Por uma nova CBF



Reproduzo, abaixo, coluna que publiquei ontem no diário LANCE!, apresentando propostas para mudanças na CBF seguidas de três observações:

“Em vez de ficar discutindo nomes para a CBF deveríamos debater a estrutura do futebol brasileiro e a da própria confederação. Que José Maria Marin deixe de seguir o caminho do antecessor e monte um “governo de transição” para passar a administração da entidade a um conselho gestor. Que teria representantes de clubes, federações, atletas, árbitros, governo e da própria sociedade civil.

O principal é mexer no estatuto e para isso tem de existir vontade política dos clubes da Série A e das federações estaduais, que são hoje os responsáveis pela eleição do presidente da CBF. Que os clubes das outras divisões também possam votar, embora com peso menor do que os da elite. Que o mandato do colegiado, que nomearia uma diretoria profissional e remunerada, fosse limitado a quatro anos, com direito a apenas uma reeleição. E que pouco a pouco a CBF passe a cuidar somente da Seleção, deixando a organização e o gerenciamento dos campeonatos nacionais para uma Liga de Clubes.

Os Estaduais, no formato de hoje, não servem mais. Com raras exceções não atraem interesse do público, nem mesmo do que mora no interior e acaba não vendo os grandes times in loco, times que estão mais preocupados com competições como Copa do Brasil e Libertadores.

O LANCE! deu na semana passada nove sugestões para o futebol do século 21. Concordo com algumas, discordo de outras, mas acho fundamental o início de um debate sobre o futuro do futebol brasileiro. E é isso o que o diário tem feito. Fomentar a discussão de ideias.

Das sugeridas pelo L! a que mais me agrada é justamente a mudança estatutária para criar um Conselho de Administração, além do trabalho para regulamentar a profissão de árbitro no país e tornar a Justiça Desportiva um braço do Judiciário Federal, com orçamento próprio e autônoma em relação às federações e à própria confederação.

Sobre a mudança do calendário nacional, adequando-o ao europeu, tenho minhas dúvidas, ao contrário do L!, que quer ajustá-lo “ao praticado na maior parte do mundo”. Aqui acho que temos que respeitar nossas raízes, período de férias escolares e condições climáticas, como fazem no Leste Europeu, por exemplo. Encontrar o nosso modelo, inclusive o de jogar, que não deve ser o de fora. Tem de ser o nosso. Ganhando, como em 1970, ou perdendo, como em 1982, tem de ser o nosso, uma volta às nossas raízes.

Em relação ao papel social da CBF também tenho uma opinião diferente da do diário. Não acho que seja função da entidade usar o futebol como instrumento de inclusão social e sim do governo, que até pode ser auxiliado por “ONGs de verdade”. Jogar essa responsabilidade para a CBF, a meu ver, não. Como não cabe a ela o combate à pirataria de produtos de futebol. Se administrar bem a Seleção e não a deixar à própria sorte, como fez em todo o ano de 2011, e geri-la com diálogo e transparência, já será um grande passo.”

Observações:

1) Pela proposta do L! seria criado um Fundo de Fomento ao Futebol, que receberia no mínimo 50% da receita bruta da CBF. Penso diferente. A entidade ficando apenas gestora das Seleções e os times criando uma liga para organizar campeonato, sugiro que o fundo receba recursos da liga e não da CBF e que os clubes se comprometam a cumprir dadas obrigações financeiras para disputar as competições;

2) Com a crise na organização da Copa e a confusão na CBF o Comitê Olímpico Brasileiro fica “esquecido”. Mas também ele e as confederações que representa deveriam estudar mudanças no estatuto para impedir que os mandatos sejam eternos. Rotatividade no poder é essencial não apenas na política de um país, mas também nas instituições esportivas. Evita a formação de feudos e vícios administrativos;

3) Para quem gosta de cinema recomendo o filme de Nanni Moretti, “Habemus Papam”, sobre o ataque de pânico de um cardeal escolhido papa no conclave do Vaticano. Trata das escolhas e renúncias que fazemos na vida. E das recusas quando temos diante de nós tarefas para as quais não nos sentimos preparados ou habilitados a cumprir. Temos a opção de deixá-las a outros sabendo que não fazer algo também é uma forma de fazer.



  • João Ricardo

    A proposta é boa porque com menos atribuições a CBF pode se concentrar no que interessa pra ela que é a seleção brasileira. Tem duas coisas que não sei se funcionam. Mudança de estatuto com a diminuição de poder da CBF, porque depende de vontade política, e sua proposta de não adaptar nosso calendário ao europeu. Acho a idéia do Lance melhor. Fazer o calendário brasileiro igual ao europeu. Assim no meio do ano nossos melhores times não perderiam seus melhores jogadores no meio do Brasileirão.

