Amy, Orwell e Kafka



Anteontem foi encontrado em seu flat londrino o corpo da cantora Amy Winehouse, tida como a grande voz da moderna “soul music” e conhecida também por sua dependência e abuso de álcool e drogas pesadas.

Apesar de muita gente se dizer chocada era algo previsível, que poderia acontecer mais dia menos dia, porque, com apenas 27 anos de idade, todos sabiam que Amy vinha traçando seu caminho de destruição há pelo menos cinco anos.

Lidar com fama, sucesso, muito dinheiro e falsos amigos não é fácil. Com a imprensa e o público tampouco. Porque eles sugam o máximo de quem está em evidência. Invadem sua privacidade, ao mesmo tempo amam e odeiam quem está no topo e no fundo querem vê-lo lá embaixo, como todo “simples” mortal. Uma relação sadomasoquista. Parece mais fácil vibrar com a tragédia do que com o sucesso alheio.

E Amy mostrou não ter estrutura emocional interna para aguentar tudo isso. Poucos têm.

No futebol é a mesma coisa. A discussão, agora, é sobre a falta de maturidade e equilíbrio emocional para vestir a camisa da seleção de novatos como Neymar, Ganso e Pato.

A discussão está desfocada. Não é porque perderam a Copa América que não têm maturidade nem equilíbrio emocional. Os dois últimos fizeram um torneio melhor do que a maioria de seus companheiros. Melhor do que a do experiente goleiro Júlio César, por exemplo, que falhou mais de uma vez.

Eles não são os maiores responsáveis pelo que aconteceu na Argentina. O que vimos é que o Brasil ainda é uma colcha de retalhos, ao contrário do Uruguai, um time aplicado e responsável que vem sendo formado desde 2006.

Com os jogadores podem acontecer coisas parecidas com as que ocorreram com Amy. Não que irão cair no mundo das drogas e do álcool, embora alguns caiam, sim, se não agora, quando encerram a carreira e acabam no ostracismo. Mas têm de tomar cuidado com assessores, aproveitadores de plantão e a imprensa, que um dia irá chamá-los de reis, mas no seguinte os atacará até não poder mais. Porque a mídia é parte da sociedade e a sociedade é assim. A mídia, como a sociedade, é moralista e não perdoa.

 Li ontem no “Estadão” que Anders Behring, atirador confesso e responsável pela morte de mais de 90 pessoas na Noruega, é fã de Kafka, um dos meus escritores preferidos.

Autor de “O Processo”, Franz Kafka faz uma das melhores críticas à sociedade, aos governos e à burocracia que já vi. Mostra o absurdo da vida humana, como mostra George Orwell, outro escritor de que Behring era fã, autor de “1984” e de “A Revolução dos Bichos”, uma crítica aos regimes totalitários e às mazelas que assolam a humanidade.

Revi também ontem, na TV, “O advogado do diabo”, com Al Pacino e Keanu Reeves, um filme que mostra que o século passado foi mesmo do Diabo, ataca o sadismo do Deus que os homens construíram, desnuda a alma humana, cheia de vaidade e nos leva à pergunta: Que século não foi do Diabo? Porque o atual também parece ser dele. Vide a tragédia na Noruega e o crescimento de movimentos de extrema direita especialmente na Europa, que não aceita a migração de mais muçulmanos para o Velho Continente.

Em vez de as fronteiras se abrirem, como deveria ser, parece que elas se fecham cada vez mais. Uma pena. Porque tudo isso só gera mais violência. Que o digam jogadores brasileiros que vão à Europa, como o experiente Roberto Carlos na Rússia, e são vítimas de racismo quando entram em campo. Pela cor da pele, pela nacionalidade…

Ia terminar o post de outra forma mas prefiro encerrá-lo com uma pergunta que me intriga. Behring, o atirador, é um cristão fundamentalista, segundo saiu na mídia. O que é um cristão fundamentalista? Alguém sabe? Alguém me ajuda?



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