Fora do eixo



Reproduzo abaixo coluna que publiquei ontem no diário LANCE! sobre ações pontuais com vistas à preparação brasileira para os Jogos de 2016, no Rio:

“Uma das lições do desempenho do Brasil em Londres é, a meu ver, que a decisão sobre o destino dos investimentos em esportes olímpicos não deve ficar só com o COB. Quanto mais ações independentes, melhor.

Com os Jogos no Rio, novas oportunidades devem surgir e espero que saibamos aproveitá-las, formando novos polos de desenvolvimento do esporte no país, polos que não se concentrem apenas na região Sudeste, saindo do eixo Rio-SP.

É o caso do Ceará, que resolveu investir em basquete. O técnico e comentarista Alberto Bial prepara o lançamento do “Basquete Cearense”, time que deve ser bancado pela iniciativa privada e pelo governo local para colocar a região na elite do esporte nacional e levar a molecada à pratica da modalidade. Os jogos da equipe serão num estádio para 8 mil torcedores e parte da preparação acontecerá na China, em excursão que está sendo agendada para setembro. O mais interessante, porém, é a formação de núcleos em todo o estado, com contratação de treinadores e monitores para orientar a garotada.

No Piauí a ideia é aproveitar o ouro de Sarah Menezes para investir com mais força em núcleos de judô, algo que também está sendo feito na Bahia, assim como o Pará estuda montar um centro para desenvolver talentos para a luta olímpica, estilos livre e greco-romano.

Segundo me relata o advogado Alexandre Miranda, especialista em direito esportivo do escritório AidarSBZ, outro projeto interessante é o tocado pela ex-jogadora Paula, que comanda o Instituto Passe de Mágica. Um trabalho independente do Comitê Olímpico Brasileiro voltado para atletas de alto rendimento que devem competir em 2016, além de atuação em núcleos de basquete para crianças em situação de vulnerabilidade social.

Para 2016, o instituto foca em cinco modalidades: boxe, esgrima, levantamento de peso, remo e taekwondo. Administra os projetos esportivos em parceria com as confederações graças a leis de incentivo ao esporte, tendo a Petrobras como patrocinadora. Os atletas recebem bolsa-auxílio e de estudos, plano de saúde e odontológico, vales pra transporte e alimentação, seguro de vida e, no caso do boxe, moradia. Custeio de viagens para competições internacionais também entra no pacote.

Atletas de alto rendimento devem ser incentivados e apoiados, não lembrados apenas de quatro em quatro anos, como costuma acontecer no Brasil. O apoio, porém, tem de começar lá atrás, na formação e no processo de detectar jovens talentos. E isso os núcleos espalhados pelo país, muitos com apoio de leis de incentivo fiscal e também da iniciativa privada, podem fazer. São ações importantes, embora pontuais.

Sigo acreditando que a revolução esportiva com a qual sonham alguns só irá acontecer se atrelada à reforma do sistema educacional e tocada como política de estado. Se lembrarmos que temos quase 40% de analfabetos funcionais entre os universitários do Brasil vamos perceber que o rombo é muito maior e mais sério do que o debate sobre a posição do Brasil no ranking de medalhas. Para chegar ao topo, insisto outra vez, precisamos de base.”



  • Henrique

    Iniciativa da Paula parece boa. Queria saber como ela recebe o dinheiro. Petrobrás abre conta em nome do instituto? Como presta contas? TCU confere gastos? Você sabe quantos atletas são ajudados? COB não tem que dar permissão pro trabalho? Ideia foi dela ou foi das confederações? Exagerei nas perguntas, acontece que projeto me pareceu interessante. Melhor do que gastar com burocratas de COB e confederações. Impressão é que dinheiro vai diretamente para os atletas.

    • Henrique

      Pelo que estava lendo na Inglaterra é mais ou menos assim: atletas recebem dinheiro de loterias sem que ele tenha que passar pelo comitê inglês. Isso tira força do comitê. No Brasil como comitê decide destino do dinheiro das loterias quem se dá melhor com comitê recebe mais. Atletas mais bem relacionados têm vantagem na jogada. Não é mais ou menos assim?

      • janca

        Os valores são depositados, segundo me informou o escritório de advocacia que dá assessoria ao instituto da Paula, em conta aberta pelo Ministério do Esporte com utilização para aquela finalidade específica que consta do projeto aprovado pelo governo. Que eu saiba são 105 atletas ajudados e o trabalho não depende de uma permissão ou autorização do COB para ser feito, por isso que digo que é independente. A ideia, também pelo que me consta, foi do instituto da ex-jogadora em conjunto com as cinco confederações ajudadas. E formatada por eles. Acho um projeto interessante que faz o dinheiro, pelo que sinto, chegar com mais facilidade ao atleta e não se perder em tanta burocracia e executivos no caminho. Talvez, guardadas as devidas proporções, como acontece na Grã-Bretanha. Repito: guardadas as devidas proporções. Abs.

