A entrevista



Como terminou a Copinha sexta e novamente ouvi alguns reclamando que a nova safra de jogadores não sabe dar entrevista, diz o óbvio (como se o óbvio fosse necessariamente um problema, quando não é) e não está preparada para lidar com a imprensa, resolvi reproduzir coluna da semana retrasada que publiquei no LANCE!, onde tenho espaço cativo todas as terças. Até porque, de uma forma ou de outra, trata do assunto. E o problema é muito mais complexo do que pensam ou querem alguns:

“Volta e meia reclamamos da atitude de alguns jogadores, técnicos, dirigentes e políticos, que respondem mais do mesmo sem fugir do script. Reclamamos de jornalistas que fazem as mesmas perguntas e encontram respostas vazias. Entrevistar é uma arte que depende não só de quem questiona, mas também do entrevistado. E da sintonia entre os dois. Seja no mundo do futebol e dos esportes em geral, seja fora dele.

A forma como a entrevista é feita, o contexto, a relação estabelecida entre os lados, enfim, tudo é vital. A comunicação depende do modelo e do formato da entrevista. É cara a cara, por e-mail, gravada, filmada? Ao vivo ou não? E o tempo de duração? Qual a intenção do entrevistador e seu veículo, qual a do entrevistado e sua assessoria? É muita coisa em jogo.

A seleção norte-americana de basquete, por exemplo, evita que seus atletas sejam entrevistados na saída da quadra, logo depois do jogo, com receio de que digam algo intempestivo e inadequado. Em tempos de internet e redes sociais a situação fica ainda mais complicada.

Vi uma peça interessante sobre o mundo das celebridades e sua relação com o público sedento de notícias, especialmente as ruins (para os outros), e a imprensa, justamente aquela que considera o furo de reportagem a coisa mais importante do mundo.

“A Entrevista”, protagonizada pelos atores Herson Capri e Priscila Fantin, espetacular no papel de uma artista de TV, trata justamente dessa relação e desconstrói algumas ideias preconcebidas que alimentamos ou ajudamos a alimentar. Especialmente quando o jornalista passa a se achar melhor do que a estrela e entra num mundo de aparências, perdendo o contato consigo mesmo, o próprio entrevistado, o público e sua profissão.

Adaptada de um filme do holandês Theo Van Gogh, sobrinho-neto “daquele” Van Gogh, um dos maiores pintores da história, “A Entrevista” nos transporta, mesmo que indiretamente, ao mundo da bola. A versão brasileira leva um jornalista político afastado de suas funções em Brasília, um sujeito que gostaria de estar cobrindo um escândalo no Ministério do Esporte, ligado à CBF e à construção dos estádios para a Copa, a entrar numa seara que considera “menor”: a das celebridades instantâneas, o mundo das aparências e do glamour.

No futebol ou fora dele, a base da entrevista tem que ser o interesse pelo outro e por aquilo que ele tem a contar. Todo mundo tem uma história, basta querer ouvi-la. E pode ser a dos coadjuvantes. Ou a do jogador que parou, teve que lidar com a perda da fama, dinheiro e assédio e partiu para novos rumos. A de vestiários. A de concentrações. Há tantas…

E já que falei em teatro e entrevistas, outra peça muito boa (“Filha, Mãe, Avó e Puta: Uma Entrevista”), montagem de Guilherme Leme, narra a trajetória da criadora da grife Daspu e ensina muito sobre a vida e a arte de perguntar. A protagonista é a ex-prostituta, não o jornalista. E é assim que deveria ser, como em toda boa entrevista.”



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