Ídolos de barro



Reproduzo aqui coluna que publiquei terça no LANCE! e diz respeito não só aos ídolos, mas aos fãs, à necessidade de alguns de verem algo que talvez não exista, ao papel da mídia que gosta de vender, vender e vender e a uma questão que certamente extrapola a esfera esportiva:

“O caso Oscar Pistorius, primeiro biamputado a participar de uma Olimpíada e acusado pela morte da namorada, Reeva Stenkamp, tem gerado questionamentos não só na África do Sul, mas em toda a comunidade esportiva. A defesa do atleta diz que ele atirou na modelo por engano, achando que sua casa havia sido invadida por algum criminoso. A acusação quer provar que o assassinato foi intencional e que aconteceu após uma discussão do casal.

Entre muitos sul-africanos e o público em geral, especialmente aqueles que alçaram o atleta à condição de mito e o tinham como modelo de vida, há a sensação de terem sido traídos e vítimas de um engodo. Como houve por parte dos norte-americanos e dos amantes do ciclismo com as denúncias contra Lance Armstrong, que acabou confessando o uso de doping para competir e vencer sete vezes a Volta da França, sem falar na acusação de tráfico de substâncias proibidas.

A questão talvez não esteja em Pistorius, que teve outros episódios nada edificantes agora tornados públicos, nem em Armstrong, cuja trajetória ficou ainda mais saborosa por supostamente ter vencido terrível luta contra o câncer e montado uma fundação baseada em sua história. Ambos estavam num meio extremamente competitivo, obrigando-se a vencer sempre e talvez se sentindo acima do bem e do mal.

A decepção, na verdade, diz mais a respeito a quem se sentiu passado pra trás, por ter idealizado os dois, do que aos próprios. Porque não conhecemos a intimidade e o que se passa no interior de ninguém, ainda mais de personalidades que vemos e acompanhamos à distância. Muitas vezes, quando olhamos de perto, percebemos que a história é outra, diferente da vendida pela mídia, que gosta de fabricar “heróis”. Pois eles vendem no esporte, nas artes, na política…

A trajetória de Pistorius é extremamente interessante e como a de Armstrong sempre esteve associada ao termo “superação”, uma das palavras mais chatas que o pessoal ligado à autoajuda gosta de usar. Pistorius protagonizou, pelo menos pra mim, um dos momentos mais emocionantes da Olimpíada de Londres, quando acabou não conseguindo a vaga para as finais dos 400 metros rasos. Terminou sua eliminatória em último, mas recebeu um presente de Kirami James, de Granada, atleta que ficou em primeiro: o número com o qual competiu o adversário, numa espécie de “troca de camisas” no fim de um jogo de futebol.

O mais curioso a observar é que, depois dos escândalos que atingiram Armstrong e depois Pistorius, notícias nada positivas sobre os dois começaram a pipocar na imprensa, muitas das quais antes eram ignoradas. Sobre o sul-africano, por exemplo, apareceram desde suspeitas de uso de esteroides e consumo excessivo de álcool até denúncias de assédio sexual e ameaças contra terceiros. Assim como interessa construir ídolos, muitas vezes interessa destruí-los, já que isso também vende e parte da sociedade se delicia com a queda. A que sentia inveja e a que acreditara no conto de fadas e acaba vendo seus ídolos se tornarem humanos.”



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