  • Alexandre

    Lição q. fica do ouro da Sara Menezes é q. esporte não se pratica só no sul e Brasil como país continental q. é tem de olhar pra outros cantos. Quantos sabiam que no Piauí tinha um centro forte que levava o nome da futura campeã olímpica? Você sabia Janca? Eu não. O COB sabia? Quantas Saras não teremos no Nordeste e q. se perdem no caminho porque ninguém sabe delas e ninguém ajuda?

    • Alexandre

      Ressalva faço pro boxe no projeto da Paula porque vocês viram que deu confusão. A Adriana, q. ficou com o bronze, queria treinar no Pará, perdeu pai e mãe nos últimos dois anos e foi obrigada pela confederação a morar em SP porque lá ficava a sede da confederação. Isso não está certo. Por isso a prática esportiva tem de ser descentralizada. A Paula oferece moradia pro boxe, melhor seria ajudar uma Adriana a poder treinar no estado e na cidade onde estão seu técnico e sua família.

      • janca

        Antes da Olimpíada de Londres e do feito da Sarah Menezes eu não sabia deste centro no Piauí, não, mas o COB certamente sim. No caso do boxe, acredito que você esteja se referindo à Bahia, não ao Pará, mas concordo que é legítimo o atleta querer treinar em casa, perto de casa, com seu técnico etc. etc. etc, caso colocado pela Adriana quando ficou com o bronze. E as confederações deveriam, com suas comissões técnicas, avaliar caso a caso o que é melhor para cada competidor. Neste ponto concordo com você. Abs.

  • Mateus

    Não sei com quem tem que ficar o monopólio da distribuição do dinheiro mas com alguém tem que ficar, se não vira samba do criolo doido. O COB é o responsável por cuidar do alto rendimento, que ele decida que federações merecem mais dinheiro. Uma sugestão é dar menos recursos a esportes coletivos que dão menos medalhas, o Brasil focando em esportes individuais pode crescer e ficar entre os cinco melhores nos Jogos do Rio. Mas só se focar em esportes individuais, como boxe, luta olímpica, judô e atletismo. Deixa um pouco basquete, vôlei e handebol de lado.

    • janca

      Discordo. Concentrar tudo nas mãos do COB é perigoso, pois as verbas são distribuídas para confederações que são a base de sustentação da cúpula do comitê e podem virar moeda de troca, barganha política. Isso acho péssimo. Também sou contra focarmos apenas no quadro de medalhas, investindo muito em esportes individuais e esquecendo os coletivos. Não podemos nos esquecer de nossa tradição (que é forte em esportes coletivos). E não precisamos ficar entre os cinco ou dez melhores no Rio. Aliás entre os cinco certamente não ficaremos, não sei de onde você tirou essa previsão. Por mais que se invista em esportes individuais o trabalho deveria ter começado a ser feito lá atrás. Quatro anos são um período pequeno para “fabricar” campeões.

  • Fora Nuzman

    COB fracassou. Ganhou R$ 100 milhões a mais pro ciclo olímpico e Brasil teve queda no número de finais e desempenho pior do que em Pequim. O homem está desde as Olimpíadas de 1996 no cargo e não tivemos evolução nenhuma de lá pra cá. Pergunta que não quer calar: ele vive de quê?

    • janca

      Houve avanços em alguns esportes, retrocesso em outros. Conquistamos duas medalhas a mais do que Pequim-2008, mas o mesmo número de ouros do que Atlanta-1996 e dois a menos do que Atenas-2004. Em relação ao número de finais, mesmo com mais dinheiro, caímos de 41 em Pequim para 35 em Londres. E isso é preocupante.

  • Fora Nuzman

    Pode escrever que pra ficar entre os dez em 2016 ele vai pedir mais grana pro governo. Chega de promessas vazias. Chega de concentrar poder. Chega de aparecer em fotos ao lado de poderosos. Chega de lamber a bota dos políticos. Fora Nuzman.

    • janca

      Pedir mais grana certamente vai, mas a questão é da estrutura do esporte brasileiro, não se restringe ao nome de A ou B. Veja a CBF. Saiu Ricardo Teixeira, entrou José Maria Marin, o vice mais velho do antecessor. Mudou muita coisa? A saída do Nuzman não basta. Adianta trocar seis por meia dúzia? O problema não é o Nuzman, insisto, mas a estrutura do esporte brasileiro, a formatação do COB e da CBF, das confederações e federações, a falta de rotatividade no poder, os cartolas são sempre os mesmos…

