Torcidas organizadas



Com as brigas e os recentes novos atos de vandalismo de torcedores uniformizados volta a entrar em discussão a questão da existência das organizadas.

Nos anos 90 torcedores foram proibidos de representá-las em estádios paulistas e elas foram perseguidas pelo então promotor Fernando Capez, que lutou para extingui-las. Não deu certo. Algumas apenas mudaram de nome e seus torcedores continuaram a se reunir e a disseminar a violência para fora dos estádios, muitas vezes na periferia, em estações de metrô… Houve uma descentralização das ações, o que acabou até dificultando o trabalho da polícia.

O tempo correu e elas continuam aí, enquanto Capez, que passou a ir a todos os programas esportivos de rádio e TV, dando uma entrevista após a outra, acabou virando político.

Sempre fui contra a extinção das organizadas, pois a livre associação, como bem diz o historiador Guilherme Berti de Lima, é um direito. Contanto que não seja uma associação de caráter racista, xenofóbico ou algo do gênero, os torcedores têm o direito de se reunir, sim. E em caso de crimes, como qualquer cidadão, terão de responder por eles.

Berti de Lima me mandou um e-mail com considerações interessantes sobre as uniformizadas. Para o historiador “o núcleo do problema não está na existência das organizadas, mas na ausência de políticas públicas que beneficiem a sociedade como um todo”.

“A repressão, violência policial e exclusão são experimentadas cotidianamente por estes indivíduos (integrantes das uniformizadas)”, diz ele. “Enquanto a principal preocupação (dos torcedores) estiver em se agredir, governantes e gestores não terão com o que se preocupar. É a velha política do dividir para conquistar. Imagine se, ao invés de lotar estádios e se matar essa massa reivindicasse uma melhor política educacional ou acompanhasse de perto o trabalho dos governantes?”.

De fato aí sim eles teriam com o que se preocupar, não ficariam restritos à mera repressão à violência das torcidas. Em outras palavras mais uma vez o buraco é mais embaixo. E realmente é.



  • Afonso

    Parabéns pelo blog, pelo texto e pelas declarações do historiador Guilherme, que resume bem o que acontece no país. Em vez de ficarmos reclamando se foi impedimento, se não foi, se tem que jogar fulano a ou b, fossems pedir políticas públicas decentes e fiscalizar nossos representantes nas três instâncias de Poder a história seria outra. Isso fazem no Chile, Argentina, Uruguai, não aqui no Brasil. Fica meu protesto também e os parabéns não posso deixar de dar porque vocês tocaram no ponto nevrálgico, que é aonde temos que mexer. Afonso Fonseca Filho

  • janca

    Caro Afonso, obrigado pelo comentário e pelos elogios e penso como você, especialmente nesta questão de políticas públicas e fiscalização das instâncias de poderes que nós temos que estão aí para representar e defender a sociedade. Abs. Janca

  • Nilú

    Eu nunca havia pensado nisso, mas se a idéia é essa, nós estamos nas mãos de quem?
    Quem nós governa, ou melhor, desgoverna?
    De qualquer maneira, isso tudo é muito triste, fica difícil hoje em dia um pai levar o filho pequeno para assistir um jogo, pois o medo de que algo aconteça no estádio,ou saindo dele, é bem real.
    Mas eu me pergunto, em países como Inglaterra e Itália, onde as condições de vida são outras, porque essa violência ocorre também, aliás começou por lá, ou estou enganda.
    O buraco me parece mais embaixo e bem fundo… Ótimo Domingo. Nilú

    • janca

      E não é só na Inglaterra, onde a violência nos estádios acabou sendo mais contida, em parte com a elitização das arenas, em parte com um programa contra o hooliganismo que envolveu fortemente o governo, que temos problemas. Na Itália a xenofobia é grande, em jogos da Lazio, por exemplo, ou do próprio Milan. Nos países escandinavos, onde o nível de vida é elevado, o fenômeno também existe. Enfim, lá como cá, embora cada lugar com suas características. Lá o desemprego preocupa e muito, aqui, a falta de investimentos em educação e cultura.

  • Dani

    A violência começou muito na Grâ-Bretanha, os ingleses até foram banidos de disputar torneios continentais por conta disso, daí houve um forte movimento para conter o hooliganismo que teve sucesso. No Brasil temos que ter cuidado porque a livre associação é um direito e não podemos cair num discurso fascista, simplesmente extinguindo as organizadas. Num período em que tanto se fala de controle da mídia todo cuidado é pouco. Bjs. Dani

    • janca

      Também acho, Dani, todo cuidado é pouco, afinal estou cada vez mais convencido de que Lula é um grande conservador. O que não vejo com bons olhos, não. João

  • Extinção também concordo que não. Mas talves uma punição bem severa, tipo ficar 3 jogos sem poder ir ao estadio ver o time. Se for reicidente aumenta a pena. Enfim, tem que ter uma penalização, para estes atos de vandalismo. E pro crime como ocorreu no ultimo palmeiras e corinthians, no qual assassinaram um rapaz e jogaram no rio, este deve ser tratado como qualquer outro crime do tipo. O que quero dizer é que talves devessem criar algum tipo de penalização especifica para estas ocorrencias, onde as organizadas estivessem envolvidas. Na europa (acho que é na inglaterra) não tem aquela lei que o vandalo, em dias de jogos tem que comparecer na delegacia, e ficar até o fim do jogo do seu time, sob pena de ir em cana? Isto seria legal. Eu até faria uma sujestão. Em caso de transgressão da lei, onde os organizadas ou qualquer torcedor estivesse envolvido, e fosse comprovada sua culpa, a pena seria algo tipo, trabalhos comunitarios no dia e hora do jogo do seu time. Ai o Idiota certamente não iria esquecer.

