Despreparo nacional



Reproduzo, abaixo, texto que publiquei terça no diário LANCE! com o título “O despreparo do Rio”, substituído agora pelo “Despreparo nacional”, já que, apesar de ser o Rio a sede dos Jogos-2016, a questão da falta de preparo, quando se trata do setor de turismo e serviços, pelo jeito é nacional, vide o caos no litoral paulista em dezembro/janeiro:

“Sei que o foco agora é a Copa, que começa logo mais em junho, mas não podemos esquecer que dois anos depois teremos a Olimpíada do Rio. E se o Mundial causa enorme preocupação, inclusive pelos longos deslocamentos e pela questão do transporte aéreo, um caos no Brasil, os Jogos de 2016 também deveriam inquietar, embora por outros motivos.

O Réveillon na chamada Cidade Maravilhosa é prova disso e deveria servir de alerta às autoridades. O aeroporto Santos Dumont, por exemplo, viveu dias complicadíssimos no final de 2013, início de 2014. Filas para check-in, inclusive para a ponte aérea Rio-São Paulo, chegaram a levar mais de duas horas no caso de uma das companhias que faz o trecho de 45 minutos. O que se ouvia de gente irritada repetindo o já tradicional bordão “Imagina na Copa” não estava escrito. Mas o problema não é na Copa, é no nosso dia a dia. No Mundial adotam uma espécie de regime de exceção nos aeroportos e reduzem o caos. Na Olimpíada, no entanto, há outros pontos a considerar, pois tudo fica concentrado numa cidade só.

E o Rio não anda fácil. Houve turista pegando táxi do Santos Dumont para Copacabana e pagando 70 reais a corrida, quase duas vezes o valor “normal”, porque o taxímetro andava acelerado demais. Se reclamasse do “sobrepreço” corria risco de ficar sem a mala colocada no bagageiro. Melhor pagar 70 pilas…

Já os preços, em geral, oscilavam muito e muitas vezes no mesmo dia. Meio litro de açaí com banana ou morango podia custar de 6 a 15 reais dependendo do humor do vendedor. Ou da cara do comprador. Para estrangeiro, então, chegou à casa dos 20 reais no dia da virada.

Já as cenas de pessoas furtadas ou roubadas procurando documentos e pertences jogados com descaso no chão de uma delegacia da Zona Sul rodaram o mundo, o que não contribui para a imagem do Brasil no exterior.

Há muita coisa a ser feita se quisermos incrementar o turismo e trazer mais estrangeiros para cá. O governo tem agido como se o problema fosse a grande quantidade de brasileiros que vão ao exterior, seja porque alguns roteiros internacionais são mesmo mais baratos, seja porque nossos produtos estão muito caros, quando não é essa exatamente a questão. Falta-nos uma política para atrair turistas. E estamos desperdiçando duas grandes oportunidades, Copa e Olimpíada, que poderiam ser cartões de visitas, mas correm o risco de produzir efeito contrário. Afastar novos turistas depois de realizadas em vez de atraí-los.

Um albergue em Copacabana chega a cobrar quase 2 mil reais por uma semana no Rio durante a Copa, dividindo o quarto com outros 15, dez vezes o valor habitual. É demais. Fora as horas de fila para subir o Corcovado, por exemplo, se bem que aí poderíamos lembrar que na Torre Eiffel a espera é parecida, o que não alivia muito, não. Turista que sofre, afinal, ao relatar suas experiências pode afugentar outros viajantes. E quem ganha com isso? O Brasil certamente não.”



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