Dinorah e o Fogão



O Canal Viva reprisa a bela série que a Globo produziu em 1990 sobre a morte de Euclides da Cunha, autor de “Os Sertões” e assassinado por Dilermando de Assis, amante de sua mulher. Dilermando, que agiu em legítima defesa, foi absolvido em julgamento em 1911.

A tragédia, que não acaba aí, mostra a sociedade machista e patriarcal do início do século passado, com o dedo apontado o tempo inteiro para Anna Sólon da Cunha, mulher de Euclides, que depois do julgamento viria a se casar com Dilermando, passando a se chamar Anna de Assis.

O caso dos dois e a morte de Euclides afetam muitas vidas e mostram uma imprensa atrás de sangue, atraindo a curiosidade de todos, especialmente dos moralistas e defensores dos “bons costumes”. Não sou favorável à traição, muitíssimo pelo contrário, mas tampouco sou adepto do que ficou conhecido como “matar por amor” ou “matar pela defesa da honra”.

Um dos atingidos _literalmente_ pela tragédia foi Dinorah de Assis, irmão de Dilermando, alvejado quatro vezes por Euclides. Jogador do Botafogo numa época em que o amadorismo ainda imperava no futebol, Dinorah entraria em campo na semana seguinte para enfrentar o Fluminense, sendo chamado de assassino por muitos torcedores nas arquibancadas. Mesmo não tendo desferido um tiro, pelo que me consta.

No ano seguinte ele seria campeão pelo Botafogo no famoso título de 1910. Dinorah foi um dos maiores jogadores do começo da história do Fogão. Dedicado, atuou até não conseguir mais, tendo que encerrar a carreira devido às sequelas dos tiros que levou.

Deprimido, voltou para Porto Alegre, entregou-se à bebida e se matou em 1921, aos 31 anos de idade, jogando-se no Rio Guaíba. Seu corpo, assim como o de Dilermando, que morreria anos depois, está enterrado em São Paulo.

Na série da Globo Dinorah é muitíssimo bem interpretado por Marcos Winter. História triste e pesada, história humana. Humana até demais.

PS. Aqui quero fazer um adendo e uma atualização no post, no início da madrugada de hoje, 5 de agosto. Se Anna e Dilermando de Assis não podem ser considerados culpados pela morte de Euclides da Cunha _e definitivamente não podem_, ambos erraram feio. Não pela traição, não, isso não. Anna errou feio como mãe dos três filhos de Euclides, mãe e pai têm responsabilidades ou pelo menos deveriam ter, e Dilermando falhou como irmão. É, a vida não é fácil.



  • Nilú

    Muita gente que não se interessa por esportes, e por esse motivo acaba por nem ler o Lance, se visse um destes teus posts, tenho certeza que se tornaria um leitor assíduo. São muito interessantes as “misturas” que vc faz. E o que consegue desenvolver a partir do futebol ou caindo no futebol. Eu sempre estive à favor de Dilermando.
    Como vc, não sou favorável a traições e acho mais, quem trai , trai em primeiro lugar a si, mas violencia é muito pior, não pode existir justicativa para ela na vida humana. Esse seu post realmente me surpreendeu e também me trouxe uma parte que eu não sabia dessa história, um desdobramento triste. Mas valeu, boa leitura matutina para levar na cabeça durante o dia!!! Nilú

  • Paulo Rodrigues

    Como você, Nilú, eu fiquei surpreso com o post, porque conhecia a história do Dilermando, da Ana de Assis e do Euclides da Cunha, vi a mini-série quando passou na Globo, mas nada sabia sobre o irmão do Dilermando ter jogado no Botafogo e sido campeão em 1910. Foi o primeiro título da história do Botafogo e está no hino -Campeão desde 1910-. O hino do Botafogo é bonito como o de todos os grandes do Rio. História trágica mesmo pra começar o dia _haha. Também queria dar os parabéns pelo link que você consegue fazer com o futebol e outros assuntos do cotidiano, da política, são textos muito sensíveis os seus. Bom dia, Paulo

  • Pedro Bota-Fogo

    Sou botafoguense fanático e não sabia que o Dinorah campeão de 1910 é o mesmo Dinorah da tragédia da Piedade, ficou assim conhecido o assassinato do Euclides, não ficou? O primeiro título da história do Botafogo era este, de 1910, mas depois reconheceram o de 1907 e mudaram até nosso hino. Mais um título pro Fogão. Dá-lhe Fogo!

