O futebol na telona



Para quem gosta de futebol e cinema segue uma dica cultural que publiquei ontem no LANCE!, seguida de três notinhas, reproduzida aqui neste espaço para os internautas que por um motivo ou outro não tiveram acesso ao jornal:

“Não é tão comum a associação do futebol com outros campos artísticos, como cinema e literatura, embora nos últimos tempos tenham crescido as produções com o principal esporte do Brasil como pano de fundo ou até “pano de frente” no cenário. O futebol, que reúne histórias incríveis, algumas dramáticas, outras divertidas, umas mais pesadas, todas humanas, deveria ser mais bem explorado por cineastas e escritores. E acho que de um tempo pra cá isso tem acontecido, especialmente com filmes ligados a conquistas e histórias de clubes, caso do Santos no ano de seu centenário.

Para quem se interessa pelo assunto e quiser ver produções bacanas uma oportunidade é o CINEfoot, que se intitula o único festival de cinema do Brasil e da América Latina exclusivamente dedicado à exibição e promoção de filmes sobre futebol, e acontece no Rio e em São Paulo. Os cariocas terão a chance de ver os filmes de amanhã (sessão só pra convidados) a 29 de maio no Espaço Itaú de Cinema em Botafogo, e de 31 de maio a 3 de junho no Centro Cultural Justiça Federal. A edição paulistana será de 31 de maio a 5 de junho no Museu do Futebol e no Reserva Cultural. A entrada é franca.

A mostra competitiva, reunindo longas e curtas, terá 28 filmes, dos quais 15 brasileiros e 13 estrangeiros. Sou codiretor de um deles, o “Sobre Futebol e Barreiras”, filmado com três amigos em Israel e territórios palestinos durante a Copa de 2010, na África do Sul, com os personagens discutindo questões de identidade nacional, política (que lá como cá é complicada pacas), religião e, como não poderia deixar de ser, futebol.

Vejo com ótimos olhos a junção do esporte com o cinema que produziu filmes memoráveis. Um deles é “Machuca”, de Andrés Wood, que trata da amizade de dois garotos no ano do golpe militar no Chile que derrubou o governo de Salvador Allende. E lá na periferia do longa estão o campinho de futebol e a várzea num filme de um diretor que sempre foi fã do esporte, tanto que antes havia lançado “Histórias de Futebol”, reunindo personagens tocados tangencialmente pela bola.

Outro filme interessantíssimo é “Match” (ou “Partida da Morte”), que mostra os bastidores de um jogo épico de futebol, durante a invasão alemã a Kiev na Segunda Guerra Mundial. Os ucranianos, mesmo ameaçados de morte, reuniram força para enfrentar e derrotar os nazistas. Baseado no livro de Andy Dougan (“Dínamo: Defendendo a Honra de Kiev”), que comprei em 2001, em Londres, é um filme que recomendo. Como recomendo o livro. E ambos causam polêmica no Velho Continente por conta da Eurocopa, que será justamente na Ucrânia e na Polônia, com receio de que provoquem animosidade contra os alemães.

Do CINEfoot, “Machuca”, que é de 2004, não faz parte, mas há produções muito bem avaliadas como os alemães “Os Cervejeiros de Quilmes” e “O Outro Chelsea: Uma História de Donetsk”, o dinamarquês “Futebol é Deus” e o brasileiro “Ser Campeão é Detalhe: Democracia Corinthiana”.”

* Canal 100: Grande homenageado do festival, o Canal 100, criado por Carlos Niemeyer, e representado por Alexandre Niemeyer, seu filho, terá seis documentários históricos, em sessões especiais, com raras imagens dos quatro grandes do Rio. O Santos, que fez cem anos, será tema de outros dois, que abordam o bi mundial de 1962/63 e o tricampeonato paulista de 1967/68/69, feito repetido agora por Neymar e Cia;

* De olho em 2014: Com vistas à Copa no Brasil, o CINEfoot vai realizar no Instituto Cervantes, também em Botafogo, no Rio, o seminário “Futebol: Cultura e Mercado”, que será dividido em dois módulos. O primeiro terá como tema “Cinema, Estética e Futebol: Canal 100” e o segundo, “Oportunidades para o Audiovisual Brasileiro em Tempos de Copa do Mundo”. O seminário, também com entrada franca, acontece na segunda;

* Projetos, projetos: Em 2004 participei de um grupo para gerar ideias de documentários sobre 13 dos principais times do país, projeto liderado por Rodrigo Teixeira, um dos produtores do filme sobre Heleno de Freitas. E sigo achando, como já achava lá atrás, que a invasão corintiana no jogo contra o Flu, em 1976, merece um baita documentário. Como merece a Lusa, time que adoro, mas essa é uma outra história.