    • janca

      Também acho que algo do gênero _trabalhos comunitários para os infratores_ em dias de jogos seria interessante. E claro que em caso de crime, como o assassinato que ocorreu em São Paulo e que teria sido por conta de Corinthians x Palmeiras em Prudente, tem que ser tratado como… crime comum. Porque assassinato é assassinato e pelo que consta não foi por legítima defesa, nada. Enfim, crime é crime, sendo ligado ou não ao futebol. Mas que os torcedores têm o direito de se reunir numa associação _torcida organizada_ têm. Enfim, acho que pensamos da mesma forma. Abs. João

  • Johannes

    Bom Dia João Carlos,

    A única vez em que vi as torcidas organizadas realizarem algo de relevante para a sociedade foi quando protestaram contra a atual direção da CBF no fim de semana anterior. Em relação aos protestos das torcidas, infelizmente se direcionam sempre ao futebol em si e aos resultados dos clubes, e eu imagino que se fossem direcionados as federações e a política do futebol com certeza a repressão do estado tanto na esfera legal quanto policial seria maior. Quem está operando e manipulando o futebol e a política em torno dele não quer sair da sua zona de conforto. Abraço e boa semana.

    • janca

      Sobre não querer sair da sua zona de conforto eu concordo _no caso estou me referindo aos dirigentes, que muitas vezes até chegam a bancar as próprias organizadas ou viagens dos torcedores uniformizados. Mas o que defendo é o direito de elas, as organizadas, existirem. Abs. João Carlos

      • Johannes

        Sobre o direito a existir das organizadas eu concordo com você João. O conceito de torcer ou praticar atividades legais em torno do interesse comum numa agremiação esportiva é tão legítimo quanto reunir os amigos pra jogar truco. Critico apenas o que as organizadas se tornaram e a falta de fiscalização,repressão, e punição por parte do poder público em relação aos desvios de condutas de membros dessas torcidas.
        Em relação a maneira como interagem dirigentes e organizadas também entendo o seu ponto de vista.

  • Antonio Mario Cardoso da Silva

    Guilerme, parabéns pela colaboração com o jornalista! Você identificou alguns dos problemas que assola a sociedade brasileira e propôs solução. Concordo com você quando diz que: “o núcleo do problema não está na existência das organizadas, mas na ausência de políticas públicas que beneficiem a sociedade como um todo”. Mas acredito que boa parte desses torcedores que se envolve em brigas dentro e fora dos estádios não é das classes menos favorecida. Talvez o problema esteja na educação que os pais não estão preparados para tal. Pois os filhos dessa geração ficam na maioria das vezes em casa sem a orientação dos pais. Que por sua vez, trabalham, alguns em até mais de um emprego e não tem tempo de se dedicar na formação dos filhos que cresce sem limites e sem caráter.
    Um grande abraço e recordações dos tempos de faculdade. Quando voltar a São Paulo me avisa

    • Guilherme

      Caro Mario, agradeço seu comentário. Agradeço, mais uma vez, ao João. Tivemos uma ótima troca de idéias e uma abertura de um canal muito importante para o exercício da Democracia Direta. Quanto ao seu ponto de vista, é verdade que nas torcidas organizadas existam representantes de todas as classes sociais. Porém, é verdade também que as brigas mais violentas ocorram em locais bastante afastados dos estádios – como nas estações de trens ou metro. Acho correto você creditar parte da responsabilidade à família. No entanto, como cobrar uma educação familiar se esse pai ou mãe também não recebeu a devida educação do Estado? Você sabe muito bem que o capitalismo ocidental tem suas bases firmadas em três alicerces: o Estado (a nação liberal de Adam Smith), a Igreja (enquanto instituição) e a família (nuclear). Pois bem, em nosso mundo contemporâneo acompanhamos o esfacelamento e a perda de credibilidade de obsoletas instituições estatais (como o Senado ou Câmara, por exemplo); a Igreja enquanto instituição atuante na sociedade, há muito deixou de existir e o número de fiéis ao redor do globo vem diminuindo gradativamente; e a família enquanto alicerce do patriarcalismo conservador encontra-se em profunda crise – o casamento tornou-se uma indústria tão lucrativa quanto os honorários e pensões alimentícias pagos em separações litigiosas.
      Digo isso para mostrar o quanto as estruturas que regem nosso Sistema econômico e social estão frágeis. Como dizia aquele texto do Grupo Krisis o capitalismo ocidental “respira por aparelhos”. Estamos vendo cotidianamente – seja nos campos de futebol, na rua, na empresa, nos jornais, nos programas de TV, em casa – os sintomas de um Sistema doente e ineficiente. Existe muita coisa para ser discutida e esmiuçada, mas acho que paro por aqui hoje.
      Mais uma vez agradeço à você, Mário, ao João e aos leitores do blog.

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