Dalai Lama na Dinamarca



Muitas vezes escrevo… para mim mesmo. Talvez seja uma forma de exorcizar meus fantasmas. Mas esse é um blog sobre esporte e o que tem a ver Dalai Lama na Dinamarca com o futebol, por exemplo?

Muito, diria eu. Pois foi por causa do futebol que fui parar em 1996 em Copenhagen, a capital da Dinamarca. Tinha um amigo de infância, um dinamarquês que morou no Brasil quando criança e depois retornou para seu país de origem. Ficamos amigos pois jogávamos futebol juntos todo final de semana. Todo. Ele era um ótimo ponta, naquele tempo havia pontas, sim, e eu era um péssimo goleiro e pior ainda na zaga. No ataque, então, nem me aventurava. Mas com mais ou menos talento o futebol tem esse potencial, que é o de aproximar as pessoas.

Seguimos amigos até hoje, embora o futebol não lhe interesse mais e continue me interessando. Volta e meia tento dar um pulo na Dinamarca, consigo fazê-lo bem menos vezes do que gostaria, reconheço, pois adoro a Escandinávia como adoro meu amigo dinamarquês, que hoje mora a três horas e meia da capital, num vilarejo com a mulher e as duas filhas.

Em 1996, depois de cobrir a final da Copa da Uefa pela “Folha”, em Bruxelas, fui passear um pouco pela Europa. Reencontrei um amigo em Gouda, na Holanda, que conheci na Copa de 1994 também por causa do futebol. E depois dei a famosa passada por Copenhagen.

Meu amigo morava perto do estádio onde jogava a seleção dinamarquesa e conseguimos ver uma partida do Brondby, o time local, um dos mais famosos do país, jogo que acabou em pancadaria nas arquibancadas.

No dia seguinte fomos assistir a uma palestra do Dalai Lama, pois meu amigo é adepto do budismo. Como agnóstico que sou, ele diz que fui o único a não se levantar quando Dalai Lama entrou no recinto. Até hoje não me lembro de ter ficado sentado, o que pode ser considerado uma grande indelicadeza, mas ele garante que sim e acredito no que diz.

A palestra, no entanto, me encantou. Nunca me esqueço de uma senhora que fez a seguinte pergunta: “Que dica o senhor daria a uma mulher na faixa de 40 anos, infeliz no casamento, com os filhos adolescentes partindo de casa para estudar, que se sente sozinha e não tem perspectiva de vida?”. Dalai Lama respondeu: “Nenhuma.” E eu vibrei.

Em seguida veio outra senhora que perguntou: “Minha irmã é protestante e não quer aceitar o budismo. O que faço para convencê-la a virar budista?”. E o Dalai Lama: “Nada. Se ela está feliz como protestante, por que tem que virar budista?”. Novamente eu vibrei.

Adorei as respostas do Dalai Lama, que ficaram na minha mente e seguem nela 15 anos depois. Porque a vida é isso aí. Só nós conhecemos nossas dores. Só nós temos respostas para elas. Podemos contar com a ajuda dos outros e os outros são fundamentais, especialmente os amigos e quando falo em amigos falo em amigos verdadeiros, mas a resposta mesmo tem que vir de dentro, pois ela é interna. E viva a Dinamarca!!! Pois meu amigo, hoje desligado do futebol, pode nem torcer mais pela seleção do seu país, mas eu sigo torcendo. Por ele e por mim. E pela minha infância perdida. Perdida?



  • Andreia Birman

    Sou budista e adorei seu texto. Você tem que conhecer mais sobre o budismo, que não impõe regras. Mesmo sendo agnóstico, você colocou bem as posições do Dalai Lama e entendeu o espírito budista de não impor regras e aceitar o diferente. Bjs. Andreia

  • Dani

    Notou como as amizades da infância são as mais puras e as que mais duram também?

  • Nilú

    Sabe que vc sem querer acabou nessas ultimas linhas, escrevendo algo bem parecido ao que diz Dalai Lama : ” O método para investigar como os pensamentos e emoções surgem em nós é através da introspecção ” Eu tive o prazer de conhece-lo pessoalmente na Toscana, e seu sorriso, sua paz, e suas palavras me deixaram maravilhada. Não sou budista, mas ler um pouco o que ele escreve,me faz muito bem, se vc ainda não experimentou, o que eu dúvido, prove!

  • janca

    É, Dani, algumas das amizades que a gente faz na infância de fato são amizades pra vida toda. E não conhecia o que o Dalai Lama havia falado sobre a introspecção, Nilú. Ele tem razão. Legal que você o tenha conhecido. Como você também não sou budista, mas fiquei encantado com a palestra, você falou bem, com o sorriso dele também. Bom final de sábado pra vocês e valeu pelos comentários, João

    • Nilú

      Oi João
      Do livro “Transformando a mente”
      Editora Martins Fontes
      1º edição
      dezembro de 2000
      Vale a pena ler!

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