A outra face



Como o assunto segue atual _e mais atual do que nunca_, tema de reportagem logo mais no Esporte Espetacular, sem falar na violência ligado ao racismo, à xenofobia e ao antissemitismo que extrapola os campos do futebol, vide os recentes atentados em Toulouse, reproduzo coluna que publiquei no diário LANCE! na terça retrasada para quem tiver interesse.

“A Espanha não se conforma com a política de reciprocidade do governo brasileiro. A partir de abril o turista espanhol que vier ao Brasil terá de se submeter aos mesmos constrangimentos que muitos brasileiros passam ao chegar a Madri. Entre outras coisas, deve mostrar a passagem de volta, reserva de hotel e garantias de que tem como pagá-lo, o equivalente a cem dólares para cada dia que for permanecer aqui e até carta-convite com firma reconhecida de quem for hospedá-lo.

Tenho dúvidas se a decisão do governo Dilma é a melhor. Pessoalmente sou contra, pois acho que uma agressão não tem, necessariamente, que ser respondida com outra. Melhor que não seja e que possamos dar o exemplo. Se a Europa é marcada por movimentos xenófobos e racistas, que não por acaso desembocaram na Segunda Guerra, sem falar nos crimes contra a humanidade cometidos por séculos no continente africano, não devemos ir pelo mesmo caminho. A Copa de 2014 é uma oportunidade para mostrarmos que somos ou podemos ser diferentes. Que há outras alternativas que não apenas o preconceito contra o diferente, o estrangeiro, o outro. Que há possibilidade de acolhimento.

Entendo a decisão do governo brasileiro, já que os espanhóis trataram mal até professores brasileiros que passavam por Madri rumo a congresso em Lisboa, chegando a deportar uma pesquisadora da USP. É uma forma de pressioná-los a agir de foma diferente. Talvez funcione, não sei.

A Europa, neste momento, volta a correr o risco de ser levada por um extremismo perigoso, que sabemos aonde pode acabar. Isso se reflete no futebol, onde atitudes racistas e xenófobas têm virado uma constante. Outro dia assisti a um programa na ESPN Brasil que mostrava um jogador negro brasileiro, hoje no Acre, dizendo que teve de sair da Bulgária por conta do racismo. Que culminou com a invasão de seu apartamento.

Recentemente foi a vez do israelense Itay Shechter, atacante do Kaiserslautern, sofrer insultos antissemitas em treino aberto de seu time. Na Alemanha, que ainda tenta mostrar uma outra face ao mundo depois do Holocausto, que marcou o país no século passado. Mas a França, que lutou contra a Alemanha de Hitler, passou a expulsar ciganos e hostilizar muçulmanos, além de ter montado o famigerado Ministério da Imigração e Identidade Nacional. Não por acaso a extrema-direita, representada por Marine Le Pen, de um partido xenófobo, chega a receber 15% ou mais de apoio do eleitorado francês.

Os ingleses, que ficaram fora da zona do euro, tentam uma atitude mais diretiva contra a xenofobia e o racismo, combatendo o preconceito contra negros, ciganos, judeus e homossexuais nos estádios. Não é fácil e recentemente vimos muita polêmica em campo por conta das brigas entre Suarez e Evra e Terry e Anton Ferdinand. O Brasil, país fruto da miscigenação, embora aqui também predominem o preconceito e o racismo, deveria dar um exemplo positivo. E usar a Copa para fazê-lo.”



  • André

    Deu pra entender o que vc. quer dizer, só que ou o Brasil se impõe ou o brasileiro vai ser mal tratado no exterior. Se a Espanha nos trata mal, vamos tratar os espanhóis da mesma maneira porque só assim eles mudam o comportamento deles. Como justificar o caso do turista brasileiro morto em Sidney? Um rapaz de 21 anos? Se fosse a polícia brasileira que tivesse feito isso estariam metendo o pau. Acho que temos que nos impor.

    • janca

      Mas _opinião minha_ assim como violência gera mais violência (ou tende a gerar), o mesmo se dá com truculência. O Brasil pode se posicionar de outra forma, mostrando que há outros caminhos, André. Sobre o caso do garoto brasileiro morto em Sydney, que me deixou muito mal, um rapaz de 21 anos, o caso está sendo apurado e os policiais têm de ser punidos, se ficar comprovada sua culpa. É um caso muito triste mesmo, ainda sob uma nuvem de fumaça, com vários pontos a serem esclarecidos. Mas eu pergunto se nunca houve turista estrangeiro morto em assalto aqui no Brasil, por exemplo. Houve. Se não me engano um foi assassinado num assalto imbecil em plena praia de Copacabana, só pra ficar em um exemplo, anos atrás. Um erro não justifica o outro _é o que quero dizer.

