Morte, vínculo e acolhimento



Para quem se interessa por psicologia e relações humanas indico dois livros que estou terminando de ler. O primeiro, de Maria Júlia Kovács, chama-se “Morte e Desenvolvimento Humano”, da Casa do Psicólogo. O segundo, de Maria Salete Abrão, é “Construindo Vínculo entre Pais e Filhos Adotivos”, da Primavera Editorial.

No ano passado tive o prazer de fazer um curso no Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo, que versava sobre questões de adoção e do qual Salete foi uma das professoras.

Temas ligados à infância e à juventude me interessam há muito tempo, desde que trabalhava na “Folha de S.Paulo”. Até antes, diria.

Há alguns anos tive a oportunidade de fazer uma matéria para a “Vida Simples” sobre adoção e tenho lido muito sobre o assunto, estudado a questão de abrigos, o universo psíquico de pais e filhos adotivos, os preconceitos, as dificuldades, os encontros, desencontros e reencontros.

Integrante do Grupo Acesso (Estudo, Pesquisa e Intervenção em Adoção), Maria Salete Abrão expõe, em seu livro, alguns dos desafios da adoção no mundo de hoje usando a psicanálise como instrumento de reflexão e trazendo quatro casos interessantíssimos que passaram por seu consultório.

Já “Morte e Desenvolvimento Humano”, de Kovács, que criou o curso “Psicologia da Morte” na Universidade de São Paulo nos anos 80, é uma obra que faz o leitor pensar não apenas sobre a morte, um assunto ainda tabu e nos tempos de hoje cada vez mais terceirizado, como se nem o luto pudesse ser feito, mas principalmente sobre a vida.

É um livro sobre o desenvolvimento humano, como o próprio título diz. Interessantíssimo.

Vocês podem se perguntar o que estou fazendo ao escrever sobre psicologia e não sobre esporte ou os bastidores da Copa e da Olimpíada. Não sei… Volta e meia faço isso, como já sabem aqueles que frequentam o blog com maior assiduidade. E vou continuar fazendo, pois o mundo é muito maior do que uma bola de futebol, uma cesta de basquete, uma reunião na Fifa ou um seminário da CBF… Ótima quinta a todos, João



  • Fátima

    Oi João. Acabaram de me indicar seu post e citar suas indicações de leitura, fico muito interessada principalmente pelo livro sobre adoção. Você encontra com facilidade fora de SP? Em Recife, para ser mais específica? Se souber informar ficarei muito feliz, se não vou tentar dar uma procurada aqui nas livrarias, nas grandes redes e te aviso.

    • janca

      Oi Fátima, obrigado pelo comentário, pelo interesse e pelas perguntas. Que eu saiba _não sou o autor nem o editor de nenhum dos livros em questão_ você encontra, sim. Caso contrário pode encomendá-los, imagino. O da Maria Salete Abrão eu comprei na Cultura, o da Maria Júlia Kovácas, na Casa do Psicólogo, que fica em SP. Mas acho que você pode encomendar, sim. Pela Cultura foi o que fiz com o livro sobre adoção. Abs.

  • Fátima

    Não compreendi uma coisa em seu texto quando você fala sobre morte terceirizada e o luto não-cumprido. Está se referindo aos dias de hoje? Em que sentido?

    • janca

      É que houve uma mudança histórica, Fátima. Hoje cada vez mais as pessoas morrem em hospitais, muitas vezes longe dos amigos e familiares, não mais em casa, os serviços funerários são terceirizados, quanto mais rápido for enterrado o corpo melhor, na sociedade da informação a cada segundo, como a nossa, nem o luto as pessoas podem fazer direito… Não têm tempo de elaborá-lo, têm que partir para a atividade seguinte, vivem como robôs, não pensam no essencial. Então estou me referindo aos dias de hoje, sim, mas em determinadas culturas isso já aconteceu no passado também. Mas como disse falo sobre os tempos atuais. Abs.

