Futebol e prostituição



Só uma reflexão. Lendo o livro “José”, de Rubem Fonseca, deparei-me com um capítulo em que ele cita as trabalhadoras do Mangue, no Rio, falando com muita beleza sobre o ofício das prostitutas.

Na hora me veio à mente o estigma que a profissão tem e pensei no estigma que segue os jogadores de futebol, inclusive os que viram celebridades, todos tidos como pagodeiros, frequentadores do morro _e daí se alguns frequentam, sim?_ e em como eles são usados e descartados pela sociedade. Da mesma forma que elas são usadas e descartadas, especialmente quando ficam mais velhas e não fazem um pé-de-meia.

As prostitutas exercem uma das profissões mais difíceis que existem. Têm um papel relevante na sociedade. Discriminadas, ficam à margem, são excluídas, a não ser que ganhem muito dinheiro, pois o dinheiro ainda fala mais alto pra muita gente e abre portas, sim. Acho o trabalho delas digno. Pelo menos das que trabalham decentemente, sim, há prostitutas que trabalham decentemente, por que não?, exercendo dia a dia seu ofício para se manterem, sustentarem um filho, um pai, uma mãe…

Não respeito outro tipo de prostituta, as que frequentam colunas sociais, as que pisam nos outros, as que mamam nas tetas do Estado, tirando dinheiro dos contribuintes, as que têm alma de p… Essas não trabalham decentemente. Muitas vezes nem trabalham. O pior, nem aprendem com o ócio. A verdadeira prostituta talvez não seja a que trabalhe deitada, mas a que trabalha de pé.

Na obra de Rubem Fonseca, ele cita Stefan Zweig, escritor austríaco de origem judaica, que morou um tempo no Brasil, tendo se matado em 1942, quando os nazistas venciam a Segunda Guerra Mundial. Zweig falava muito das meninas do Mangue, no Rio, das meninas da zona, enfim, zona que também existe no futebol e ganhou uma conotação pejorativa, mas era retratada pelo escritor com belas luzes coloridas.

Já Lasar Segall, também citado no livro “José”, tem suas pinturas das prostitutas descritas por Manuel Bandeira da seguinte forma: “(Segall pintou no Mangue) as almas mais solitárias e amarguradas daquele mundo de perdição, como já se debruçara sobre as almas mais solitárias e amarguradas do mundo judeu, sobre as vítimas dos pogroms, sobre o convés de terceira classe dos transatlânticos de luxo”.

Numa viagem a Nova York, vi uma exposição de Segall , artista lituano naturalizado brasileiro, no Museu Judaico de Manhattan. Um grupo de alunos que deveriam ter entre 5 e 6 anos fazia perguntas à professora sobre a obra deste artista incrível, tio-avô da minha mãe, o que me enche de orgulho. Fiquei impressionado como eles se interessavam pelo assunto e percebiam as mudanças na temática de Segall depois que se mudou da Europa para o Brasil.

Perguntavam sobre nosso país, que não é só o do samba e futebol.

Naquele instante mágico percebi claramente como a educação pode ser libertadora e dar mil opções de vida à garotada. Até para um dia escapar da prostituição.



  • Nilú

    Nossa João, vc está se superando a cada dia nos posts!!!!
    Falando sério, esse está incrível.
    Cheio de sentimento, emoções e verdades.
    PARABÉNS !!!
    Nilú

    • janca

      Oi Nilú, muito obrigado pelos elogios, muito obrigado mesmo, fico até sem graça _rs. João

    • Dani

      Assino embaixo do que você escreveu, Nilú. João, parabéns. Quis dizer, PARABÉNS!!!

      • janca

        Obrigado a você também, Dani. João

  • Dani

    Depois dizem que são mulheres de vida fácil. A sociedade é curiosa… Mulheres de vida fácil são outras que eu conheço.

    • janca

      Risos. Abs. João

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