  • Marcos

    O Mauro Beting vai fazer uma trilogia do Palmeiras. É um novo mercado pros clubes faturarem, mas às vezes dá confusão. O Coutinho, Janca, que você citou ontem, não quis aparecer no filme do Santos. O filme do centenário. Não autorizou o uso de sua imagem porque não ia receber pelo filme. Ficou um filme incompleto, porque não dá pra falar de Pelé sem falar de Coutinho. O Coutinho deu muito gol de presente pro Pelé marcar e não vai estar no filme.

    • janca

      Que eu saiba não foi bem assim, Marcos. O Coutinho não deu entrevistas para o filme ou não quis que suas entrevistas fossem usadas no filme porque não recebe por isso. Mas as jogadas de que participou, os gols, enfim, isso a cineasta pode exibir. Como as emissoras de TV também.

      • janca

        O Coutinho entende _e é um ponto de vista que deve ser respeitado_ que, se ele não recebe com o filme ou com livros sobre a história do Santos, por que iria dar entrevistas para serem usados pelo diretor ou autor, enfim? E aparecendo ou não seu nome está intrinsicamente ligado à história do Santos.

  • Eduardo

    O Canal 100 era uma espécie de futebol em 3D. Quando eu era adolescente gostava de ir pro cinema pra ver as cenas dos jogos da rodada, você sentia que estava dentro do campo, nunca mais vi imagens como aquelas. Parecia o 3D de hoje. Melhor que o 3D de hoje. A tecnologia avançou e aquelas imagens que eram melhores do que as de hoje ficaram pra trás. Por que não fazem isso de novo? Eram imagens em branco e preto, merecida homenagem.

    • Eduardo

      Lamento dos times de São Paulo só ter as imagens do Santos. Deviam mostrar de São Paulo, Corinthians e Palmeiras também. Ficou faltando.

      • Adriana

        Quem não viu perdeu. O Canal 100 passava como um tipo de trailer antes dos filmes que a gente ia ver no cinema. A gente realmente achava que estava dentro do campo. E a trilha sonora era um espetáculo. Lindos tempos aqueles.

        • janca

          O Canal 100 era incrível mesmo, lembro quando eu era pequeno, depois nunca mais vi, faz falta, faz falta… E não sei como está a conservação do arquivo… Mas a homenagem é merecida e o debate de segunda, no Rio, com um dos tópicos abordando a linguagem do Canal 100, a estética, enfim, é muito importante. Como é importante discutir as oportunidades para o setor audiovisual em tempos de Copa, pois não serão poucas.

  • tricolor tri mundial

    melhor filme só pode ser o do cUrinthians: ser campeão é um detalhe hahahahaha dá-lhe vasco

    • tricolor tri mundial

      timinho medíocre. libertadores nunca teve nunca viu. vai vasco

      • tricolor tri mundial

        filme do cUrinthians tinha que ser o do cUrinthians faz-me rir. faz-me rir até hoje hahahahaha

        • Adriana

          Se li certo (você com certeza não leu) o filme é sobre a Democracia Corinthiana, aquele movimento do Sócrates (já ouviu falar?), um dos momentos mais marcantes da nossa história recente, que não via os jogadores como objetos dos clubes, via como seres humanos e pensantes que podem ser e são.

          • janca

            E às vezes a separação entre o que é vitória e o que é derrota é tão tênue e subjetiva. A seleção da Hungria, em 54, passou para a história mesmo derrotada na final. A da Holanda, em 74, idem. A do Brasil, em 82, é outro exemplo.

