Crime organizado



Depois que a polícia prendeu seis representantes da Gaviões e da Mancha, acusando lideranças das duas torcidas de terem armado confronto no domingo retrasado que culminou na morte de dois “torcedores”, reproduzo coluna que publiquei no LANCE! na última terça, seguida de três observações, pois o assunto segue atual e polêmico:

“Depois do confronto entre integrantes da Gaviões da Fiel e da Mancha Alviverde e da proibição das duas torcidas em estádios de futebol, cresce movimento na Liga das Escolas de Samba para tentar excluir as organizadas dos desfiles já no ano que vem. Seria uma forma de dar uma satisfação à sociedade depois da selvageria que marcou a última apuração do Carnaval paulista.

Mas a saída não é por aí. A Polícia Civil responsabilizou nove pessoas pelo tumulto no Carnaval, não apenas representantes da Gaviões. Presidentes da Vai-Vai e da Pérola Negra, diretor da Camisa Verde e Branco e integrante da Império da Casa Verde, apenas para ficar em quatro exemplos, também foram responsabilizados, o que mostra que o problema não está restrito às uniformizadas e é bem mais amplo que isso.

De acordo com o inquérito policial é preciso apurar possível ligação entre escolas de samba e crime organizado. Não é de hoje que há suspeitas de aliança com jogo do bicho, tráfico de drogas e apostas ilegais, sem falar em lavagem de dinheiro, ainda mais com a grana pública e privada canalizada para sustentar as escolas. Tanto que no Rio o governador Sérgio Cabral lutou para manter bicheiros longe dos desfiles.

Se houve complô para melar a apuração em São Paulo, os envolvidos têm de ser punidos e as escolas, ligadas ou não a uniformizadas, também. Que deixem de desfilar no ano que vem ou entrem na avenida sem recursos da Prefeitura de São Paulo. Mas afastar apenas as que representam uniformizadas e poupar as demais não é solução. Até porque, faço questão de insistir, se membros da Gaviões são acusados de terem participado do tumulto na apuração, a Mancha e a Dragões da Real aparentemente não, enquanto Império da Casa Verde, Camisa Verde e Branco, Pérola Negra e Vai-Vai, que não estão diretamente atreladas a nenhuma organizada, sim.

Por mais que alguns não gostem disso, não há problemas na ligação do futebol com o Carnaval, ligação que começou há pelo menos 80 anos, quando o jornalista Mario Filho idealizou o primeiro desfile no Rio, uma competição entre escolas de samba num período em que a bola parava e não havia muita notícia no mundo dos esportes. Como recordar também é viver, da primeira edição, que passou a preencher as páginas de jornal esportivo comandado pelo próprio Mario Filho, participaram Unidos da Tijuca e as escolas que depois se transformariam em Estácio de Sá, Mangueira e Portela. A disputa caiu no gosto popular e segue até hoje. E não há mal nenhum nela. O mal é outro e está no possível elo entre as escolas, incluindo as que representam uniformizadas, e a contravenção e o crime organizado. É isso o que tem de ser investigado e, caso  constatado, punido. Pois há tempos o samba, como o futebol, virou um grande negócio. E onde há comércio, poder e dinheiro pode haver briga. E nesse caso definitivamente há.”

* Proibir as organizadas nos estádios nem medida paliativa chega a ser. Desde que autoridades decidiram impedir sua presença nos jogos e tentaram até fechá-las, nos anos 90, brigas e tumultos acabaram se dispersando e começaram a ocorrer longe do local das partidas, como nos último dias, dificultando a ação policial. Sem falar que uma simples mudança no nome, caso da Mancha, permitiu às uniformizadas seguirem aí.

* Além do constante monitoramento das redes sociais, que são usadas para marcar brigas entre facções organizadas, a polícia poderia, como já sugeriu o próprio LANCE!, infiltrar agentes nas torcidas para conseguir informações privilegiadas sobre o modo de operação das organizadas e a marcação de novas batalhas. Trata-se de um caso de segurança pública que há muito tempo extrapolou a esfera esportiva.

* Não é de hoje que se sabe que o comportamento humano muda (ou pelo menos tende a mudar) quando ele está em grupo. No meio da multidão o sujeito pratica ações que, sozinho, muitas vezes não faria. Um dos motivos é a vontade de ser parte de algo maior, outro, o de se ver aceito por seus pares e um terceiro, a sensação de impunidade e poder que é enorme quando o indivíduo se acha onipotente.



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