As bruxas no Mundial



Reproduzo abaixo coluna que publiquei na última terça no LANCE! sobre a Seleção e a Copa de 2014:

“A Copa de 1982, quando o Brasil tinha aquela Seleção incrível montada por Telê que acabou eliminada pela Itália, marcou toda uma geração. A minha, pelo menos. Lembro que acompanhei os primeiros jogos em São Paulo, mas os confrontos contra argentinos e italianos vi na Dinamarca, onde, adolescente, tinha ido passar as férias na casa de um amigo de infância, que hoje cuida de doentes terminais num hospital escandinavo. Quando acabou o jogo que consagrou Paolo Rossi, ficamos todos anestesiados, como se a derrota não tivesse ocorrido e a partida fosse recomeçar a qualquer momento. Acabei me recuperando do baque ao percorrer a Dinamarca, um país fantástico, viajando de trem com a camisa da Seleção já eliminada do Mundial. Os dinamarqueses me consolavam. Quando viam a amarelinha iam logo dizendo como admiraram nossas atuações, como torceram pelo Brasil e como, sem a Seleção de Sócrates, Júnior, Éder, Zico e Cia., o torneio perdera muito de seu encanto.

Em 1986 fui à minha primeira Copa do Mundo, ainda estudante, e acompanhei uma ótima competição, seja por Maradona, seja pelo carinho do povo de Guadalajara, que novamente abraçou a Seleção. Que também caiu nas quartas, agora diante da França, em decisão por pênaltis. Foi sofrido pacas, porque jogamos melhor que os franceses, desperdiçamos um pênalti durante o jogo, perdemos chances inacreditáveis até na prorrogação e tivemos azar nas penalidades que decidiram a favor deles. Numa das cobranças da França, não é que a bola toca na trave, bate nas costas do goleiro Carlos e entra no gol? Coisas do futebol…

É por essas e outras que, quando insistem em me perguntar (e como insistem…) se acho que a Seleção vai ganhar a Copa de 2014 digo que não faço a menor ideia. Porque não faço mesmo. Em um torneio de tiro curto, com sete jogos para ser campeã, um lance infeliz, uma bola mal passada, um dia ruim, enfim, qualquer descuido ou incidente pode tirar uma equipe da competição. Passada a primeira fase, são quatro jogos eliminatórios. E a sorte, sim, porque ela existe e faz parte do espetáculo, pode acabar sendo fator preponderante.

Não que possamos atribuir uma eliminação precoce, nas oitavas, por exemplo, como a de 1990, num jogo em que fomos melhores que os argentinos, apenas ao azar. Claro que não. Mesmo em 1982, acho que acabamos subestimando os italianos, achando, talvez como em 1950, diante do Uruguai, que poderíamos vencer (ou empatar) quando quiséssemos. A história mostrou que não era bem assim. E em 1986, sei que pênalti não é só loteria, depende de treinamento, preparo físico e psicológico, talento e sangue frio. Mas também de sorte. E acabamos pecando na disputa.

Certamente entramos como um dos favoritos também em 2014, não só pelo fator casa, mas por termos um time muito forte, com ótimos jogadores e um técnico que sabe unir e trabalhar um grupo. Ganhando ou perdendo, enfim, espero que joguemos bonito. Porque uma seleção é lembrada não só por títulos, mas pela qualidade de seu futebol.”



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