Jennings e Havelange



Calma, ainda não deu tempo de acabar de ler o livro de Andrew Jennings _”Jogo Sujo”, sobre os escândalos e bastidores da Fifa_, mas queria aproveitar a oportunidade para voltar a criticar Sir Stanley Rous, presidente da Fifa citado pelo jornalista como “um homem em quem se podia confiar o relógio e as chaves da casa”.

Eu não confiaria as chaves da minha casa a alguém que aceitou o título de presidente de honra da Fifa concedido pelo próprio Havelange, tão criticado por Jennings. A alguém que achava que o mundo tinha que girar em torno da Grã-Bretanha. A alguém que não entendia que o futebol não era apenas entretenimento, mas negócio também. A alguém que pouco se lixava para o continente africano, continente saqueado por britânicos e franceses durante anos e anos de história. Entrego a chave da minha casa a pouquíssimas pessoas. Mas não entregaria nem a Rous nem a Havelange.

O primeiro, já falecido, presidiu a Fifa entre 1961 e 1974. Foi um dirigente pífio, apagado, que deixou de lado continentes como o africano e o asiático, que só via o futebol como esporte, mas entendia que pudesse ser usado politicamente. Como foi em 1966, durante sua gestão, quando a Inglaterra ganhou a Copa em casa com um belo auxílio da arbitragem. O segundo _Havelange_ dirigiu a Fifa de 1974 a 1998 e foi um desastre. A Copa de 1978, usada politicamente pela ditadura argentina, fala por si só. Sua administração foi atolada por denúncias de corrupção. Atolada, como prova Jennings em sua obra, que deve ser lida por qualquer pessoa que goste de futebol.

Mas vejo um mérito em Havelange. Ele teve a visão de que o futebol era mais do que entretenimento. Era um negócio que podia ser muito rentável. Se parte do dinheiro foi para o bolso dele e o de Teixeira cabe à Justiça apurar. Pois denúncias e acusações não faltam. Basta ler o livro de Jennings…

O jornalista é incisivo nas denúncias contra os dois, que chama de ladrões, como chama Blatter de ladrão. Mas continuo insistindo que peca quando critica medidas tomadas por Havelange que considero importantes para o futebol. Ele escreve sobre o programa do brasileiro quando este assumiu o comando da Fifa em 1974: “Danem-se os europeus, o número de participantes da Copa seria ampliado e haveria Mundiais de categorias de base. Ele encontraria patrocinadores e com o dinheiro ajudaria federações e associações nacionais, cursos ministrados por técnicos, médicos e árbitros, novos campos de jogo e mais competições nos países em desenvolvimento para clubes em desenvolvimento.” Coloca isso como se fosse algo negativo quando não era.

Havelange usou a seleção brasileira para ser eleito? Sem dúvida, já que como presidente da antiga Confederação Brasileira de Desportos mandava-a excursionar e a utilizava para angariar votos no continente africano, por exemplo. Mas que sua plataforma era mais moderna do que a de Stanley Rous, ah! isso era. E que essa cegueira prejudica o próprio Jennings prejudica, embora ele tenha conseguido fazer um personagem de si próprio. O que não invalida, é claro, as denúncias que faz e que deveriam ser todas apuradas e seriam se estivéssemos num mundo sério. Mas não estamos. Definitivamente não estamos. Se estivéssemos, não teríamos Blatter como presidente da Fifa, Teixeira como presidente da CBF desde 1989, o confisco inexplicável feito por Collor, que está todo prosa de volta aí e atuando no Senado pela Copa no Brasil… Coisas da política, coisas do futebol…



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