  • Dani

    Sempre bom variar de temas, João. O doutor Havelange cansa… Doutor Ricardo também (hehe). Vejo que você fala muito sobre a morte em seus textos e acho isso um ponto positivo porque é muito difícil pro ser humano encarar a própria mortalidade. A gente costuma pensar na morte dos outros, não na nossa. Mas uma das poucas certezas na vida é que ela virá. Mais cedo ou mais tarde ela virá. Então vamos fazer o melhor possível com nossos momentos aqui neste planetinha tão maltratado pelos próprios seres humanos. Bjs. Dani

    • janca

      Ah! Eles dão trabalho mesmo, Dani _rs. E cansam… Mas gosto de pensar sobre outras coisas, psicologia, cinema e literatura estão entre meus assuntos preferidos. E você tem razão quando falar sobre a dificuldade de pensar na nossa própria morte. Uma hora ela chega, mas é tão difícil singularizá-la… Uma ótima quinta pra você, Dani, João

  • Lily Martins

    Oi João, Nilú, Dani, Maltrapa, Johannes, pessoas que vejo frequentar mais assiduamente seu blog (ou pelo menos comentar, né?), gosto muito mais quando você fala de outros temas, se bem que sou fã de esporte também. Trabalhei como voluntária num abrigo e o problema da adoção é complicado pela falta de políticas públicas voltadas ao jovem, mesmo com o ECA, que é recente, acaba de comemorar 20 anos, João. Pais são pais, sejam biológicos ou adotivos. Muitos tentam estabelecer uma diferença entre eles quando não deveriam pois isso só aumenta o preconceito e o preconceito é o mal da nossa sociedade. Sempre foi. Bjs. de bom final de manhã pra todos vocês, Lily

    • janca

      Oi Lily, valeu pelo comentário. E também gosto de mudar um pouco o foco do futebol e do esporte em geral, especialmente dos bastidores, para outras temáticas, como a psicologia. Acho que você tem razão no que diz, pais são pais, há diferenças tão grande dentro do chamado grupo de pais biológicos… Pais e mães, claro. Há pais e pais, mães e mães, sejam biológicos ou não. Cada caso é um caso. E de fato o preconceito existe, no livro da Maria Salete ela vai contando a história da adoção, fala da roda dos expostos, é uma história pesada da qual podem sair _e certamente saem_ histórias lindas de vida. Toda história tem seu peso… E sobre a sociedade Freud já tratava disso em Mal-Estar na Civilização, né? Tão atual… Bom início de tarde, João

    • Uau, esse post é especial!

      Primeiramente, no tocante aos assuntos em si, pelo Janca alavancados, que foram reunindo interessados, e de repente estavam todos sentados numa confortável sala de chá, discutindo sobre o desconhecimento, a morte e o renascimento dos homens.

      E em segundo, pela naturalidade com que a conversa se desenvolveu, de um interesse específico da Fátima, passando pelas idiossincrasias da Dani, pela vivência da Lily, até ampliar de vez os horizontes, indo de encontro à análise existencialista do xará Johannes… (suspiro)

      É tudo isso que faz a gente, né?…

      A adoção é a possibilidade de uma nova vida, da qual a morte, naturalmente, faz parte.

      Abração a todos e bom almoço (chomp, chomp…),

      O Maltrapa

      • Andreia

        Post especial, também achei. Trabalho em Vara de Infância e Juventude, tenho uma filha que adotei faz quatro anos (ela está com sete), é o amor da minha vida, cada adoção é única. Tem que ser muito bem trabalhada como tudo na vida. Você pode ter um filho biológico e não acolhê-lo. Por isso gostei, João, de você ter colocado acolhimento no título do post. O filho tem que te acolher e você tem que acolher seu filho. Biológico ou não. Cada pai é um pai, cada mãe uma mãe, cada filho um filho, parece o óbvio e é no óbvio que está a lógica de muita coisa. Vou comprar esse livro. Obrigada pela dica, Andreia