  • Adriana

    Um filme sobre a invasão corintiana de 75 seria bárbaro. Um filme bem feito, um documentário. A Cultura tem imagens muito boas disso, faz uns anos que vi um programa falando daquele jogo, lembrando aquele jogo, a Dutra lotada de Fuscas e Kombis, os corintianos invadindo o Rio e dividindo o Maracanã com os tricolores (cariocas, verdadeiros tricolores). Vitória nos pênaltis, chuva, teve de tudo aquele jogo.

    • Adriana

      Quis dizer invasão de 76, claro. Erro de digitação. Aquele histórico Corinthians x Flu no Maracanã.

      • janca

        E essas imagens não podem ser perder. Tem uma muito boa, talvez tenha visto até na Cultura, mesmo, que mostra uma bandeira do Corinthians colocada em Ipanema ou Leblon, simbolizando a invasão corintiana e a tomada das praias do Rio e, em seguida, do Maraca. Aquela imagem diz muito.

        • HUGO SANTOS

          ESSA HISTORIA DE INVAZÃO É MEIA ESQUISITA, LEMBRA PESSOAS ADENTRANDO A ALGUM LUGAR IRREGULARMENTE, PORQUE NÃO FALAMOS DA MAIOR LOTAÇÃO DO MARACANÃ ENTRE CLUBES, SANTOS E FLAMENGO 1983 – TEM IMAGEM, ESTA SIM FOI HISTORICA.

          • janca

            Hugo, invasão não quer dizer necessariamente entrar em algum lugar irregularmente. E a invasão do Maraca em 76 foi bem mais importante pra história do futebol do que a de 1983. O Santos não encheu o Maracanã como o Corinthians. E ainda perdeu feio. O jogo teve briga e não há comparação com o do Corinthians em 76. Aquele sim o jogo do campeonato.

  • Alê

    Janca, não sei se lembra de mim, termino jornalismo este ano, vi seu filme na Mostra e trocamos e-mails sobre ele. Valeu por ter respondido e pelas dicas no TCC. Seu filme passa de novo em São Paulo? Se passar vou tentar ir de novo e queria que todo meu grupo visse, eles viram o trailer e gostaram. Vocês têm uma visão mais humanista e menos política da coisa, foi o que achei. Você recomendou outros filmes que devem ser bem legais, recomendo o seu pra quem não viu, Sobre Futebol e Barreiras. Como te disse gostei, mas não sei até hoje bem o que achei, é um filme que mexe com todo mundo. Tem menos futebol do que política e religião, acho que você mesmo disse que o futebol é mais como pano de fundo, mas é melhor do que filme sobre conquista do Corinthians, do São Paulo, do Santos ou do Flamengo. O de vocês é um filme de arte. Parabéns e avisa se for passar em São Paulo. É sessão comentada? Na Mostra vi numa quarta-feira, na Paulista, não teve debate depois. Vocês não têm feito debate?

    • janca

      Claro, Alê, que eu me lembro. Em SP passa em 2 de junho, um sábado, às 16hs, salvo engano, no Museu do Futebol. Obrigado aí pelos elogios, se bem que, como costumo dizer, o filme é mais dos outros diretores (José Menezes, Lucas Justiniano e Arturo Hartmann) do que meu. E pode ser visto de várias maneiras. As pessoas têm gostado, sim. Os personagens são interessantes, a gente se identifica mais com uns do que com outros. Há quem não goste, reclame de A ou B, mas não dá pra contentar todo mundo e esse nunca foi nosso objetivo. Mas também não foi o de descontentar _rs. Há muito de futebol, inclusive foi exibido no interior do RS numa faculdade e a discussão foi quase só sobre o futebol no Oriente Médio, há política, há religião, há um pouco de tudo. E há a busca pela paz, que muito cidadão, mas não necessariamente o político, quer. E tivemos sessão comentada em Porto Alegre, mas em São Paulo não. Qualquer coisa os outros diretores, no entanto, estarão lá (no Museu do Futebol) pra conversar caso alguém queira perguntar alguma coisa. Abs. e boa sorte no TCC, Janca

