Saúde no octógono



Reproduzo abaixo coluna que publiquei ontem no LANCE! sobre assunto que acredito merecer, no mínimo, reflexão, além de sério debate por parte da sociedade:

“Não é de hoje que esporte de alto rendimento está longe de ser sinônimo de bem-estar e saúde, mas algumas modalidades e sua estrutura de funcionamento deveriam ser repensadas, caso do MMA, as chamadas artes marciais mistas.

Teimo em discutir o assunto, apesar de irritar muita gente que adora divulgar o MMA como esporte que mais cresce no Brasil, porque sinto que há muita coisa enfiada embaixo do tapete e que merece, no mínimo, reflexão.

Já toquei na questão e na época fui massacrado por alguns dos fãs do MMA, mas a radical perda de peso para a véspera da luta, algo comum na modalidade, e a recuperação subsequente, muitas vezes com consumo de diuréticos proibidos pela Agência Mundial Antidoping, fazem extremamente mal ao organismo dos lutadores, alguns dos quais chegam a perder 12, 15 ou até 20 quilos para um combate. E recuperam boa parte deles em menos de 24 horas.

Não vou entrar na discussão sobre o caso de Leandro Feijão, que tinha 26 anos e morreu quando tentava perder peso para disputar um torneio nacional, vítima, segundo consta, de um AVC (acidente vascular cerebral). Talvez ele tivesse alguma doença congênita, outro tipo de problema físico ou clínico, não sei dizer, mas que não é saudável perder 10, 12 ou 15 quilos em pouco tempo, não é. Vários médicos já alertaram para o risco à saúde. Sem falar em casos de adeptos do esporte que se obrigam a tudo e mais um pouco para mudar o organismo, tomando hormônio de crescimento e tantas outras substâncias proibidas e aumentando o risco de câncer, por exemplo.

Ou, como gosto de lembrar, o problema dos golpes na cabeça, que causam traumatismos. Sei que a galera costuma vibrar com cotoveladas no rosto e sangue e mais sangue no octógono, fora que os organizadores e as emissoras de TV fazem a festa com a popularidade dos “gladiadores do terceiro milênio”, mas a questão é de enorme gravidade.

A Liga Nacional de Futebol Americano, por exemplo, terá de pagar cerca de R$ 2 bilhões para encerrar ação movida por quase cinco mil ex-jogadores com problemas neurológicos que teriam adquirido por excesso de choques na cabeça. Familiares de pugilistas com demência e outras sequelas devido a pancadas no boxe também querem reparação das entidades competentes. Estudos de pesquisadores norte-americanos atribuem a seguidas concussões a que estão expostos praticantes de futebol americano e boxe problemas como dificuldade motora, perda da capacidade de raciocínio, dor de cabeça crônica, depressão e outros mais. Não há trabalhos conclusivos com lutadores de artes marciais mistas, porque a modalidade, que partiu do vale-tudo, ainda é recente. Mas neurologistas têm alertado para os riscos.

Como há muito dinheiro envolvido no negócio com a grande mídia e os fortes patrocinadores, talvez a questão não interesse. O que é uma pena, porque deveria ser debatida. Assim como a do verdadeiro monopólio de uma empresa, o UFC, sobre o MMA, tanto que um virou quase sinônimo do outro. Não vale no mínimo reflexão?”

Volto a postar na próxima segunda, dia 14, mas até lá, dentro do possível, sigo respondendo os comentários de vocês. Bom restante de semana a todos, João Carlos



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