O depois de amanhã



Reproduzo, abaixo, coluna que publiquei no LANCE! na última terça sobre o esporte olímpico brasileiro e problemas que temos de enfrentar seja na base, seja no topo da pirâmide:

“A visão de curto prazo impera em muitos setores do Brasil e no esporte, pelo que vejo, não é diferente. Tenho a impressão de que mesmo quando pensamos no amanhã deixamos de lado o depois de amanhã.

O governo brasileiro, descontente com o desempenho de nossa delegação em Londres, duas medalhas a mais que na Olimpíada de Atlanta, em 1996, quer acelerar o investimento em esporte, focando nos atletas de ponta e já pensando em bons resultados para 2016. A cúpula do Comitê Olímpico Brasileiro diz que a meta é ficar entre os dez primeiros nos Jogos do Rio. Para isso, imagino, vai pedir ainda mais dinheiro público, quando a questão deveria ser outra e o foco, mais abrangente.

Não temos, até aqui, uma política nacional pública para o esporte que, com raríssimas exceções, não é bem tratado nem na base nem no alto rendimento. Tirando o futebol, costuma ser lembrado de quatro em quatro anos, quando a cobrança recai mais sobre atletas que sobre políticos e dirigentes, quando deveria ser o contrário.

Nos Estados Unidos, 60% dos menores infratores não frequentavam a escola havia pelo menos um ano quando foram detidos, o que ampliou a discussão sobre como o esporte pode ter um papel de inserção social se trabalhado bem na base e no topo, onde estão os atletas de alto rendimento, muitos dos quais viram referência para a sociedade.

A questão não é ficar entre os dez primeiros em 2016, mas procurar um caminho para massificar a prática esportiva. Levar os alunos às escolas, mas levar também os esportes, capacitando professores e remunerando-os adequadamente, inclusive os de educação física. Construir praças e locais para a prática de esportes e inseri-los de vez no campo universitário, como há décadas ocorre nos EUA. Lá as universidades o usam como uma de suas principais ferramentas de marketing, algo raro por aqui. Com a crescente terceirização do ensino e da educação, competições universitárias deveriam ser incentivadas, bem como sua ligação com o esporte de alto rendimento.

Nossas maiores universidades poderiam pensar no exemplo norte-americano e dar bolsa de estudos, alimentação, estrutura acadêmica e de treinamento para alunos de potencial. Mas o potencial deve ser observado lá atrás, em projetos como o Programa de Desenvolvimento Olímpico, cuja sigla em inglês é ODP, tocado pelos norte-americanos para descobrir novos talentos em diversas modalidades já no período escolar. O trabalho é feito por regiões e pela faixa etária dos estudantes, tendo a escola e professores de educação física como aliados. Foi por intermédio do ODP, que realiza clínicas, seminários, excursões e campos de férias, que Hope Solo, uma das melhores goleiras de futebol do mundo, foi descoberta em Richland, Estado de Washington.

Aqui, infelizmente, as ações ainda são esporádicas e pontuais, caso da Metodista, de São Bernardo, que virou referência no handebol masculino, e da UNIP, que optou por parcerias com clubes como o Esporte Clube Pinheiros e algumas prefeituras de São Paulo. Mas ainda é pouco, muito pouco.”



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