No meio da multidão



Reproduzo, abaixo, coluna que publiquei ontem no diário LANCE!:

“Muito tenho pensado sobre racismo e violência no futebol e como os combater. Não é fácil, certamente não. Tenho muitas dúvidas a respeito de punições a time A ou B se uma parte de sua torcida comete atos racistas. De que adianta proibir jogo em Mogi Mirim ou na cidade ou estádio que for? Será que os torcedores vão aprender a lição? Sei não, sei não. Não costumo concordar com Marco Polo Del Nero, presidente da Federação Paulista de Futebol e candidato à sucessão de José Maria Marin na CBF, mas nesse caso acho que ele tem razão quando diz que um bom caminho seria identificar os torcedores responsáveis pelos atos racistas. Que eles respondam por isso.

Racismo e injúria racial são crimes que fogem da “simples” esfera esportiva. São reflexos de nossa sociedade machista, racista, homofóbica, preconceituosa e que teima em não aceitar o que considera “diferente”. Por mais que eu defenda a liberdade de expressão e não seja adepto do politicamente correto, existe um limite que não pode ser ultrapassado. É por isso que muitos países europeus não permitem a existência de partidos nazistas, que adotam discursos racistas, embora de xenofobia o Velho Continente continue cheio. E o Brasil não foge à regra, vide a situação de bolivianos, peruanos e haitianos por aqui que não têm o mesmo respeito de outros povos que vieram e conseguiram fazer dinheiro.

O que não dá, no caso da injúria racial, é colocar as coisas embaixo do tapete, como parece querer Luiz Felipe Scolari. Ao contrário do que diz o técnico da Seleção, a discussão sobre racismo no futebol não é uma bobagem e não se trata de dar moral aos que ele chama de “babacas que nunca vão aprender”. Como não deve ser tratada como assunto de menor importância a questão da homofobia, que é tão grave quanto, embora relegada por muitos, inclusive parte da mídia, a um segundo plano. Ela é fortíssima no esporte em geral, vide o caso Michael, jogador de vôlei hostilizado pela torcida do Cruzeiro num ginásio devido à sua orientação sexual.

A explicação para o que está acontecendo nas “arenas” brasileiras, palco vez ou outra de atitudes racistas de torcedores, algo também presente e discutido no continente europeu, talvez esteja no comportamento de massas. Anos atrás, ainda no colégio, escrevi um pequeno “ensaio” intitulado “Tragédia e Comédia”, que virou parte de um livro lançado pela escola com o nome “Tinta Fresca e Papel Novo”. Lá eu lembrava que “um homem age diferente estando sozinho ou não”. Há muito valentão escondido por um suposto anonimato, seja no meio da galera, seja no chamado mundo virtual. E é daí que “grandes tragédias para alguns se tornam divertimento para outros”. Freud explica…

Expor sujeitos que cometem atos racistas é uma forma de desmascara-los, obrigando-os a se explicar a colegas de trabalho, amigos, familiares e à própria Justiça, porque não têm o direito de agir assim dentro ou fora de estádios de futebol e hostilizar cidadãos pela simples cor da pele.”



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