Fama, finitude e Senna



O mundo é um paradoxo. Apesar do individualismo que vivemos hoje, a política do cada um por si e do salve-se quem puder, não damos muita importância ao autoreconhecimento. Pelo contrário, sentimo-nos reconhecidos se os outros nos dão valor.

E é na busca por este reconhecimento externo que a vaidade fala mais alto. Fazemos de tudo para sermos reconhecidos e, aí sim, achamo-nos o máximo.

É a armadilha da fama, o fazer para ser visto, o viver na exterioridade e a consequente perda de um mundo interior, um mundo que realmente nos faça sentido.

Certa feita li um artigo no “Estadão” sobre caridade e voluntarismo que me marcou. Há muitos que abraçam a causa para aparecer em colunas sociais, ganhar espaço na mídia, mostrar aos outros o quão bondosos são. E há os que trabalham como formiguinhas e não precisam entrar no mundo de celebridade e fama, onde envelhecer virou crime, mundo de aparências que mascaram e enganam. Às vezes _muitas vezes, aliás_ os outros, mas também a si próprio, o que é ainda pior.

Viver neste vício _porque a fama e o fazer tudo por ela são vícios difíceis de largar_ é um perigo que as celebridades enfrentam. Sentir-se o máximo, acima do bem e do mal, como acontece com políticos, dirigentes esportivos, artistas _da bola ou não_, jornalistas, empresários etc. etc. etc., é uma armadilha.

É por isso que considero terapia _e análise_ tão importante. Assim como a noção da finitude. Porque a vida termina e o reconhecimento deste fato inexorável é que dá _ou pode dar_ sentido à nossa existência.

É por isso também que decidi experimentar o outro lado do balcão e estudar psicologia, pois como analisado já tinha anos de bagagem e ainda continuo insistindo. Hoje com mais paciência do que no início, pois sinto resultados aparecendo. 

Aprendi que a dor ensina e a alegria também. Que não estamos no mundo para provar algo para A, B ou C, mesmo que A, B ou C seja uma parte da gente mesmo.

O trabalho de formiguinha é maravilhoso quando faz sentido para você, como fazia, pelo jeito, para Ayrton Senna, que investia em projetos sociais sem alardear o que estava realizando.

Era sobre Senna que ia escrever hoje, mas talvez tenha me desviado do assunto. Sinto a presença do piloto em sua irmã, que toca o instituto que leva o nome de Ayrton sem fazer disso um panfleto para aparecer. E também em seu sobrinho, Bruno, que corre logo mais na Bélgica.

A imagem que Bruno Senna me passa é a de um rapaz “normal”, gente como a gente.

Hoje larga em sétimo, pode nem completar a prova, nunca sabemos o que vai acontecer. Mas é por ele que volto a ligar a TV e assistir à uma corrida de F-1 com gosto sincero depois de anos, anos e mais anos.

Indo bem ou não espero que sobreviva. À prova, às cobranças externas e internas e à F-1. Ao circo. Pois não existe melhor definição para este mundo de aparências que tanto espaço ganha na mídia e reflete a sociedade contemporânea marcada pela fome, de um lado, e pelo consumismo, de outro, do que esta palavra: circo. A vida é mesmo um paradoxo.



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