O que é o quê?



A Olimpíada é feita de histórias e uma das mais marcantes dos Jogos de Londres é a de Guor Marial, que vai competir na maratona olímpica masculina como atleta independente.

Sua história lembra a de Valentino Achak Deng, separado da família quando criança pela terrível guerra civil que devastou o Sudão, matando cerca de 2 milhões de pessoas.

No caso do maratonista, ele foi sequestrado também criança e levado a um campo de trabalho forçado. Vinte e oito membros de sua família foram mortos. Só de irmãos perdeu oito no conflito. Após passar a noite num buraco, conseguiu escapar e enfrentando dificuldades imagináveis e inamagináveis foi parar no Egito. Conseguiu refúgio político nos Estados Unidos e hoje treina no Arizona.

Apesar de viver legalmente no país, não pode competir sob a bandeira norte-americana e se recusou a defender o Sudão. Competir pelo Sudão do Sul tampouco é possível, pois o país não tem um comitê olímpico nacional montado e reconhecido internacionalmente. A saída, decidida em 20 de julho, foi competir sob a bandeira do Comitê Olímpico Internacional, como atleta independente, confirmando presença na prova que acontece no próximo domingo, dia de encerramento dos Jogos.

Valentino Achak Deng, o outro sudanês que citei aqui, cuja história lembra a de Guor Marial, tem uma saga que pode ser lida na obra “O Que é o Quê?”, do norte-americano Dave Eggers. É um relato impressionante que recomendo. A odisseia de um menino separado da família pela guerra do Sudão, a travessia da África, enfrentando perigos naturais, milícias armadas e animais selvagens e a chegada aos Estados Unidos para começar nova epopeia.

Relatos impressionantes que para servem para repensarmos a experiência humana em nossa passagem pelo planeta. O homem é um bicho extremamente complicado e capaz de fazer as piores coisas possíveis. Mas as melhores também.



  • Tiago

    Janca, você elogiava tanto nosso handebol, veja o que aconteceu hoje. Mesma campanha de outras Olimpíadas. Variação sobre o mesmo tema. Caímos nas quartas-de-final e bye-bye medalha. Não comemoramos cedo demais? Não faltou preparo psicológico? Não está faltando preparo psicológico para os brasileiros? Pra mim é nosso maior problema nessas Olimpíadas.

    • Tiago

      Desculpe fugir do assunto, história deste sudanês deve ser muito bonita, mas hoje o que me irritou foi o handebol. Tínhamos o jogo nas mãos e deixamos escapar a vitória por nervosismo puro. Entregamos de bandeija pra Noruega. De que adianta ser primeiro do grupo assim? Tô revoltado com a derrota. Ontem no vôlei de praia foi a mesma coisa. Apagão da dupla masculina. Uma merda.

      • janca

        E sigo elogiando a evolução do nosso handebol feminino, que é visível, Tiago. Entendo sua frustração pela derrota de hoje, que é minha, das jogadoras, de nós, brasileiros, mas o crescimento está aí e a derrota contra a Noruega faz parte do processo. Na primeira fase nunca tínhamos ido tão bem, foram 5 jogos e 4 vitórias espetaculares. Agora que houve um apagão no segundo tempo hoje, houve. Só que quando acontece com o Brasil damos um peso diferente do dado quando acontece com atletas de outros países. A Isinbayeva, por exemplo, amarelou? Não, como ela mesma disse não é uma máquina. Nenhum de nós é. O que não quer dizer que psicologia do esporte não seja importante. É importantíssimo e sou um dos maiores defensores dela para todas as modalidades. Mas derrotas acontecem, Tiago. Como vitórias também.

    • Vaz

      Tiago concordo parcialmente com você mas penso que assim como assistimos sempre a este mesmo roteiro pelos mais diversos atletas também não conseguimos sair dos mesmos diagnósticos. Temos as mesmas desculpas sempre e as mesmas explicações. Vários fatores interferem em uma boa atuação entre eles os imprevíssiveis como condições climáticas (não foi a razão principal no caso do nosso salto com vara), erros de juizes e etc… e os prevíssiveis e estes podem ser superados e aí começa talvez nosso problema com atletas de alta performace que são: deslumbramento, metas modestas (como estar na Olímpiada), melhorar seu tempo, instabilidade emocional, falta até de caráter (uso de métodos ilícitos ou indiferença com o evento e neste caso temos dois casos emblemáticos), chegar ao evento já justificando eventuais fracassos, mania de recorde sul-americano, comprometimento, esperar o evento para demonstrar rancores seja com quem for (técnicos e frustações pessoais são os preferidos), mas o maior de todos:

      – Aquilo que Guor Marial (assim como vários outros pelas mais diversos razões) nos proporcionou que é a motivação, o desejo quase deseperado de superação e provar a ele mesmo que é um vencedor, que não se dobra a dor e aos horrores que passou. Chama a atenção para o desespero das pessoas que passam pelo que passou. É assim com os vencedores e também com aqueles que vão para lá para vencer (embora nem sempre isso seja possível). Acho que aí temos um dos nossos grandes problemas. Muitos não entendem o que estão fazendo lá.

