Qual é o limite?



Ontem li uma matéria no LANCE! que deveria servir de alerta a todos os envolvidos com o esporte.

Era uma reportagem sobre o jovem astro britânico Tom Daley, campeão nos saltos ornamentais e uma das esperanças para os Jogos de Londres-2012. Seu técnico revelou ao jornal “Daily Mail” que Daley, 17 anos de idade, não está nada bem e lhe disse literalmente que pensa em se matar.

Sétimo em Pequim-2008 na sua modalidade quando tinha apenas 14 anos, Daley, que recentemente perdeu o pai de câncer, estaria no limite da pressão para conquistar o ouro para os britânicos no ano que vem.

Quem diz que quer se matar pode até não vir a fazê-lo e espero sinceramente que Daley não o faça, tem toda a vida pela frente, toda a vida, mas no mínimo está acendendo o sinal amarelo e quem está a seu lado tem que fazer alguma coisa. Porque não fazer nada é um crime. Ficar em cima do muro é lavar as mãos. Não se posicionar é uma forma simples de… se posicionar da maneira mais fácil e covarde, sinalizando que não é problema seu, nem meu, ele que se vire.

E não é assim. Daley precisa urgentemente de apoio, ajuda, terapia, acolhimento. Ele precisa aprender a se abraçar. Se o mundo não o abraça e só vai gostar dele se for ouro em 2012, dane-se o mundo. Porque haverá quem estará a seu lado se ficar em último lugar. Sempre há quem fique a seu lado mesmo que você seja o último. E se não houver tem que haver… você mesmo.

O atleta afirmou textualmente o seguinte: “Quando salto na água, sinto como se estivesse em um acidente de carro.” Existe pedido de socorro mais claro do que esse?

Segundo o repórter Rafael Valesi, do L!, que o entrevistou em 2010, Daley parecia bem na ocasião, aparentou saber lidar com a pressão apesar da pouca idade, mas talvez a exigência seja mesmo demais para um atleta como ele. Quantas e quantas vezes estamos no fundo do poço, mas fingimos que estamos bem porque a sociedade espera isso da gente? Quantas máscaras não temos que usar? E elas são necessárias para nos proteger, pois o mundo é fogo…

Por isso tudo Daley precisa de acompanhamento psicológico, apoio dos patrocinadores, do público, de quem está a seu redor para achar seu eixo. Porque a gente sempre pode encontrá-lo. Depois ele some e vamos para o chão novamente, daí levantamos, ameaçamos cair outra vez, conseguimos ficar de pé… A vida é assim. Só não podemos nos entregar. Pois temos muito a fazer por aqui. Muito.

E Daley é apenas um adolescente. E há fase mais complicada do que a adolescência? Como é difícil e doído ser adolescente… O que cobram da gente nessa etapa da vida. E em outras, outras e mais outras… Mas na adolescência nossa bagagem é menor…

Não me interessa se Daley será ouro, prata, bronze ou sétimo no ano que vem. Não me interessa se irá competir. Interessa saber se quem está perto dele e pode ajudá-lo irá fazê-lo. Até porque mesmo quem está longe pode fazer a diferença, às vezes com uma simples carta, e-mail, o que for. Interessa que ele enfrente essa fase difícil e siga sua vida.

Com ou sem medalha, com ou sem esporte, com ou sem Olimpíada, torço muito para que fique bem, que simplesmente fique bem, como costumo dizer, o que já é muito.

E que passemos a pensar no limite que o esporte e a pressão nos impõem. Daley está pedindo socorro e quando alguém pede socorro assim negar ajuda é imperdoável. Por que só acolhemos quem é campeão? Quem é ouro? O que um atleta tem que fazer para agradar ao público? Quantos casos de doping já vimos, quantos pedidos de ajuda, mesmo que não tão explícitos como o de Daley, quantos campeões que depois não conseguem mais os mesmos resultados são jogados ao ostracismo? Pelos amigos (amigos?), pela mídia, pelo público, pelo mundo?

O lado B do esporte é cruel. O A também. Porque o mundo não perdoa. Mas por mais que o mundo não perdoe há, repito, sempre alguém para nos acolher e abraçar. Mesmo que este alguém seja… a gente mesmo. Torço muito, mas muito mesmo por Daley porque sei o que ele está passando e não desejo isso a ninguém.



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