    • Hugo

      Será que é a seleção que interessa a CBF ? Para eles do jeito que está, está bom ! Para que haja modificação, primeiro deve haver um projeto (só no lance! já temos dois), mas os clubes devem se mover. O atlético-mg, o santos e o gremio (se não me falha a memoria) tiveram uma iniciativa, mesmo que sem alarde, de criar um liga de clubes, Corinthians e Flamengo se opuseram, levando com eles os clubes de rio e são paulo, como ja comentei algumas vezes, uma classe desunida como essa não consegue muita coisa, não !

      • janca

        Oi Hugo. Concordo que para que haja uma modificação precisamos de um projeto e também de vontade política. O meu receio é saber se há vontade política. A ideia da liga está aí, mas mesmo entre os clubes que tentam levar adiante o projeto de viabilizá-la há divergências. É o caso do Santos. No de Atlético-MG e Grêmio já nem tanto. Corinthians e Flamengo de fato são contra e querem que a organização do campeonato siga com a CBF. É uma classe desunida mesmo, cada pensando no próprio umbigo, daí fica difícil e é por isso que temos um Jose Maria Marin como presidente da CBF. Mas ainda acho que é chegada a hora de repensar nosso futebol. Nem que isso parte de nós, que somos da sociedade civil. Abs. e uma ótima quarta pra você, Janca

    • janca

      Depende de vontade política sim, João Ricardo, pois sem ela continua tudo como está. Ou seja, mal. Sobre adequação do calendário brasileiro ao europeu sigo reticente inclusive porque hoje, com a crise do euro e a fragilidade financeira de alguns dos principais times europeus a situação mudou. Não vejo nossos clubes perdendo mais seus melhores jogadores no meio do Brasileirão. E temos de encontrar a nossa melhor fórmula, a melhor fórmula pra gente, que não necessariamente é o modelo europeu. E pra mim não é.

      • João Ricardo

        Mas você acha que os dirigentes vão querer perder a mamata? Você falou do COB numa de suas observações. É a mesma coisa. Quem está no poder acha que vai querer sair? Nem aqui nem na China.

        • janca

          Não acho, não. Por isso mesmo acredito que caiba à sociedade civil pressionar. Porque em algum momento a situação pode mudar. Não é que o Ricardo Teixeira, que para mim também não queria perder a mamata, teve que largar o osso, termo que você mesmo usa no comentário seguinte?

    • hergonio

      o destino do peixe anuncia o nosso

      • janca

        ???

  • João Ricardo

    Mesmo achando que não vai dar em nada porque os dirigentes nunca vão querer largar o osso, você e o Lance estão de parabéns por apresentarem propostas pra debater. É mesmo um primeiro passo para as coisas mudarem, se bem que acho que com os nossos dirigentes é utopia.

    • janca

      Pode até ser utopia, mas só de estarmos _ou podermos estar_ discutindo ideias já é um avanço.

  • Hugo

    Janca, me reponda uma coisa. Referente ao plano de criação de uma liga de clubes, eu me questiono como clubes como o Palmeiras, por exemplo, não adere a causa ? No caso de Corinthians e Flamengo, eu até entendo, pois a situação deles está confortavél. Mas o verdão, que recentemente vê o publicado de que no 1.º turno inteiro do BR-12, apenas um jogo seu será transmitido (ta certo, a globo quer audiencia) em tv aberta, cala-se, e posteriormente, vai contra uma causa que beneficiaria, se não todos, a maior parte de clubes do Brasil. Isso é tanta incompetência dos dirigentes, que ou não enxergam as coisas ou fazem de besta, ou há um interesse que eu não enxergo por tras disso (no caso de clubes como o palmeiras. Cito também vasco, fluminense, internacional …) ? Abraços, otima quarta pra vc também!

    • janca

      Não é que o Palmeiras tenha decidido por não aderir, se bem que você tem que lembrar que o clube é ligado ao Marco Polo Del Nero, presidente da FPF e mentor do José Maria Marin, novo presidente da CBF. Os clubes começam a tatear para ver o que pode se passar com o futebol brasileiro agora que Ricardo Teixeira saiu. Mas ainda é cedo pra saber o que vai acontecer, além de precisarmos lembrar que a liga não seria para agora. Logo mais teremos o Brasileiro começando organizado pela CBF. E que pelo menos conseguiu implantar um modelo de disputa. Mas insisto que precisamos, pelo menos, discutir nosso futebol no século 21, como tem feito o LANCE!. Boa quarta, abs. Janca

      • Nashter Portiolli

        O Palmeiras não tem do que reclamar. Ano passado a Globo transmitiu vários jogos do Palmeiras, só perdeu para Flamengo e Corinthians, e a audiência foi pífea. É isso que as pessoas não entendem. Querem que seus times tenham jogos transmitidos mas se esquecem que a televisão vive de audiência. As emissoras não estao ai pra ajudar os clubes, elas querem é se ajudar. E pra isso, precisam passar jogos de times que dão IBOPE. SImples.