      • joão henrique

        É que tudo é questão econômica. Não o assassinato, mas essa coisa de darem o visto, negarem, dificultarem o processo. Quando interessa economicamente, como hoje interessa pros Estados Unidos, que precisa de recursos, eles abrem as fronteiras. Quando não interessa, fecham. A Europa ainda não caiu na realidade, a de ter se transformado em um continente quebrado e precisar do dinheiro do Brasil, sexta economia do mundo, mas quando se der conta vai abrir as pernas como estão abrindo os Estados Unidos. Abraço

        • janca

          Sobre o dinheiro (e as relações de poder) comandarem a humanidade, de acordo, João Henrique. Sobre o Brasil ter virado a sexta economia _e parece que vai chegar ao quinto lugar_ de fato dá outra dimensão ao país, os BRICS crescem, a Europa encolhe. Mas isso não quer dizer que não tenhamos nossos problemas sociais, que também são extremamente sérios. Abs.

  • André

    Esqueci de falar que o caso do rapaz brasileiro em Sidney não é o primeiro. Se o Brasil tivesse sido duro com a Inglaterra quando mataram o Jean Charles a Austrália teria pensado duas vezes antes de atacar um estrangeiro. Saberia que o Brasil não fica calado.

    • janca

      Em relação ao caso Jean Charles acho que faltou mesmo firmeza às autoridades brasileiras para pressionar os ingleses a punir os policiais e chefe da polícia envolvidos no assassinato. Mas será que teria evitado o de Sydney? Será que os policiais sabiam que se tratava de um brasileiro? E que atacaram o estudante por ser brasileiro?

      • joão henrique

        André, sem querer ser grosseiro, o que o cu tem que ver com as calças?

  • Lily Martins

    Bom dia, João. Não sei se é fugir um pouquinho do assunto, mas você não acha que isso tudo o que está acontecendo no mundo é sinal dos nossos tempos de consumismo exagerado, do cada um por si, da internet? Até na novela da Globo, não sei se você viu o capítulo final, é apologia à violência, ao dinheiro como sinal de sucesso, a ganhar dinheiro fácil (na loto), ao preconceito, à violência doméstica, ao MMA. No último capítulo tinha uma personagem gritando pro namorado bater com violência no adversário. O dinheiro manda em tudo. É o que eu acho. Delirei? Bjs. Lily

    • janca

      Oi Lily, desculpe pela demora, estava vendo Portuguesa x Guarani no Showbol, pelo Sportv. Deu Lusa, mas classificado mesmo está o Bugre. Não acho que você tenha fugido do assunto, não, nem acho que o problema seja a internet. Ela apenas torna mais evidentes os problemas do ser humano que sempre estiveram aí, inclusive o consumismo exagerado, o individualismo, o cada um por si… Em relação à novela, confessa que não vi o último capítulo, nem o penúltimo. Nem o antepenúltimo, vi alguns do início, depois desisti. E em relação ao MMA é a prova de que o dinheiro comanda. Muitos atletas de outros esportes (outras lutas) migram para o MMA por causa da grana, ainda mais com a Globo agora por trás dos negócios. Bom dia pra você também, João

  • alê

    Os brasileiros que sofrem preconceito na Europa ou em outro lugar têm de reclamar, principalmente quem está em evidência como Daniel Alves, que foi vítima de racismo e deixou por isso mesmo.

    • David

      É isso mesmo, Alê, e vale também pro antissemitismo que tá crescendo de novo na Europa. Bom exemplo o seu do jogador israelense, Janca. Abs. Fui.

      • janca

        Vou discordar um pouquinho de vocês em relação ao Daniel Alves. Acho que cada um tem um tipo de reação quando é vítima de preconceito. Às vezes tampouco é fácil pra quem está em evidência se expor. O que não podemos é ficar calados, até porque, como você apontou, David, o antissemitismo é forte em vários países da Europa (e não só por lá), assim como o racismo. Mas em dadas situações os amigos e companheiros de trabalho de um jogador vítima de racismo podem protestar por ele. Seria o caso dos demais atletas do Barça, que poderiam ter protestado mais, apoiando o Daniel Alves, que foi chamado de macaco etc. etc. etc., o que é o fim dos tempos. Enfim… Bom domingo pra vocês, Janca

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