Salinger e Kennedy



As pessoas têm a tendência de criar mitos, ídolos, celebridades que são colocadas num pedestal e depois muitas vezes tiradas de lá à força. Porque o sucesso alheio incomoda e o mundo é cruel.

Penso nisso quando vejo jogadores de futebol que um dia são deuses e no dia seguinte, demônios. Não é fácil viver numa gangorra emocional assim.

Isso vale para escritores também. Um dos melhores que já existiram é J.D. Salinger, autor de “O Apanhador no Campo de Centeio”, livro que marcou gerações. Lidar com o sucesso pra ele tampouco foi fácil, tanto que se refugiou numa cidadezinha norte-americana onde passou mais de 50 anos fugindo da imprensa e dos curiosos até morrer no ano passado.

Terminei há pouco de ler “Salinger _Uma Vida”, biografia do escritor de autoria de Kenneth Slawenski, que fez um belo trabalho de pesquisa.

Fiquei sabendo que Matthew, filho de Salinger, estudou na Phillips Academy Andover, uma das escolas particulares de maior prestígio nos Estados Unidos, tendo sido colega de John F. Kennedy Jr., o filho do mais famoso presidente norte-americano.

Admirado por Jacqueline Kennedy, Salinger foi convidado para trabalhar no governo e também para ir à Casa Branca. Apesar da insistência da então primeira-dama, que fez questão de ligar pessoalmente para ele, Salinger recusou o convite e preferiu se manter recluso.

Jacqueline, que também se dizia avessa aos paparazzi e curiosos e defendia o direito à privacidade, especialmente depois do assassinato de Kennedy, teria ficado chateada, mas compreendido as razões do escritor, que chorou muito quando o presidente morreu. Segundo sua filha, uma das raras vezes em que ela viu o pai chorar.

Por conta da reclusão, que temos de respeitar e não julgar, como muitos fizeram com Salinger, ele foi muito criticado. E também por conta do sucesso, que incomoda. E dos questionamentos que fazia sobre a sociedade americana.

Mas pensando nos dois, Salinger e Kennedy, lembrei-me da oportunidade que tive de entrevistar John Kennedy Jr., no escritório da revista política que ele editava, logo após a morte da princesa Diana. Foi extremamente amável, simples, mostrou-se brincalhão, fazendo piada com a secretária e tratando todos como… gente.

John-John foi visto e fotografado muitas vezes no Central Park, patinando, jogando beisebol, futebol americano e soccer, já que gostava do nosso futebol. Nos poucos minutos que passamos conversando, ele respondendo as perguntas que eu timidamente fazia, tive a melhor impressão possível de uma celebridade. Uma celebridade que não se “achava”.

Amante dos esportes desde criança e aventureiro nato, morreu antes de completar 39 anos de idade, numa queda de avião, avião que ele mesmo pilotava.

Foi um dia que me marcou, estava em Assunção, no Paraguai, onde o Brasil faria a final da Copa América logo depois contra o Uruguai. E ganharia, levantando a taça de 1999. Em momentos como este a gente leva um tapa na cara. Sente que de fato há coisas muuuuito mais importantes na vida do que o futebol. Uma delas é a morte. Outra, a  capacidade de se conectar com o próximo e acolhê-lo. É o que faz a diferença entre uns e outros e não quem aparece mais em revistas de fofoca, quem tem o carro mais luxuoso e se acha acima do bem e do mal.



  • Nilú

    Muito legal ler esse post!

    Nilú

  • Johannes

    É isso é João Carlos, penso que existem as pessoas comuns e as pessoas comuns. Extraordinárias são as circunstâncias.

  • Dani

    Oi Nilú, oi Johannes, oi João, o que mais eu posso dizer? Nilú e Johannes, em tão poucas palavras vocês disseram tudinho. João, muito legal ler esse post e existem as pessoas comuns e as pessosa comuns, extraordinárias são as circunstâncias. Parabéns a vocês três, que alegraram meu dia. João, você sempre me surpreende e faz eu parar para pensar. Se isso é bom ou não, eu não sei, mas faz eu parar para pensar quando escreve um post como esse. Muito legal como escreveu a Nilú. Dani

    • Johannes

      Sempre as ordens Dani, especialmente se for pra alegrar o dia !

      • Nilú

        Oi Dani, quem sabe colocar bem as palavras é vc, não eu. De qualquer forma esse post foi delicioso, para ler e pensar, e ver que o que vale mesmo é ser simplesmente “gente humana”. Nilú

        • Dani

          Eu tento, Nilú, eu tento. E sou fã do Salinger, do Holden, personagem do Apanhador, da Phoebe e dos posts neste blog. Dani

      • Dani

        Obrigada, Johannes, tem sido um prazer compartilhar o espaço nesse blog com vocês.

  • Fernanda

    Na vida temos que seguir nossa intuição, essa é minha filosofia. No trabalho uma colega me recomendou seu texto e ele me marcou. Sua impressão sobre o JFK Jr. é sua impressão e achei tão forte que passou a ser minha também. Acho que ele era assim, bonito por fora e por dentro também, mas a grande beleza era a interna, a simplicidade. Sou fã de Salinger, por isso me recomendaram seu texto, devorei a biografia dele, bem pesquisada mesmo, e quando o presidente Kennedy morreu o que a filha dele (Salinger) falou foi que foi a única (e não uma das únicas) vez em que viu o pai chorar. Bom trabalho pra você, Fernanda

  • Cassiano da Fonseca

    Vcs. falaram do Apanhador, alguém aí leu Nine Stories? Obra-prima.

  • janca

    Obrigado a todos que comentaram e à Dani, de fato você tem razão, acho que o biógrafo coloca que a filha do Salinger relata que foi mesmo a única vez em que viu o pai chorar, erro meu, e em resposta ao Cassiano li sim Nine Stories, você tem razão, compartilho de sua definição desta obra, que é genial. O primeiro conto é um dos melhores que li até hoje, A Perfect Day for Bananafish, o final me marcou muito, é impactante. Incrível. Abs. do João

  • Cassiano da Fonseca

    É esse livro mesmo e esse conto é incrível, como você colocou. Bonito mesmo.

  • Marcos Peixoto

    Prezado Janca:

    Na verdade a final da Copa América de 1999, ocorrida no Paraguai, foi Brasil x Uruguai (não Brasil x Paraguai, conforme você referiu no fim do seu texto), tendo a Seleção vencido o jogo por 3×0.
    Um abraço,
    Marcos Peixoto
    Salvador (BA)

    • janca

      Putz, é verdade, você tem total razão, vou corrigir no post, ok? Grande abraço e valeu pela informação, pra você ver como a memória nos trai (quer dizer, me trai), Janca

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