    • janca

      Ficou conhecido como tragédia da Piedade, sim, pois foi numa pensão _ou num casarão_ na Piedade que o assassinato de Euclides, por legítima defesa, aconteceu. E o Dinorah da história e da tragédia da Piedade é o mesmo da escalação do Botafogo de 1910 que você deve saber inteira. Confesso que não sei. Abs. e bom dia, João

  • Afrânio

    Sou advogado e li um livro sobre a história do dr. Euclides e do Dilermando muito boa. É um livro baseado nos autos do processo da procurador de Justiça, Luíza Nagib Eluf. Se puder ler, leia, João, acho que você vai gostar. É mais para advogados, mas não só. Abs. Afrânio

    • janca

      Acredite ou não, Afrânio, mas já li o livro e apesar de não ser advogado achei bárbaro como você. Não é um livro só para advogados ou estudantes de direito, eu também recomendo. Como não sei onde coloquei meu exemplar, procurei no Google e vi que o título da obra é “Matar ou Morrer”. Segundo Luíza Nagib Eluf, que conheço por entrevistas e por ler seus artigos, sempre muito bem fundamentados, trata-se de uma versão feminina da morte de Euclides e ela absolve tanto Anna quanto Dilermando. É uma linda e trágica história em que afloram todos os sentimentos humanos. Para quem não conhece _eu conheço, repito, não pessoalmente, mas apenas por ler suas declarações, entrevistas e artigos_, Luíza Nagib Eluf é uma humanista. E isso para mim é o que vale. Abs. João

  • janca

    Obrigado a todos pelos comentários postados até aqui e obrigado pelos elogios da Nilú e do Paulo Rodrigues. De fato o hino do Botafogo é lindo, assim como os do Vasco, Flamengo, Fluminense e América-RJ, neste quesito 10 a 0 em relação aos hinos dos principais clubes de SP. Para ser sincero, dos grandes de SP acho o mais bonito o do Corinthians, mas gosto é gosto, calma!!! Abs. a todos e ótimo dia para vocês, João

  • Fabrício Coutinho

    Muito bonita a história. Fazendo as contas, o julgamento que absolveu o Dilermando vai fazer 100 anos. E este ano, pelo que você escreve, são 90 da morte do Dinorah, um dos jogadores que marcaram a história do Botafogo, coincidência ou não meu time no Rio. Moro em São Paulo por causa do trabalho, mas time de coração é time de coração. Aqui não tenho time. Sou torcedor de um time só. Botafogo, Botafogo, campeão desde 1910… Agora campeão desde 1907. Prefiro ficar com um título a menos e cantar campeão desde 1910 ainda mais agora que conheci a bela história do Dinorah. Assinado Fabrício Coutinho

    • janca

      Que eu saiba já fez cem anos no primeiro semestre. Mas a história é muito pesada e muito bonita ao mesmo tempo. O Brasil todo parecia contra Dilermando e Dinorah, que nem chegou a tirar uma das balas para enfrentar o Fluminense. Mesmo assim foi julgado pela torcida. Foram condenados antes do julgamento, mas absolvidos depois. A sociedade é fogo. Muitos dos que hoje nos esticam as mãos amanhã podem nos virar a cara. Abs. e valeu pelo comentário, João

  • janca

    E é interessante ver como as elites tratavam suas crianças falando muita coisa na frente delas como se elas simplesmente não existissem. Hoje em muitos lares da classe média alta elas são tratadas como reizinhos, mandando na vida dos pais e quando viram maiores de idade ganham carrões, bebem além da conta, fazem barbaridade no trânsito, mas isso é uma outra história para uma outra discussão… Enfim, educar não é fácil. Mas a tragédia da Piedade impressiona por ver o sofrimento das crianças, as mais sacrificadas e as mais inocentes em toda a história. De fato triste. Abs. a todos, Janca

  • janca

    E eu, que prometi não julgar nem apontar o dedo, tenho uma constatação. Constatação minha, claro. Não acho que Anna de Assis falhou como mulher, quem falhou como marido foi Euclides da Cunha, o maior responsável pela tragédia da Piedade, mas a Anna de Assis falhou e muito como mãe. Isso sim, assim como Dilermando falhou como irmão. E Dinorah, o grande Dinorah do Botafogo de 1910, teve um triste fim. Ele e os filhos de Euclides foram as maiores vítimas desta tragédia. Pois podemos falhar e falhamos sempre, mas também temos responsabilidades na vida. João

