Pequenas revoluções



Reproduzo, abaixo, coluna que publiquei ontem no diário LANCE! e que trata do uso do esporte e da música, duas “linguagens” universais, como instrumentos de inserção social. Após a coluna seguem três notas sobre exemplos de boas iniciativas mundo afora.

“O nome é curioso, mas talento ele tem de sobra. O pianista Lang Lang, virtuose que pode ser chamado de “Neymar da música clássica chinesa” ou Messi, como queiram, e que quinta completa 30 anos de idade, é considerado um exemplo para a China, cuja população se aproxima de 1,5 bilhão de pessoas. Ao conhecê-lo comentou o quanto achava importante a presença de um ídolo para inspirar os jovens e como, a partir disso, pequenos projetos podem ser tocados para fortalecer a educação por intermédio da música. Ou, no caso do Brasil, pelo esporte, já que gostamos tanto de futebol e logo mais teremos Copa e Olimpíada por aqui.

Segundo o pianista chinês, o sucesso de sua carreira tem feito cada vez mais compatriotas estudarem piano e outros instrumentos musicais. As aulas de música começam não só a ter maior procura nas escolas, mas a invadirem outras searas, como  disciplinas de informática e novas mídias, história, geografia e matemática, que podem ter conceitos ensinados a partir da vida de grandes compositores e da própria evolução da arte. Num país onde florescem a música clássica e também a pop, que trata do cotidiano, viagens, problemas sentimentais e profissionais, entre outros, professores têm usado as duas em salas de aula justamente para discutir a trajetória da humanidade, geopolítica, conflitos internacionais, algo que podemos fazer por aqui também. Por intermédio do esporte.

O futebol é “instrumento” a ser usado em escolas não apenas em atividades de educação física, mas especialmente nas salas de aula. Fiz isso várias vezes com uma molecada para a qual dei aulas de “redação criativa”, trazendo assuntos de interesse dela para debater tópicos de geografia, história, matemática e ciência. Peguei como inspiração o trabalho do escritor norte-americano Dave Eggers, que formou vários centros de literatura para jovens nos Estados Unidos, incentivando-os a escrever de maneira criativa. Sobre assuntos que lhes interessassem, como eleições americanas, finais da NBA e problemas comunitários. E passou a publicar os textos mais interessantes e as propostas para um mundo melhor nem que fosse na rua, quarteirão ou bairro de cada estudante. Uma pequena grande revolução.

Atrás de trabalhos como o de Eggers é que se lançou mundo afora Oliver Alexander, que montou o “Agora”, um projeto para descobrir que microrrevoluções existem em outros cantos do globo, caso da África, continente de que tão pouco se fala por aqui e com o qual tanta semelhança temos. Microrrevolução é aquela iniciativa criada por um ou mais indivíduos que influencia o meio em que vivem pra melhor.

Em tempos de Copa do Mundo no Brasil, apesar de todas as mazelas que conhecemos no campo da organização do evento, o Mundial ainda pode produzir muita coisa. E a Olimpíada também. Seja fazendo do esporte pano de fundo para as aulas, seja incentivando trabalhos comunitários ou abrindo a cabeça das pessoas para novas oportunidades e outras realidades. Se não podemos esperar muito do governo, talvez possamos de nós mesmos. E de quem está a nosso lado.”

* China/Japão: Para a Copa de 2002 o Japão não pensou apenas na criação de esplêndidas arenas multiuso. Incentivou projeto parecido com o que faria Pequim, em 2008, atuando em escolas e comunidades locais, cada uma abraçando uma causa. Centenas de parques foram construídos ou reformulados pra receber os cidadãos com espaço pra prática de tênis de mesa, xadrez, recreação, atividades artísticas, tai chi…;

* Israel/Palestina: O futebol não resolve conflitos, mas que pode ajudar a abrandá-los pode. Escolas israelenses começam a incentivar o intercâmbio com palestinos da Cisjordânia formando times sub-11, sub-13 e sub-15 com jogadores dos dois lados. A mesma coisa é feita em conservatórios musicais, que montam orquestras com jovens judeus e palestinos, uma forma de aproximá-los por linguagens universais;

* África/Europa: A saga de jovens jogadores em países como Sudão, Etiópia e Congo deve virar livro. Um grupo de estudantes dinamarqueses escreve a história de 11 atletas que conseguiram chegar ao Leste Europeu e as experiências vividas em campos de refugiados na África. Uma das poucas atividades recreativas que tinham era o futebol. Outra era o desenho, ambas incentivadas por missionários europeus.



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