Depressão no esporte



A pedidos, reproduzo abaixo coluna que publiquei ontem no LANCE! e trata do uso de remédios psiquiátricos no esporte para quem tiver interesse pelo assunto.

“Ex-alunos do Instituto de Psicologia da Universidade de Liverpool preparam estudo sobre a administração de remédios psiquiátricos para esportistas, que estaria aumentando nos últimos tempos, tornando-se quase regra. Psicólogos da universidade inglesa alertam que muitos atletas, especialmente em momentos delicados da carreira, como períodos de inatividade devido a contusões, estão sendo tratados com antidepressivos, ansiolíticos e estabilizadores de humor a torto e a direito.

Não sou contra medicação, muitíssimo pelo contrário, ela pode ser bem útil e tornar-se importante ferramenta a nosso favor desde que administrada com parcimônia e por profissionais focados no cliente e não no remédio. Como costumo dizer cada caso é um caso e deve ser tratado como tal. O paciente, no caso o atleta, tem de ser cuidado de acordo com o contexto, não só segundo os sintomas que estiver apresentando, alguns às vezes mais do que esperados e que podem ser tratados em uma terapia breve, não necessariamente com remédios. Não é “anormal” o esportista obrigado a ficar de seis a nove meses parado devido a uma lesão, por exemplo, enfrentar momentos de angústia, tristeza, apreensão, o que não quer dizer que esteja com depressão.

Mas hoje em dia, aparentemente, ainda mais com as exigências da vida contemporânea, parece que tudo virou “depressão”. Como se não houvesse o direito de o indivíduo ficar mais encolhido ou introvertido, sentir tristeza e ansiedade, preocupado com sua situação. Seja familiar, profissional, especialmente em ambientes tão competitivos e que exigem tanto como o do esporte de alto rendimento, seja pessoal, pois momentos de crise fazem parte da vida de todos nós.

A indústria farmacêutica, ajudada por maus profissionais, que felizmente não são a regra, tem contribuído para criar o mito de que tudo é doença e deve ser tratado com medicamentos. Tanto que nova edição do DSM, sigla em inglês para Manual de Diagnósticos e Estatísticas de Doenças Mentais, publicação da Associação Americana de Psiquiatria, parece estar “inventando” enfermidades. E com isso ajudando a vender remédios e auxiliando a própria indústria farmacêutica, que arrecada fortunas e depois retribui convidando médicos para congressos no Brasil e no exterior, com todas as despesas pagas, presentinhos aqui e acolá, e influenciando-os, mesmo que inconscientemente, na hora de prescrever algum medicamento.

Não espanta que muitos profissionais estejam defendendo a nova edição do DSM, para a qual até o luto pode ser entendido como depressão, quando o próprio Sigmund Freud em “Luto e Melancolia”, de 1917, já fazia a distinção entre os dois. Mas hoje temos remédio para tudo. Para a criançada que não presta muita atenção na aula, para a que faz bagunça, para a muito comportada, para a mais tímida, para a mais extrovertida, não espanta que no esporte atletas tenham sido colocados na ciranda dos remédios. Que tomem cuidado e vejam quem quer “auxiliá-los” e vai tratá-los para averiguar se o foco está realmente neles. A cabeça é tão importante quanto o corpo e não deve ser entregue a qualquer um.”



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