      • janca

        Oi Vaz. Acho que você tocou em pontos importantíssimos. Muitas vezes não conseguimos sair dos mesmos diagnósticos, é verdade. Mas você coloca bem a questão quando diz que há imprevistos, que fazem parte dos Jogos, só que existem fatores previsíveis. Acho que até avançamos para enfrentar os previsíveis, mas ainda temos um bocado a caminhar. E como você mesmo colocou questões como deslumbramento, instabilidade emocional, comprometimento (para mais ou para menos) e outros pontos que tão bem apontou aí podem todos ser trabalhados. E também acho que muitos não entendem o que estão fazendo lá. Isso é impressionante, mas é um dado de realidade. O que estamos fazendo no mundo? Grande abraço e valeu pelas colocações que fizeram eu parar um pouco (ou um muito) para pensar, Janca

        • janca

          E mudando de assunto (desculpe, mas quero tocar no tema), que jogo China e Japão no vôlei feminino. Que emoção! As lágrimas das chinesas, a alegria das japonesas, o contraste da vida e o separação tão tênue entre a vitória e a derrota. Japonesas venceram por 3 a 2, estão nas semifinais, foram cinco sets equilibradíssimos, um jogão!!! Abs.

          • janca

            E que vitória sensacional da seleção feminina do Brasil contra a Rússia. Incrível!!! Estamos nas semifinais. Foi o “troco” do handebol, onde ficamos em primeiro na fase inicial, pegamos a Noruega, quarta da outra chave, e perdemos. No vôlei as brasileiras quase não se classificam para as quartas, entraram como quartas colocadas, pegaram a Rússia, primeira da outro grupo, e venceram. Três sets a dois, um tie-break equilibradíssimo que vencemos. Faltou equilíbrio emocional para as russas? Acho que não. Se fosse do lado de cá (a derrota) iriam dizer que foi por desequilíbrio emocional. Que até faz parte do jogo, por que não? Como disse estamos aí para vencer e perder.

  • Lily Martins

    Bom dia João. São essas histórias bonitas, como também a do Pistorius, que mantêm os Jogos interessantes e ainda despertam emoção. Num mundo tão complicado e consumista, um mundo tão imediatista, é bonito ver atletas como eles, a gente aprende com as histórias dos outros e entende que um ouro, uma prata ou um bronze podem ser menos importantes do que parecem. Há coisas mais importantes na vida. Quando dá sigo acompanhando seu blog, mais agora nas Olimpíadas do que antes, parabéns pelas dicas e pelos temas diferentes que você continua abordando neste espaço. Bom dia pra você, Lily

    • janca

      Há coisas muito mais imporantes na vida mesmo, Lily. Muuuito mais importantes. E cada um tem que saber o que é seu ouro, sua prata ou seu bronze. Um ótimo dia pra você também, João

  • Johannes

    Fantástica, triste e ao mesmo tempo um exemplo a história do Deng, …….e a mama Africa ein ?..tantas histórias como a do Deng, só que com finais tristes..é uma pena..

    • janca

      É, Johannes, tantas histórias com finais tristes. Isso é impressionante. As histórias tristes… Tantas, tantas, tantas. Grande abraço, João Carlos

  • Carlos Otsubo

    Diversas histórias de superação!!! Como moro em Cape Town, minha história favorita é a do Oscar Pistorius!!!! Ele conseguiu mobilizar a África de uma maneira inesquecível!! Conseguiu status de herói como o Chad Le Clous que bateu nada mais nada menos que o seu ídolo Phelps!!! Assim como Natalia Partyka é uma heroína na Polônia!!!

    Olimpíadas é a prova de que vc não precisa vencer ser o melhor pra ser um campeão!!! Ser competitivo, lutar até o fim, passar pelas suas adversidades e superações também são características de um herói!!! Alguns atletas brasileiros, aparentemente, faltaram nessa aula….

    • janca

      Mas outros não faltaram, como Arthur Zanetti, um jovem dedicado, humilde, pés no cnão, que conquistou de forma incrível o inédito ouro na ginástica. Já sobre o Pistorius é a prova, como você diz, de que você não tem que ser o primeiro _nem o segundo, nem o terceiro_ para ser um grande campeão e fonte de inspiração pra tanta e tanta gente. Fiquei muito emocionado ao vê-lo (refiro-me ao Pistorius) na pista, competindo com os demais. Foi um momento marcante para o esporte, Carlos. Grande abraço, Janca

      • Luiz Fernando

        Janca,
        Concordo com o Carlos…para mim Pistorius é o maior nome desta Olimpíada….Trabalho em um grupo de empresas, onde uma delas faz inclusão de PCD´s (pessoas com deficiência) no mercado de trabalho, tenho muito contato com o pessoal que trabalha nesta empresa, e vejo como ainda há muita resistência a este público. A Para-Olimpíada é uma forma interessante de inclusão, mas ver o Pistorius competindo como outro qualquer foi sensacional e emocionante. Abraços.

        • janca

          Foi mesmo, Luiz Fernando. Para mim foi o momento dos Jogos. Mais legal inclusive do que o ouro do Bolt. Foi realmente emocionante. Abs.

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