Navio negreiro



Após sugestão de leitores do L!, reproduzo aqui em meu blog coluna que publiquei ontem no diário sobre xenofobia e racismo dentro e fora dos gramados. Uma ótima quarta a todos, João

“O Brasil concedeu no ano passado cerca de 60 mil vistos de trabalho para estrangeiros, incluindo jogadores e técnicos de futebol e outros esportes olímpicos, mas fechou as fronteiras para os haitianos que fogem desesperados de seu país e chegam não se sabe como à América do Sul. Vítimas de coiotes, traficantes de seres humanos que agem nas fronteiras, entregam a eles o que têm e o que não têm, passam sede, fome, enfrentam animais, tempestades e intempéries de todos os tipos para chegar ao Brasil, onde deveriam ser acolhidos por razões humanitárias. Mas o governo brasileiro recentemente anunciou ações para restringir a entrada dos haitianos, como se os 4 mil que vieram até agora representassem um fluxo migratório significativo.

Racismo e xenofobia, tão presentes no futebol, não são prerrogativas da Europa. Aqui a história se repete dentro e fora dos gramados. Durante a escravidão, os negros entravam à vontade, pois era interesse das elites brasileira e portuguesa. Vieram milhões do continente africano. Mas agora a migração negra, especialmente pelos novos interesses econômicos, não interessa mais. Interessa a branca, formada por trabalhadores qualificados do Velho Continente que devem ter sua entrada facilitada no Brasil, ao contrário dos negros do Haiti. Pelo jeito vamos fechar as portas pra eles quando temos uma dívida impagável por um dos maiores crimes da humanidade que foi justamente a escravidão.

O Brasil tem responsabilidades em relação ao Haiti. Nossas tropas comandaram a “Missão de Paz” na ex-colônia francesa. Não basta aquele amistoso da Seleção de 2004, que foi um circo passageiro. A situação é muito mais complicada e o Haiti segue o país mais pobre do continente americano, destruído por guerras civis e pelo terremoto de 2010, sugado pela própria história e pelo imperialismo europeu.

Aqui muitos ainda se indignam quando um atleta brasileiro é vítima de preconceito lá fora, caso de Daniel Alves, chamado insistentemente de “macaco” pela torcida rival quando defendeu o Barça em clássico diante do Español. Ele até diz que não ligou, que já se acostumou a ser hostilizado por conta de sua cor e que “aprendeu” a viver com isso. Talvez o problema esteja aí, quando nos conformamos e aceitamos passivamente situações como essa. Quando ninguém grita contra é que está o perigo, porque o silêncio pode soar como cumplicidade e aceitação. 

O caso de Daniel Alves não é único, dentro de campo há denúncias de racismo no futebol que chegaram à polícia, como se vê na Inglaterra, por exemplo. Mas a capacidade de indignação de alguns brasileiros parece estar mais voltada ao que acontece no exterior, não com o que ocorre aqui, seja na questão dos haitianos, seja em questões que envolvem o futebol. Na semana passada o meia Zé Roberto, que deixou o Inter para defender o Bahia, dizia que um dos motivos para a transferência era o preconceito contra seu filho, negro, numa escola em que estudava no Sul. E o caso repercutiu bem menos por estas bandas do que os que ocorrem lá fora.”



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