Dirigentes, ostras e saúde mental



A reação da maioria dos internautas ao post de ontem sobre o apoio de Andrés Sanchez a Ricardo Teixeira não deixa de espelhar parte da sociedade que vivemos. Uma briga generalizada entre corintianos e flamenguistas, paulistas e cariocas, discussões, ameaças e xingamentos que não levam a lugar nenhum.

Enquanto isso nossos dirigentes esportivos e políticos seguem fazendo o que bem entendem, mandando e desmandando no futebol e no Brasil.

Lembrei de trecho de um livro de diálogos entre o escritor e psicanalista Rubem Alves e o também escritor e médico Moacyr Scliar, que morreu em fevereiro passado e era torcedor fanático do Cruzeiro. O Cruzeiro de Porto Alegre, um time de que muita gente nunca ouviu falar, mas que foi grande no passado e disputou o Gaúcho deste ano.

Há uma parte do livro em que Rubem Alves, um dos intelectuais mais respeitados do país, diz o seguinte: “Convidaram-me para fazer uma palestra sobre saúde mental. Comecei, então, a pensar nas pessoas que me influenciaram, que vejo com admiração e gratidão. Pensei em Van Gogh, Fernando Pessoa, Maiakovski, Nietzsche… Fernando Pessoa bebia muito, Van Gogh deu um tiro no peito, Maiakovski deu um tiro também, Nietzsche enlouqueceu. Nossos políticos (e aqui eu acrescentaria boa parte dos dirigentes esportivos) são pessoas de saúde mental perfeita. Provavelmente nunca tiveram sentimento de culpa. As pessoas que eu admiro sofriam. Ostra feliz não faz pérola. A ostra, para fazer pérola, tem de ter um grão de areia incomodando. Ela sofre e secreta uma coisa que vai virar pérola.”

É isso que falta ao nosso futebol. Para nossos políticos, então, nem se fala. Temos ostras que ainda fazem pérola em campo _vide Henrique e Gabriel na seleção sub-20. Mas fora do gramado a coisa está difícil. Pelo jeito só temos ostras felizes. Administrando os clubes e torcendo nas arquibancadas. Foi o que senti pela resposta ao post de ontem. Só não acho que seja de perder a esperança porque se encontrarmos uma ostra que sofre e gera uma pérola viver vale a pena. E como conheço várias ostras soltas no mundo que sofrem, vivem e torcem, é por elas que sei que vale lutar.



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