Abacaxi olímpico



Reproduzo, abaixo, texto que publiquei ontem no diário LANCE!:

“O Comitê Olímpico Internacional tem um abacaxi enorme para descascar. Seus principais parceiros comerciais já avisaram que estão desconfortáveis com a situação criada pelo governo Vladimir Putin para os Jogos Olímpicos de Inverno, que acontecem em fevereiro, em Sochi, na Rússia.

Numa cruzada contra o que chama de propaganda gay, Putin resolveu endurecer o jogo e o Parlamento, com apoio da população local, aprovou uma série de leis que restringem os direitos dos homossexuais. O que mais inquieta o COI e seus patrocinadores é a lei que abre brecha para a polícia russa deter turistas suspeitos de serem homossexuais ou defensores do que o governo chama de lobby gay. Em tese, os visitantes podem ficar pelo menos duas semanas presos, o que tem gerado polêmica e protestos de organizações defensoras de direitos humanos. Várias começaram a pregar boicote aos Jogos e questionam o COI pela escolha da cidade russa como sede do evento.

Para piorar um pouco mais a situação, grupos neonazistas que pregam o extermínio de gays têm feito ações em diversas regiões russas, marcando encontros com homossexuais, por meio de sites de relacionamentos, e submetendo-os a uma série de humilhações. Pelo menos cinco casos de suicídio de rapazes entre 21 e 27 anos, ocorridos no primeiro semestre, estariam ligados a tais ataques. Dois jovens teriam sido agredidos até ficarem inconscientes e outros três obrigados a beber urina e a comer fezes. A polícia é acusada de estar sendo permissiva com a ofensiva dos neonazistas.

Enquanto isso o presidente do COI, o belga Jacques Rogge, tem afirmado que durante os Jogos de Sochi as leis contra os homossexuais não atingirão os membros da família olímpica nem os turistas que assistirão ao evento, discurso considerado ameno por ativistas ligados à causa dos direitos humanos e liberdades individuais. E Lamine Diack, presidente da Federação Internacional de Atletismo, acabou colocando mais lenha na fogueira. Para ele as leis do país-sede devem ser respeitadas, descontentem ou não os ativistas. Cita como exemplo seu próprio país, o Senegal, onde a homossexualidade seria proibida por lei.

Nos Estados Unidos muitas vozes têm se levantado contra os Jogos. Por enquanto, sem êxito. O presidente Barack Obama, que diverge da visão de Putin sobre direitos civis e cujo governo tem defendido o casamento gay, mostra preocupação com as leis sancionadas pela Rússia, mas também tem seu ponto fraco: as denúncias de Edward Snowden sobre esquema para espionar cidadãos de diversos países do mundo. O ex-analista de inteligência fugiu dos EUA e recebeu asilo de um ano da Rússia, o que esfriou a relação entre os dois países. O governo Obama, que considera Snowden traidor da pátria, chegou a garantir aos russos que, se o ex-analista fosse entregue aos americanos, não sofreria tortura, o que não deixa de ser irônico e emblemático. Divergências à parte, o boicote à Olimpíada de Sochi, a mais cara da história, ainda é tido como improvável. Mas que a questão vai dar o que falar, vai, tirando o brilho do evento.”



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