        • janca

          Obrigado você pelo comentário, Andreia, e um abração para o Maltrapa, Janca

  • Johannes

    Bom Dia a todos,
    O mundo em que vivemos impregnado de mudanças , velocidade e tecnologia, por vezes coloca as nossas emoções num liquidificador e fica difícil separar e distinguir os eventos da nossa vida, por um outro lado a informação e o entendimento que a psicologia traz ao mundo moderno auxilia as pessoas em suas buscas, penso que a tecnologia e o conhecimento em todas as épocas da história humana traz consigo esse paradoxo, trazendo consigo novas curas e novas doenças, num equilíbrio delicado, que inventou o saneamento básico mas ainda não consegui lidar com os seus resíduos, que descobriu a penicilina mas também inventou as armas químicas,mas as questões essenciais da nossa existência, vida, morte e os nossos vínculos afetivos vão continuar a nos acompanhar…e felizes daqueles que fazem suas pausas e poem seus pensamentos em sintonia com o seu entorno…certamente acharão mais sentido em suas vidas…grande abraço

    • janca

      É, Johannes, muito bem colocado. O mundo é mesmo feito de paradoxos e a pausa é tão necessária, mas tão relegada. De repente estamos vivendo no automático, no automático e no automático e simplesmente não saímos do automático. E isso é sério. Um grande abraço pra você, João Carlos. Ah! E ontem mesmo estava conversando com um grupo de amigos sobre o fato de a economia brasileira ter crescido tanta mas as injustiças sociais continuarem tão fortes. A pobreza segue tão grande, educação e saúde tão complicadas…

      • Johannes

        Pois é, somos capazes de produzir alimentos com imensa facilidade, alteramos geneticamente até suas características, mas temos milhões passando fome no mundo, outro paradoxo tecnológico…mas que infelizmente não destoa do que têm sido a história humana, onde as evoluções tecnológicas acontecem continuamente mas são distribuídas com conta-gotas do topo para a base…De qualquer forma adotemos a humanidade, pois como cada individuo, ela precisa de muitos cuidados e atenção e do acolhimento de que precisam as nossa crianças..para que mesmo a base de um conta-gotas possa continuar a evoluir…

  • VERDÃO

    Quem está agonizando, Janca, é o Palmeiras. Vamos virar uma Portuguesa. Eta time mal administrado, meu! Palmeirense revoltado

    • janca

      Ops, mas a Portuguesa terminou o ano em grande fase, Verdão. Não, não acho que o Palmeiras esteja agonizando, embora sejam evidentes os problemas de má gestão, assim como acontece em outros clubes, caso do São Paulo ou mesmo do Flamengo, por exemplo. E bem ou mal, pelo que me conste, o Palmeiras está construindo _ou refazendo_ sua arena, um projeto ambicioso, aliás, sem recursos do governo. Isso é um sinal positivo, não? Abs.

  • VERDÃO

    Viu Globo Esporte? Insinuou que o Zagreb entregou para o Lyon, Janca. Achei que entregou mesmo. Europa tá suja. Uefa é tão mal administrada como a Fifa.

    • janca

      É o problema das apostas no futebol e no esporte em geral. Tem muita coisa podre no Velho Continente, mas no Novo também _rs. Abs.

  • nilú

    Boa tarde pra todos!!!
    Eu li a matéria que vc escreveu João já faz algum tempo, o nome é “Abra suas asas”, estou certa? Vale a pena vcs procurarem na internet. Pela primeira vez, entendi que a adoção é digamos assim, uma ajuda para os dois lados, e não apenas para a criança orfã. Eu sou mãe e sou filha, e sei como essas relações são difíceis. Por isso sempre admirei muito pessoas que se propõem a adotar um ser humano. Por outro lado, e sendo mãe posso falar isso, acho, é muito melhor adotar que fazer essas loucas inseminações artificias muitas vezes com semens e óvulos, sabe lá de quem. Isso é pura satisfação de ego, gerar um filho, não é a parte mais importante de tudo isso, aliás é a parte mais simples e fácil. O depois é que interessa, o depois é que precisa ser bem trabalhado para colocar no mundo um ser no caminho do bem é da felicidade. Sou totalmente favorável as pessoas que tem essa capacidade e vão no auxilio destas criaturinhas que já estão por aqui. E elas com certeza também vão trazer luz a vida destas pessoas. Se falei demais ou me enrolei desculpe, mas esse é um tema que sempre me fez pensar e muito. Abs e bom fim de tarde..João, Dani, Lily, Johannes, João2_rs e quem mais vier…