  • Johannes

    Boa Tarde João Carlos,

    Fica anotada a dica dos filmes. Espero ter a oportunidade de assistir o sobre futebol e barreiras no futuro. Indo pra copa de 54 e conjecturando…, teve um gol legal da Hungria que foi anulado, e empataria o jogo. Acho que a Guerra Fria pode ter influenciado a arbitragem , pois a vitória da Hungria (comunista por força da URSS) seria mal vista pelo Ocidente. Assisti na TV, recentemente, um bom documentário sobre a partida da Hungria x URSS no polo aquático nas Olimpiadas de ??? Melbourne??? me faltou a memória…64 acho eu…produzido(ou dirigido) pelo Quentin Tarentino…bem legal

    • Johannes

      1956 em Melbourne…

      • janca

        Boa tarde, Johannes, este eu não vi, não, mas deve ser bacana. Valeu pela dica. E quando estava na Copa de 94, nos Estados Unidos, fui visitar meu pai, que estava nos Estados Unidos na ocasião, e no hotel em que ele se hospedara a garçonete era uma senhora húngara. E ela dizia que quando era criança se lembrava da festa pelo título mundial da Hungria. E nós, que sabíamos que a Hungria nunca tinha sido campeã mundial, ficamos meio atrapalhados. Meu pai até comentou conosco (eu, meu irmão e um amigo nosso) que ela deveria ter sofrido lavagem cerebral do regime comunista pois insistia que a Hungria tinha sido sim campeã do mundo. Depois que nos tocamos que se referia à Olimpíada. O Uruguai não se considera tetra por conta dos títulos olímpicos de 24 e 28? Abs. João Carlos

  • Pedro (Salvador/BA)

    Janca, o festival é uma excelente iniciativa, acho excelente você dar espaço pra isso e outros assuntos tão diferentes do rame-rame do futebol, mas queria deixar uma queixa registrada aqui. Esses festivais, como quase tudo no Brasil, são pro eixo Rio-São Paulo e aqui no Nordeste como em outras regiões do Brasil tem muita gente que gosta de futebol e cinema e literatura e não tem oportunidade de ver nada disso. Falta política cultural pro Brasil. Na TV, em tudo. Vocês acham que o Brasil é só Rio-São Paulo e não é. Vem aqui no Nordeste mostrar seu filme em circuito universitário pra ver como teria repercussão. O Brasil tem que se ligar que é um país continental. Por essas e outras defendo a Copa em 12 sedes, vocês do Sul/Sudeste acham que se fosse só aí estaria bem, não estaria nada bem. Sei que a culpa não é só sua, mas o Brasil é mais que Rio-São Paulo. Abraço

    • janca

      Oi Pedro, eu concordo com você, mas há uma série de questões complicadas, imagino, como orçamento e as pessoas pensam muito sim no eixo Rio-SP. Teria muito prazer em exibir nosso filme aí no Nordeste, no Centro-Oeste, na região Norte, por que não? Muita vontade mesmo. Havendo oportunidade e convite vamos com todo prazer. E repito que concordo que, aí saindo do cinema, o foco do Brasil _e da imprensa_ é muito pro eixo Rio-SP. No meu caso porque vivo no Sudeste. Mas gostaria de ter mais informações sobre o que acontece com o futebol do Nordeste, conhecer melhor as histórias daí, que são muito ricas, quando trabalhei na “Folha” e mesmo depois para o L! fiz umas coberturas muito bacanas aí mesmo na Bahia. Abs. Janca

  • Tiago

    Mengão dá bons filmes. Livro bom do Mengão é Vermelho e Negro, by Ruy Castro.

    • Tiago

      Filme da Lusa tá de brincadeira, Janca. Não enche uma kombi pra ver.

      • janca

        Brincadeira nada. A Lusa teve um dos melhores times do Brasil nos anos 50 e 60. E tem histórias divertidíssimas. Uma delas é a final do Paulista de 73, que graças a um erro de Armando Marques foi dividido entre Lusa e Santos. A Lusa saiu rapidinho do Morumbi antes que o juiz percebesse que havia errado na contagem dos pênaltis. E um jogo épico foi contra o Sport, quando quase caiu pra Série C. Há coisas que só acontecem com a Lusa… Essa é a graça do futebol. Abs.

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