  • Vaz

    Desculpem mas a coisa não pode ir para o lado do esporte que dá mais medalhas e o que dá menos. Acho que desde a Olímpiada a coisa está indo mal com esta neurose por avaliar o sucesso pela quantidade de medalhas que teremos que conquistar. O que interessa são metas (que não são necessáriamente medalhas mas sim evolução nas posições em cada prova e principalmente nos índices Olímpicos) e a base que resalto sempre é ai o papel do governo e não o de financiar esportes e atletas de alto nível .
    Talvez a pior coisa por aqui seja a discriminação de atletas e esportes que é muito frequente no Brasi. Se não souber jogar futebol virá fracassado, inferior, é tachado de praticante de esporte de fresco, não há espaço para outra pratica a não ser futebol nem que seja de salão. Se houver uma quadra esqueça o uso para qualquer outra prártica esportiva. Embora a maioria absoluta seja um grosso e perna de pau, se não jogar futebol esqueça qualquer outra coisa. É a lavagem cerebral a que é submetido o brasileiro que só pode jogar futebol, programas esportivos só falam de futebol, só se cria leis e regras para o futebol e fim de papo. Em nossos estádios as raías olímpicas foram retiradas e no Engenhão só existe por obrigação contratual (trata-se de uma conseção temporária) ou seja o garoto ou garota precisa de muita força de vontade para atravessar a cidade e encontrar um equipamento esportivo “meia boca” a aquilo que gosta e tem aptidão de praticar. Em 99% estes futuros atletas abortam seus sonhos por total falta de condições.Não somos o país do futebol, somos a Ditadura do futebol o que é muito diferente. Atenção, não sou contra o esporte que gosto mas sim contra o “massacre” futebolístico diário.
    Depois disto alguém consegue imaginar deixar o futebol de lado? Em um dos comentários a proposta é deixar basquete (estava abandonado), vôlei e handebol de lado mas nada sobre futebol e o pior é que isto começa a ganhar corpo.
    Só para informação o maior beneficiário de recursos públicos chama-se futebol. Surpreendidos? Basta só verificar que existe até uma loteria especifica para o futebol chamada Time Mania (para pagar dívidas federais como INSS, Fundo de garantia e etc..) e que de longe arrecada 20 a 30 vezes mais por ano do que os R$ 2 Bi gastos na Olímpiada e que tanta revolta causa. Não estou incluindo ai os subsídios através de imposto, redução e perdão de dívidas que continuam sendo geradas apesar de tudo. Hoje está sendo debatido um projeto de lei ente Congresso a CBF e Ministério dos Esportes pode a partir de uma nova renegociação de dívidas públicas dos clubes de futebol levar a perda de pontos e até rebaixamento de clubes em caso de continuarem após esta negociação a gerar novas dívidas e não pagarem o que devem ou seja, pela énéssima vez vai dançar dinheiro público na coisa e depois ficamos uma pilha fazendo contas de quanto custou cada medalha. Será que tem jeito?
    Como mudança de base é necessário entender que esta ou aquela prática esportiva só é sucesso ou não a partir do número de praticantes, se não estimularmos isto e começarmos a valoriza-los continuaremos a propor idéias estápafurdias e ou olhando só um lado e a coisa não anda.

    • janca

      Oi Vaz. Concordo com muito do que você coloca aí, não só a respeito da ditadura do futebol mas também em relação ao quadro de medalhas, que não pode virar uma neurose ou obsessão. Mas vejo alguns pontos talvez de forma diversa. Entendo quando você diz que o papel do governo não é o de financiar atletas de alto nível, mas aqui quero discordar um pouquinho. Se repassa, especialmente via loterias, tanto dinheiro para o COB, o papel também é o de financiar atletas de alto rendimento, sim. E faz isso inclusive via leis de incentivo, algumas que nem federais são, não só por intermédio das loterias. Sobre problemas com clubes de futebol, muitos deles inadimplentes, o governo tem de cobrá-los, exigindo, por exemplo, ou impondo talvez seja o termo mais adequado, uma lei de responsabilização de dirigentes por seus atos, muitas vezes irresponsáveis. Mas isso não exime o governo de cobrar resultados e ações do COB ou de quem for que estiver usando dinheiro público para financiar o esporte. Concordo sobre a massificação esportiva, que tem de estar atrelada a uma reforma, como tenho insistido, do sistema estudantil brasileiro. Abs. e ótima tarde de quarta procê, Janca

  • Luiz Marfetán

    Cada medalha ganha em Londrés custou aos cofres públicos 19 milhões e 400 mil reais. Dividindo o que o COB recebeu pelo nº de medalhas. Caro pá caramba!!! Vi uma vez uma luta entre índios da amazônia, tipo luta greco-romana. Bons de briga é quem sabe bem treinados não dariam um bom caldo!

    • janca

      E se você for considerar que neste ciclo olímpico foram gastos cerca de 2 bilhões de reais só de dinheiro público…

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