        • janca

          E não acho errado as emissoras estarem pensando em audiência, porque pensam em interesse próprio e são empresas comerciais, que objetivam o lucro. Na primeira fase da Libertadores deste ano, para você ter ideia, salvo engano a Globo vai transmitir os seis jogos do Corinthians e apenas um do Santos. E ó que o Santos é o time da moda, mas pelo jeito e imagino que de acordo com avaliação da própria emissora, o Corinthians dá mais audiência. Mais, inclusive, do que um Santos x Inter, que não foi exibido pela Globo no turno de ida da primeira fase do torneio. Abs.

          • Luiz Marfetan

            Discordo em parte, Santos x Inter não da audiencia? Certo, não da. Agora você acha que Flamengo x Olimpia, da audiencia? E claro que não. Vamos supor Corintians x Inter a torcida do Inter vai assistir aqui no sul. Pergunta se a torcida do “Imorrivel” vai olhar? E claro que não!! Em SP só a torcida do Corintians, as outras torcidas não vão assistir, é em um universo de 170 milhoes, isso não e nada.
            E continuamos presos ao monopolio! Que ao meu ver é o responsavel pela situação do futebol Brasileiro. Apoiando RT agora o “Ze da medalha”

          • janca

            Flamengo x Olimpia dá audiência, sim, por isso a Globo mostra o jogo para o Rio. Acha que a Globo quer fazer mau negócio? Não. Da mesma forma não acho que Santos x Inter não dê audiência. Dá. Mas não tanto quanto a de um jogo do Corinthians na Libertadores. Eis a questão. Em relação ao Ricardo Teixeira deixando seu amigo Marin em seu lugar concordo com você. Parece um feudo familiar… Abs.

        • Hugo

          e aii Nashter, no comentario eu disse que sei que a Globo precisa de Ibope, só estou questionando a falta de competencia dos dirigentes. Não interessa quanto deu de audiencia do time A ou B (para nós torcedores), temos que fazer prevalecer a nossa história e nossa camisa, e os dirigentes não podem apenas fechar os olhos para isso, e deixar um clube com a grandeza do palmeiras ter apenas 1 jogo transmitido em tv aberto durante um turno inteiro de campeonato brasileiro.

  • Dani

    Bom dia João. Você está falando do Habemus Papam, não? Filme bonito. Podia se chamar O Direito de Dizer Não. Bj. Dani

    • janca

      Isso mesmo, Dani. Tinha esquecido de colocar o nome do filme na nota, vou colocar agora. Bom dia pra você também, João

  • Cristiano

    Há uma razão bem simples para que não existe uma liga. Flamengo e Corinthians perderiam muito ( não ganhariam tanto e veriam seus adversários ganhando quase a mesma grana). Times como São Paulo, Palmeiras e Vasco, ainda Santos e Fluminense perderiam pouco. Assim sendo, para os times que juntos representam uma maioria, os campeonatos seriam mais competitivos e interessantes para se assistir, porém os adversários seriam pários mais duros em relação a recursos quanto na influência sobre as “coisas” do futebol. Quem votaria em algo que no curto prazo fortaleceria os times fora do eixo Rio – São Paulo? Porque Flamenguistas e Corinthianos gostariam que seus irmãos de estado tivessem ganhos mais igualitários em cotas de tv? hehehe a liga no brasil como é na inglaterra ou alemanha é uma utopia. Seria mais fácil implementar uma liga espanhola, hehehe…

    • janca

      Não sei se Corinthians e Flamengo perderiam, pelo contrário, acho que também ganhariam. A existência de um time só é justificada pela existência e pelo fortalecimento do outro. Corinthians e Flamengo poderiam ter cotas maiores, acho justo, mas os dois dependem dos demais também. Por mais que tenhamos a ilusão de, ninguém vive numa ilha, Cristiano. Abs.

  • Alexandre

    Ótimo texto, Janca.

