O hexa e os protestos



Reproduzo, abaixo, coluna que publiquei no diário LANCE! de ontem, seguida de uma observação de um jornal britânico:

“Depois da Copa das Confederações, quando boa parte dos torcedores conseguiu separar as manifestações políticas da Seleção que estava em campo, cheguei a pensar que no Mundial algo parecido poderia acontecer. Que os protestos ficariam focados na falta de um legado, nas promessas que não foram cumpridas, no dinheiro (nosso) jogado no lixo, nas obras com custos muito maiores do que os previstos e nas mazelas político-administrativas que vivemos, independentemente do que acontecesse em campo e do desempenho do Brasil na Copa. Hoje confesso que tenho minhas dúvidas.

Outro dia o ex-presidente Lula chegou a dizer que não quer ver repetido o que chamou de “vexame de 1950” e que não interessa quanto vai entrar de dinheiro no país com o Mundial ou a Olimpíada. Como se o principal fosse mesmo ganhar o troféu. E como se, ao levantar a taça, a Seleção pudesse deixar pra trás todos os problemas, para não usar um termo mais forte, que marcaram a organização (se bem que desorganização aqui caberia melhor) da Copa no Brasil.

Conversando com amigos nas últimas semanas, uma parte acha que, quando as seleções começaram a desembarcar por aqui e a bola a rolar, o clima será de festa. Talvez o velho “Pra Frente Brasil” dos tempos da ditadura. E que parte da mídia, inclusive com seus interesses comerciais e de audiência, conseguirá dar uma leveza ao evento e empurrar o torcedor a apoiar a Seleção e a festejar cada vitória nas ruas. Se ganhar o hexa, então, festa total. Outra parte pensa diferente e acha que não há clima de Copa como houve por aqui quando a Seleção jogou Mundiais disputados no estrangeiro. E que o cidadão conseguirá separar o desempenho da equipe de Luiz Felipe Scolari daquilo que acontece fora dos gramados.

Eu já acho que as duas coisas, na cabeça de muita gente, estarão misturadas.  Discordo de Lula quando menospreza a parte financeira envolvida na Copa e também quando se refere ao desempenho do Brasil em 1950 como “vexame”, mas hoje já acredito que, caso o time encante e avance na competição, o clima de oba-oba pode acabar predominando. Mas se por um acaso a Seleção for eliminada nas oitavas de final, o que pode acontecer, porque enfrentaremos algum time do grupo da Espanha, quiçá a Holanda, as manifestações ganharão terreno e podem chegar a um ponto complicado. Aquela história de não sabermos bem aonde começam e tampouco aonde vão terminar… Gostaria que as duas coisas não andassem atreladas, mas tenho a impressão de que caminham de mãos dadas.

Em 1970, quando o Brasil ganhou o tri no México eu era muito pequeno. De lembranças, só as fotos de uma criança de 3, 4 anos com um sombreiro na cabeça. Agora não. Ouço aqui e acolá gente dizendo que vai torcer contra, como alguns fizeram em 70, mas não faço parte dessa galera. Torço muito pela Seleção. Que ganhe e encante, o que é bem possível. Mas que as reinvindicações populares continuem fortes, desde que pacíficas, pois são legítimas.”

Nota: O jornal britânico “Financial Times” tem analisado o impacto que o Mundial pode ter para a campanha eleitoral deste ano. Acredita que, caso o Brasil vença a Copa, a população pode perdoar os altos custos do torneio, os erros na organização, os futuros elefantes brancos que consumiram rios de dinheiro público e tantos outros descalabros mais, mas, se perder, a pólvora estará acesa. As ruas que o digam.



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