  • É uma história muito triste e nebulosa. Aguardamos a análise de novos pesquisadores, como o juiz cearense Manuel Clístenes de Façanha e Gonçalves, para elucidar, pelo menos parcialmente, os fatos. De qualquer modo, parabéns pela matéria! Recomendamos a leitura das obras de Euclides da Cunha, é claro. a polêmica em torno do caso serve apenas para a juvetude não esquecer da contundente mensagem de Euclides. E, no caso, recomendamos também Anna de Assis: história de um trágico amor, Águas de amargura, A tragédia da Piedade: mentiras e calúnias de A vida dramática de Euclides da Cunha, A vida dramática de Euclides da Cunha, Matar ou morrer: o caso Euclides da Cunha e, principalmente, Euclides da Cunha: Autos do Processo Sobre sua Morte.

  • Fernanda

    Eu li 5 livros sobre o assunto, e ainda li A Paixão no Banco dos Réus. Não podemos julgar Dilermando em relação ao irmão. Cada história conta um fato. No livro Anna de Assis, Judith(filha de Anna e Dilermando) conta que o tio Dinorah conviveu com eles. E como ela falhou como mãe? Mulher não tinha direito a nada naquela época. Tanto que quando Dilermando foi atingido pelo tiro de Quidinho, estava na Vara de órfãos olhando o processo de Manuel Afonso. Sólon morreu na Amazônia numa emboscada. Quidinho na tragédia do Fórum. O único que constituiu família foi Manoel Afonso.
    Não podemos acusar Anna de negligência com seus filhos. Tanto que quando ela descobriu que Dilermando havia outra mulher, saiu de casa seguida pelos 5 filhos do casal. Os filhos que a quiseram seguir, ninguém foi obrigado.
    Em tempo, o nome dela era Anna Emília Ribeiro, que se tornou Anna da Cunha e depois Anna de Assis. Seu pai era Frederico Sólon, logo ela não tinha Sólon no nome, pelo o que consta nos livros que li.
    Matar para não morrer – Mary del Priore
    Matar ou Morrer – Luiza Nagib Eluf
    AUTOS dos Processo da morte de Euclides da Cunha
    O Pai – Dirce de Assis
    Anna de Assis – Judith de Assis

    • janca

      Oi Fernanda, concordo em parte com você. De fato Anna de Assis sofreu um preconceito impressionante, pois viveu numa época em que o homem podia tudo e a mulher, nada. Dilermando foi absolvido duas vezes, mas como você mesma diz cada livro traz uma versão. Quando eu falo que ela falhou como mãe estou me referindo aos três filhos mais velhos. Ela ter um caso com Dilermando acontece e a sociedade machista não perdoou, mas Anna envolveu Sólon no imbróglio, tanto que, pelo que li, ele ficou completamente dividido, com dilemas ligados a lealdades com o pai morto e a mãe muito difíceis de resolver e foi para a Amazônia para fugir do inferno que vivia no Rio. Já Quidinho não conviveu com a mãe, o que é uma pena e, pelo que li, sofreu um bocado também. E Manuel Afonso foi parar na Vara de Órfãos, quando tinha mãe viva. Ela criou os cinco filhos que teve com Dilermando, sim, mas acho que falhou com os que teve com Euclides. Mas quem sou eu para julgar? Foi uma tragédia grega. Ela vivia num casamento infeliz, a sociedade é uma “coisa” lastimável e machista e preconceituosa e só atirou pedras em Anna e Dilermando, o que não quer dizer que ela não tenha falhado com Sólon, Quidinho e Manoel Afonso. E o que li sobre Dinorah é que ele ficou com mágoa profunda do irmão e que o relacionamento dos dois foi se deteriorando até ele fugir para Porto Alegre e cometer suicídio, embora a Judith, filha de Anna com Dilermando, segundo você, diga outra coisa. Mas como filha fica difícil analisar, justamenteis por ser filha dos dois. Se Quidinho escrevesse um livro, certamente veríamos outra história. Pois a história depende de quem a vivencia, do papel em que estamos inseridos e do olhar do observador, que nunca é isento. Nunca. Abs. e valeu pelo comentário, João

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