    • janca

      Pô, obrigado Alexandre. Grande abraço, Janca

  • Bernardo Meazzi

    Flamengo e Corinthians estão ganhando mais dinheiro de direitos de imagem e tv. A princípio, nós torcedores de outros times, ficamos revoltados com isso. Mas analisando friamente, sem fanatismo, não o pq de ficarmos irritados. A verdade é que times com maior torcida geralmente ganham mais dinheiro, isso é padrão na maioria dos países do mundo. E aí a gente os critica por nao quererem formar uma liga paralela, mas se nos estivessemos no lugar deles, ganhando mais, tb nao iriamos querer. A verdade é que cada um defende os seus interesses. É assim na vida, é assim no futebol.

    • janca

      Eu concordo com você, Bernardo, não acho errado o Corinthians e o Flamengo quererem e ganharem cotas maiores. Mas acho que se os times negociassem em grupo, com uma porcentagem para cada um, ficando as maiores fatias para os dois citados, todos poderiam sair ganhando. Inclusive todos poderiam cobrar mais. Abs. Janca

    • Alexandre

      Bernardo,
      Me desculpe, mas não é padrão nos campeonatos mais rentáveis do mundo. Na Inglaterra, por exemplo, existe uma Liga que cuida dos interesses de todos os clubes da primeira divisão, não tem nada de “cada um defende os seus interesses”. Veja só:

      Premier League 2010/11: 50% igual para todos, 25% performance e 25% audiência.

      Maior cota: Manchester United – £60milhões (1 £ ~ 3 R$)
      Menor cota: Blackpool – £39 milhões
      Cota média: £48 milhões

      Fonte: http://www.futebolfinance.com/as-receitas-tv-dos-clubes-da-premier-league-em-201011

      • janca

        Acho que se cada um for defender seus próprios interesses todos saem perdendo. Quem sai ganhando é a CBF e o Marin, que querem o poder centralizado, já cooptaram ou estão tentando cooptar o presidente do Santos, quanto mais dividem os clubes mais poder conseguem _pra eles (Marin, Del Nero e a própria CBF). Uma pena…

        • Alexandre

          Também saiu ganhando, e muito, a Globo, que pagou muito menos pelo(s) contrato(s) de transmissão referente(s) ao período 2012-2015 do que pagaria se houvesse uma concorrência entre todas as emissoras interessadas.

  • josé antonio gonçalves

    janca voce poderia explicar com o é dividido o pague para ver, é baseado nas pesquisas do ibope ou quando você compra eles perguntam o time o qual você torce e computam para o seu time?

    • janca

      Quando eu comprei ninguém me perguntou nada… Confesso que não sei como funciona, mas a negociação do valor da cota (não no caso do pay-per-view, que não sei como se dá) está sendo feita individualmente, caso a caso. E Corinthians e Flamengo com vantagem por terem mais jogos exibidos e serem os dois clubes mais importantes para as TVs, pois dão mais audiência. E no caso do Corinthians ainda tem a torcida que, somada, representa o maior valor de mercado. Superando a do Flamengo, segundo estudo de uma consultoria. Abs.

  • Barcelusa 2012

    Lusa jogando mal de novo, Janca. Não aguento mais. Pode virar, pode fazer o que quiser, mas os erros do primeiro tempo e do começo do segundo tempo contra a Ponte são de matar. Nem to mais vendo o jogo.

    • janca

      Oi Barcelusa, tá complicada mesmo a situação da Lusa. Mas a principal responsável por isso é a diretoria. Confesso que só vi trechos do jogo pra não me aborrecer muito, a Portuguesa continua cometendo erros primários e tem que lutar para não cair no Paulista. Como eu já escrevi num post e numa coluna do L! de novo não, de novo não!!! Abs. e vamos esperar as três próximas rodadas, Janca. E agora torcer contra XV de Piracicaba, hoje, e Guarantiguetá e Catanduvense, amanhã. Que fase!!!

  • Fabio

    Você expos o que eu penso sobre o papel da CBF. É cuidar de seleções. Inserção social e combate à pirataria quem tem de fazer é o governo. Cada um no seu quadrado.

    • janca

      Nem acho que é a história de cada um no seu quadrado, mas redefinir as funções da CBF. Sobre inserção social via futebol e combate à pirataria, estamos de acordo, questões do governo, não da CBF.

  • Fabio

    Também valeu pela dica do filme do papa. Vou correr atrás. Vi Shame e achei bom. Se não viu, retribuo com minha sugestão de filme, Janca

    • janca

      Oi Fabio, também vi “Shame” e achei… Não sei direito o que achei. Li uma crítica dizendo que era um filme cheio de clichês, não sei. Eu gostei, é um filme bem profundo e atual, que também trata de solidão e relações humanas e de uma forma bem bacana… Mas achei pesado demais. Abs. e boa quinta pra você, Janca

MaisRecentes

Oposição santista



Continue Lendo

Santos em SP



Continue Lendo

Fuga de patrocínio



Continue Lendo