Vinho tinto



Hoje quero falar de vinho e futebol. De vinho tinto, pois não gosto do branco e porque é a cor da camisa da Venezuela, que à tarde disputa o terceiro lugar desta Copa América que simplesmente sumiu dos jornais brasileiros depois da eliminação de Brasil e Argentina.

Como é que países como Venezuela e Peru, especialmente a Venezuela, chegaram lá, lutando por um lugar no pódio, e brasileiros e argentinos não? Como é que o Paraguai chegou à final e os dois times tidos como os mais fortes do continente caíram nas quartas-de-final?

Porque o futebol, na era da globalização, está cada vez mais nivelado. E por baixo. Os grandes desceram de nível, os pequenos subiram e estão todos numa espécie de limbo em que sobra pouco espaço para a arte.

A Venezuela, país que “fabrica” miss e é dez em beisebol, não teme mais os brasileiros em campo. Empatou em zero a zero com os canarinhos na estreia e duas vezes com o próprio Paraguai, que é finalista. Primeiro por 3 a 3, num jogo com final emocionante, depois por 0 a 0, metendo três bolas na trave, mas caindo nos pênaltis e deixando de ir à final.

Com a exportação de jogadores para a Europa e outros continentes, com o intercâmbio cada vez maior, o futebol mudou e não existe, em termos de seleções, o antigo bicho-papão.

Mas como gosto de nadar contra a corrente vou citar trecho de um livro que estou lendo e que se chama “Gosto e Poder _Vinho, cinema e a busca de prazeres”, de Jonathan Nossiter, pois ele aponta uma possível saída para… o nosso futebol. E olha que o livro não tem, pelo menos teoricamente, nada a ver com o esporte, embora na contracapa a crítica seja feita por Bill Buford, norte-americano que escreveu “Entre os Vândalos” nos anos 80, uma rica experiência que viveu com os hooligans ingleses.

Nossiter pergunta: “Por que o vinho tem uma relação única com a memória?”. E responde: “Porque é receptáculo vivo de uma memória pessoal _a do bebedor ou do produtor, de sua subjetividade e da lembrança dessa subjetividade_ e ao mesmo tempo uma memória comum. Comum porque um vinho é também memória de um terroir, que ele exprime sob a forma de um gosto em constante evolução, constantemente ativo. Como tal é, antes de tudo, a expressão de um lugar, portador de uma identidade coletiva, da história de uma civilização local e de sua relação com uma natureza específica.” Isso serve para o vinho mas também para o futebol.

Temos que voltar para nossas raízes, as raízes do futebol brasileiro. Voltar à nossa essência. Estamos todos admirados com o futebol uruguaio, que saiu das trevas e voltou com força ao cenário mundial, pois eles jogam com uma garra tremenda, com uma gana que parece faltar aos nossos jogadores. Não que nunca iremos atuar com gana, pois já atuamos várias e várias vezes assim. Mas jogar como os uruguaios jamais iremos. Pois nosso estilo é diferente, nossa cultura é outra e eles _nosso estilo e nossa cultura_ têm que ser valorizados pois foram eles que nos levaram a ganhar cinco Copas do Mundo.

Temos que jogar como Brasil, não como Uruguai. Quando recuperarmos nossa essência, nossas raízes, nosso terroir, voltaremos a ser um bom vinho. Pois como diz Nossiter em seu livro o vinho exprime de maneira singular o que somos e o que esperamos ou pretendemos ser. Como o futebol. E não somos uruguaios muito menos venezuelanos. Somos brasileiros, portanto temos que jogar como tais. Um abraço e um bom sábado a todos, João Carlos



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