Torcedores profissionais



Ainda diante da comoção provocada pela morte do garoto Kevin Espada, na Bolívia, reproduzo coluna que publiquei no LANCE!, terça passada, sobre uma discussão que insisto que deva ser feita. E que trata do papel das torcidas organizadas, que acabam penalizando os clubes por muitas de suas atitudes e prejudicando o que chamo de “maioria silenciosa”, representada pelos torcedores comuns:

“Uma das perguntas ainda sem resposta depois da morte do torcedor Kevin Espada na Bolívia é quem paga para esses cidadãos irem ao exterior apoiar o Corinthians ou o time que for.

Até onde vai a ligação dos clubes com suas principais organizadas? Como elas são financiadas? Quem banca as viagens? Como se dá a distribuição de ingressos? É difícil imaginar um bando de torcedores que passam o ano seguindo o Corinthians, dentro ou fora do país, viajando para Venezuela, México, Argentina, Japão e tantos outros destinos, liberados por um suposto empregador, pagando passagens, arcando com hospedagem, comprando ingressos e fazendo disso sua razão de viver. A razão de viver não é o amor pelo clube, talvez o ódio pelo adversário e, principalmente, uma fonte para angariar recursos. São os chamados torcedores profissionais, pagos para apoiar o time e, muitas vezes, a administração da vez.

Torcedores ligados às organizadas Gaviões da Fiel e Pavilhão Nove estão entre os detidos, suspeitos de envolvimento na morte do garoto de 14 anos. Dois foram encontrados com sinalizadores parecidos com o que teria matado o adolescente.

Não é de hoje que uniformizadas estão em confusões, algumas delas alvo de investigação por suspeita de envolvimento com o crime organizado. Basta lembrar que no ano passado o presidente da Gaviões foi preso depois de confronto que terminou com a morte de dois palmeirenses. E entre os detidos em Oruro lá se via um dos principais líderes da torcida, um dos responsáveis, aliás, pelas finanças da Fiel.

Não sou contra a existência das organizadas, pois acho uma medida arbitrária e que impede o direito de livre associação. Mas se há ligação com atividades criminosas a história muda de figura. Com que intenção torcedores entram num estádio com sinalizadores usados por tripulações de navio e que podem atingir até 300 km/h? Mesmo outros sinalizadores, que não têm o mesmo efeito do naval, podem colocar fogo numa bandeira ou ter estilhaços espalhados atingindo e ferindo torcedores. Assim como a tragédia de Santa Maria (RS), cuja causa, aliás, também foi um sinalizador, a morte na Bolívia parecia desastre anunciado. E enquanto não aumentar a fiscalização, fiscalização que foi falha em Oruro, outros acidentes podem acontecer.

Diante desse quadro, que não se restringe ao Corinthians, muitíssimo pelo contrário, basta lembrar as ameaças de integrantes da Mancha Verde à diretoria e aos jogadores palmeirenses no ano passado, não consigo entender a postura de torcedores e da diretoria do Grêmio. Já punidos pela Conmebol depois da avalanche que resultou em oito feridos na nova arena do clube, os gaúchos insistem num setor popular no estádio para os torcedores ficarem de pé, podendo se jogar um em cima do outro e correndo o risco de mais um acidente.

O Corpo de Bombeiros é contra, mas a direção do Grêmio, como a de tantos outros clubes brasileiros, parece refém de torcedores profissionais. Os que dependem direta ou indiretamente do clube e seu escudo, fazendo do torcer um modo “lucrativo” mas perigoso de viver.”

Em seguida, fiz três questões, que seguem valendo:

1) E o San José? Como mandantes do jogo, os bolivianos também têm responsabilidade pela tragédia. Permitiram a entrada de artefatos bélicos e não garantiram a segurança da galera. Confusões, para não usar termo mais forte, brigas de torcidas e sinalizadores em estádios não são “privilégio” de Brasil ou Bolívia. Basta ver o que acontece na Colômbia, Argentina e Paraguai, sede, aliás, da Conmebol;  

2) Cadê o governo? Em ano de Copa das Confederações, o país que vai receber o Mundial de 2014 poderia aproveitar o caso para rediscutir a questão da segurança em seus estádios. Policiais dizem que, assim como aconteceu na Bolívia, a fiscalização da torcida é feita por amostragem e sinalizadores navais podem acabar entrando em nossos estádios também. No mínimo uma campanha de conscientização deveria ser feita;

3) E o Kevin? Enquanto se discute a pena para o Corinthians e a Libertadores-2013 gera debates acalorados por conta do ocorrido em Oruro, nada, absolutamente nada trará de volta a vida de Kevin Espada, que era fanático pelo San José. Para ele não haverá Libertadores em 2014, 2015, 2016… São momentos como esse que podem fazer a gente repensar toda uma existência. E ver que futebol não é tudo. Muito longe disso.



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