EM BREVE, GOSTO DE SUAS IDÉIAS E NADA COMO LER. LEIO DE TUDO E GOSTO DO EXERCÍCIO. DESDE SEUS TRABALHOS NO LANCE!, NO LANCENET, E OUTROS. SÓ FICA DE MARCAR O AUTÓGRAFO, OK? SOBRE O TEXTO ACIMA, NÃO MEXO UMA PALHA NO QUE ESCREVEU. APENAS PINCELO QUE NA DITADURA UNS DOS ÚNICOS MEIOS DE MUDAR O QUADRO NACIONAL ERA A ARTE. E GRANDES JOGADORES NASCERAM NA ÉPOCA CERTA. EU NASCI EM UM ÉPOCA EM QUE ME CONTENTO O CENTRO AVANTE DO MEU TIME SER PERUANO, NÃO SER CRAQUE E SER PERNA DE PAU…RSSS, ABRAÇO JOÃO.

    • janca

      Oi Wagner. Obrigado pelas palavras e pela contribuição ao blog, um espaço para debate. Grande abraço e bom final de semana, João

MaisRecentes

Saída de Lucas Lima



Continue Lendo

Dorival bombardeado



Continue Lendo

A grana de Nuzman



Continue Lendo