A arte de Gustavo



Reproduzo, abaixo, coluna que publiquei na última terça no diário LANCE! sobre futebol e arte:

“Na semana passada morreu Gustavo Rosa, um dos principais artistas plásticos brasileiros, cuja ligação com o universo do futebol e do esporte em geral era intensa.

Na última vez em que estive com minha mãe em seu ateliê, um belo espaço no Jardim Paulista, em São Paulo, depois de conversarmos um bocado, inclusive sobre a finitude da existência humana, fez questão de acompanhar pela TV partida de seu Tricolor, que pegava o Grêmio, no Morumbi, enquanto eu segui para meu apartamento para ver Portuguesa x Corinthians, que jogavam em Mato Grosso do Sul.

No futebol e na arte, Gustavo foi um revolucionário. No final dos anos 80, começo dos 90, chegou a desenhar uma nova camisa para o São Paulo, uma espécie de uniforme número 3, com um design impressionante. Teve apoio do ex-presidente José Eduardo Mesquita Pimenta, um dos que encontrei no velório de Gustavo, mas o conservadorismo de boa parte dos conselheiros do time paulista impediu que o projeto fosse adiante. Apresentado novamente durante a gestão de José Augusto Bastos Neto, o novo uniforme, numa época em que os times ousavam menos do que hoje, infelizmente também não vingou. Infelizmente porque unia o mundo da arte com o do esporte.

E nisso Gustavo era craque. Com um estilo peculiar e marcante, sua obra tinha muitas cores, alegria e uma fina ironia. Retratou diversas modalidades e vários esportistas e fez um quadro de Pelé dando uma bicicleta que viraria capa de livro infanto-juvenil que escrevi com o também jornalista Eugenio Goussinsky, todo ilustrado por Gustavo e lançado antes da Copa de 2010 com o título “A Melhor Seleção do Mundo”.

Em tempos de Mundial no Brasil e Olimpíada no Rio, espero que o exemplo de Gustavo sirva de inspiração para jovens artistas desenvolverem seus trabalhos e usarem os eventos para se projetarem, pois temos muita gente talentosa por aqui, gente que precisa de espaço e oportunidade para se lançar no mercado.

E a arte, assim como o esporte, não canso de lembrar, pode ser importante instrumento de inclusão social. E inclusão em todos os sentidos. Anos atrás, já lutando contra um câncer, que o atingiu pela primeira vez em 1999, Gustavo participou de oficinas de trabalho com crianças com Síndrome de Down, crianças que fizeram quadros a partir das obras do artista paulistano. Comprei um deles, numa exposição no Museu Brasileiro da Escultura, pintado por um garoto brilhante, cujo nome lamentavelmente não sei, já que ele não assinou a obra e perdi seu contato depois. Coloquei o óleo que, como o menino fez questão de dizer, todo orgulhoso, parecia um Pablo Picasso, na sala do meu apartamento. E acreditem ou não, parece mesmo.

Que o lúdico na obra de Gustavo continue muito tempo por aí, pois precisamos dele como necessitamos da magia de um Neymar e daquele futebol-arte que ainda existe e o brasileiro sabe jogar como demonstrou tantas e tantas vezes nas vitórias ou nas derrotas que, como a morte, fazem parte da vida.”



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