    • Fernando

      Boa tarde pra todos também. Como você, Nilú (parece que somos íntimos _haha), eu também li essa matéria. Ia colocar meu comentário, fiquei com uma pulga atrás da orelha e achei até o exemplar. O nome é mesmo “Abra suas Asas”. Me marcou muito porque eu tinha adotado um menino e depois adotei uma menina, são dois filhos maravilhosos, que dão um trabalho monstruoso, mas vale à pena. Adoção não é bondade, quando você adota você faz isso pensando em você também, muitas vezes em você em primeiro lugar. Depois vai ver que não é fácil e tem que construir uma relação. Abrir suas asas literalmente. E os filhos têm que abrir as asas para os pais. É uma relação complicada como toda relação. Nunca é perfeita, porque o homem não é perfeito. Mas vale à pena. Tem muita gente que me diz: como você teve coragem! Mas pra botar um filho no mundo não tem que ter coragem? Gerando do próprio ventre, com o seu sêmen ou não, criar um filho é um trabalho árduo e muito legal. Paternidade e maternidade são relações construídas. Por isso o João até usou paternagem e maternagem naquele artigo. Tenho vários aqui em casa sobre adoção. Desculpem se me estendi demais, mas o assunto me interessa tanto e quando vi seu texto sobre este artigo que eu tinha lido e tenho guardado em casa, Abra Suas Asas, fiquei maravilhado. Não é o que Jung chama de sincronicidade? Uma amiga que recomendou a leitura do artigo e agora deste post. Vou comprar o livro que você sugeriu, João. Desculpe mesmo ocupar tanto seu espaço e o tempo de vocês, Fernando

      • janca

        Acho que era isso mesmo. E se vocês estão dizendo era mesmo. Que bacana! Obrigado pelos comentários de vocês, Nilú e Fernando, a questão da adoção é mesmo intrigante e de fato acho que o filho, biológico ou não, tem que ser aceito, acolhido, adotado. Há até algumas considerações de “papas da psicologia”, caso do Winnicott, que acha que em adoções há sempre algo diferente e eu não concordo, não. Acho que não necessariamente. O que ele considera diferente é que “o relacionamento da criança com os pais adotivos não pode atingir os níveis primitivos da capacidade (da criança) de se relacionar”. Por que não? Cada caso é de fato um caso. E quando a mãe morre no parto? E quando o pai é desconhecido? Cada adoção também é uma adoção. O que vale é a filiação, mas a filiação de verdade. E como ela é feita. Temos sempre que analisar o contexto. Mas isso é assunto para “páginas e páginas”. Mais fácil falar de futebol _risos. João

      • nilú

        Parabéns Fernando, adotar é um ato feito com consciência, a concepção nem sempre_rs. Admiro muito esse tipo de escolha, de verdade!!! Ah! Eu acredito sim em sincronicidade…Boa sorte!!! Nilú

        • janca

          Oi Nilú, bom dia pra você. Desculpe retomar o assunto, mas já retomando, como diria o Jô, uma das questões que dizem respeito à adoção é que o espaço para o não-saber (sobre a origem da criança e características de sua família biológica) tende a ser maior, claro, e com isso o espaço para as fantasias idem. É um tema complexo, bem abordado em um dos capítulos da obra a que me referi. Uma ótima sexta pra você, João

  • janca

    E a autora do livro sobre adoção me manda e-mail avisando que quem tiver interesse e quiser mais informações a respeito do livro basta ir ao site paisefilhosadotivos.com
    Dado o recado, bom final de semana a todos, Janca

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