A intolerância prevalece



Reproduzo abaixo coluna que publiquei na última terça no LANCE!. Continuo impressionado com a estupidez humana, que parece não ter limite. Falta de educação, preconceitos, bairrismos, homofobia, agressividade, comentários e ataques que muitos fazem via redes sociais escondidos sob um suposto anonimato chamam a atenção. O mesmo suposto anonimato que muitos devem sentir no meio da multidão em grandes jogos de futebol, quando viram valentões. Enfim, segue abaixo o texto:

“Fico impressionado com o nível dos comentários em blogs, especialmente os de esporte, mas também os de política, já que ambos se misturam e envolvem paixões e fortes interesses, clubísticos ou partidários. Estupidez, falta de educação e intolerância prevalecem no cenário.

Pego como exemplo o caso do Bom Senso F.C., movimento de jogadores com propostas para mudar nosso futebol e que levantou duas importantes bandeiras, de reformulação do calendário nacional e implantação do fair play financeiro, ambas absolutamente legítimas. Uma parcela dos torcedores ficou irada com o grupo e extravasou sua irritação ou ódio mesmo nas redes sociais, hostilizando o movimento e alguns de seus líderes, especialmente o zagueiro Paulo André, que acabou saindo do Corinthians para se refugiar, não consigo encontrar outro termo, no futebol chinês.

Muitos dos comentários seguem na linha de que o atleta tem que se preocupar apenas em jogar bola, render bem em campo e justificar o salário que ganha, não discutir calendário ou fair play financeiro, que seriam da alçada dos cartolas. Como se esses estivessem interessados em mudar alguma coisa…

Não foram poucos os que passaram a xingar os jogadores, dizendo que ganham muito, não têm que usar transporte público, defendem apenas seus interesses, querem gozar de mais férias e ter maior pré-temporada e que não passam de uns privilegiados com uma agenda própria, como se houvesse algum problema nisso. Os insultos são inacreditáveis, inviabilizando inclusive a possibilidade de diálogo.

Continuo dizendo que se ganham bem, isso é ótimo pra eles. A questão é discutir se os clubes que aceitam pagar salários milionários, gastando fortunas com sua folha de pagamentos, inclusive para comissões técnicas com “professores” que fazem mais do mesmo, têm condições de banca-los. São os dirigentes, não os jogadores, que devem ser cobrados sobre a questão financeira. Basta ver o caso do Botafogo, cujos atletas têm feito protestos contra o atraso no pagamento de salários e passaram a ser chamados de mercenários por parte da galera depois da derrota da semana passada pela Libertadores.

É uma pena que a ira da torcida acabe dirigida para os atletas, como se fossem responsáveis por todas as mazelas de nosso futebol, quando não são. Quantas vezes Paulo André, enquanto esteve no Brasil e antes de sair de foco partindo para a Ásia, não foi questionado sobre assuntos que não eram de sua alçada nem da do Bom Senso? Foi o caso do imbróglio que marcou o final do Brasileiro do ano passado, com brigas de torcidas e definição do rebaixamento no tapetão. Queriam que ele se posicionasse a respeito e tomasse partido de A ou de B, quando não eram o zagueiro nem o movimento que deviam explicações, mas a CBF, como organizadora do campeonato, e os clubes, boa parte dos quais tem relação umbilical com suas organizadas, várias delas envoltas em casos policiais.

Atrás dos ataques vejo, além de intolerância e agressividade, grande inveja contra os que se dão bem nos gramados. Como se fosse errado faturar jogando bola. Vida de boleiro também é complicada…”



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