A decisão de Neymar



Volto a um assunto que tenho abordado com frequência, tópico que considero importante e não se esgota em Neymar. Pelo contrário, trata-se de uma discussão mais abrangente, que envolve o que queremos para o próprio futebol brasileiro. Assim sendo _e dadas as mensagens que recebi após a publicação do texto no diário LANCE!_, reproduzo, neste espaço, coluna que escrevi para o jornal de terça passada:

“Nas últimas semanas tem aumentado o coro de técnicos, jornalistas e torcedores favoráveis à transferência de Neymar para a Europa. Liderados por Mano Menezes, que sugeriu a mudança há tempos, argumentam que no Velho Continente o atacante aprenderia a atuar contra defesas mais consistentes, aprimoraria seu estilo de jogo e conheceria novas culturas. Alegam ainda que Neymar, pelo Santos, não teria mais desafios a enfrentar. Fora que seria poupado das vaias a que tem sido submetido quando defende a Seleção jogando no Brasil.

É possível, mas não acho que exista uma receita pronta e que a solução passe necessariamente por eventual ida à Europa. Kaká é um que logo se transferiu pra lá, hoje amarga o banco no Real e, por mais que tenha enfrentado ótimas defesas jogando no futebol europeu, não se saiu tão bem assim nas Copas de 2006 e 2010. Ainda disputa vaga para a de 2014. Alexandre Pato é outro que foi cedo para o exterior, teve problemas com o departamento médico do Milan e acabou retornando ao Brasil pra tentar recuperar a forma dos tempos de Internacional. Mesmo Ronaldinho Gaúcho, depois de ter encantado os europeus por uns tempos, caiu muito de produção e só foi se reencontrar no Atlético-MG. Já Robinho anda sumido, enquanto Lucas, se tem jogado bem em Paris, já apresentava excelente futebol no São Paulo.

Não sou contra transferência de Neymar para o Barça, mas não a vejo necessariamente como receita de sucesso. Não dá pra dizer que se ele tivesse mudado de ares no ano passado estaria melhor ou pior que hoje. E a escolha sobre se e quando se transferir não cabe a nós, cabe a ele. Que deve ponderar uma série de fatores, inclusive a vida pessoal e familiar. Porque não há um caminho único. Há vários.

Recentemente li “Nossa Sorte, Nosso Norte: Para Onde Vamos?”, instigante obra do psiquiatra Flávio Gikovate e do filósofo Renato Janine Ribeiro em que os dois analisam uma série de questões, como os conceitos de liberdade e individualismo no mundo de hoje. Num dos trechos, Janine Ribeiro cita uma propaganda em que aparecia um garoto com roupas caras e cabelo punk chique e um narrador dizendo que, se ele escolhia seu cabelo, jogos e amigos, não poderia deixar na hora das drogas os outros fazerem sua cabeça. O absurdo da história é que, como bem aponta o filósofo, o menino era a própria negação da liberdade, todo padronizado, estereotipado, um produto da indústria publicitária. Ou, como diz Gikovate, o símbolo de um individualismo fajuto, onde não há liberdade de pensar.

A sociedade nos impõe um modelo a seguir e no futebol não é diferente. Como se a receita para jogar na Europa fosse obrigatória e devesse ser seguida por todos. E quanto mais cedo, melhor. Nada disso. Cada um deve procurar seu próprio caminho e modificá-lo sempre que achar necessário. Que Neymar encontre o seu. A vida, a carreira e a decisão são dele (ou deveriam ser) e espero que sejam respeitadas.”



MaisRecentes

O discurso de Tite



Continue Lendo

A reeleição de Galiotte



Continue Lendo

Cadê os patetas?!?



Continue Lendo