Histórias de um zagueiro



Reproduzo abaixo coluna que publiquei ontem no LANCE! sobre livro do zagueiro Paulo André que será lançado em 01/03, em São Paulo, cuja leitura recomendo.

“Costumo dizer que faltam bons livros de futebol. Um que irá chegar às livrarias nas próximas semanas preenche uma lacuna não só por ter sido escrito por um jogador que vive a experiência de quem está lá dentro, mas principalmente por servir de reflexão para qualquer profissional que trabalha direta ou indiretamente com o meio.

“O Jogo da Minha Vida: Histórias e Reflexões de um Atleta”, do zagueiro Paulo André, que comandou a defesa do Corinthians em jogos decisivos do Brasileiro de 2011, ilumina aspectos do esporte pouco tocados pela mídia. O trabalho da base, as peneiras, os estudos, a concentração, os amigos, os bons e maus profissionais, a dificuldade de adaptação, as escolhas, nossas e dos outros, o acaso…

Quantos jogadores como Paulo André não saem de suas cidades, ficam longe das famílias, não curtem a adolescência e vão tentar a sorte no futebol passando anos em alojamentos? Quantos não colocam no esporte e nas peneiras a única alternativa de vida? Deixam de estudar e se são cortados numa das inúmeras etapas perdem o rumo e não enxergam alternativas? Não dá para conciliar as duas coisas, os estudos e o futebol? O clube formador não tem ou não deveria ter essa obrigação? Não apenas a de tentar formar um atleta, mas a de formar cidadãos?

As histórias de Paulo André são saborosas, as disputas da Copa São Paulo, a conhecida Copinha, a convivência com pessoas tão diferentes que se tornam sua família, a escolha da posição, a rede de empresários sem escrúpulos, o abandono, os aproveitadores…

A descrição do contato inicial com seu primeiro empresário, aos 16 anos de idade, num prédio classe A de região nobre paulistana é imperdível. Os três celulares do agente, os pôsteres de jogadores da Seleção, as histórias e o papo de malandro do sujeito para capturar o jogador e ter direito a 20% de tudo o que ele recebesse daí em diante são de chorar. De raiva.

A passagem de Paulo André por Águas de Lindoia, um time de empresários que tinha dois dormitórios para toda a molecada, o Morumbi, com 14 camas, e o Maracanã, com 22, sem janela e um banheiro para os 36, também é impressionante.

Como é impressionante a descrição que ele faz de sua chegada à França, onde defendeu o Le Mans. No Brasil, como reflete o zagueiro, os jogadores são paparicados a tal ponto que não sabem fazer o check-in por conta própria no aeroporto. Na Europa a mentalidade é outra. Com menos mordomias e facilidades o atleta tem mais responsabilidade, inclusive a de fazer suas malas antes das viagens e a de limpar as chuteiras depois dos treinos. O treinamento é diferente, inclui longas trilhas de bicicleta, competições com caiaques, alpinismo, sai do convencional a que estamos acostumados aqui.

O livro de Paulo André é uma forma de entrarmos no alojamento, na concentração, nos campos de futebol, na mente de um jogador. E de entendermos um pouco o outro antes de criticá-lo.”



MaisRecentes

A melhor do mundo



Continue Lendo

Aprender a perder



Continue Lendo

O emprego ideal



Continue Lendo