Terra de gigantes



Quando eu era criança adorava ir a jogos da Lusa. Admirava sua torcida, sempre menor que a dos outros grandes de São Paulo, e queria que ela saísse vencedora.

Normalmente não saía. Nos anos 70, apesar de um belíssimo time, a Lusa ganhou apenas o Paulista de 73, ainda assim dividido com o Santos.

Torcer pelos mais fracos é gostoso. Principalmente quando eles vencem. O futebol é bonito por isso, um esporte em que as surpresas acontecem, em que os poderosos tropeçam com mais frequência.

Vi a Lusa ser vice-paulista em 75, quando ainda era menino. Dez anos depois vi ser vice mais uma vez, novamente contra o São Paulo. Nos anos 90, vibrei com campanhas como a do Brasileiro de 96, quando fez partidas épicas, como um empate heróico no Mineirão, até chegar ao vice-campeonato contra o Grêmio, em Porto Alegre.

Também vibrei na década passada, quando escapou do rebaixamento para a Série C em outro jogo histórico, desta feita contra o Sport, em Recife.

Agora na Série B festejei muito os três últimos resultados, 5 a 0 contra o Bragantino, 4 a 1 contra o Goiás, 5 a 2 contra o São Caetano. Acho bacana, quando posso, ver jogos no frio e vazio estádio do Canindé. A torcida da Portuguesa é pequena e peculiar.

Não é por ter direito ao passaporte português que gosto da Lusa. É porque com ela tudo pode acontecer. Inclusive um tropeço logo mais contra o ASA de Arapiraca, fora de casa. Mas com ou sem tropeço vou seguir torcendo para que volte à Série A. Onde é seu lugar.

Acho que gostar da Lusa fez eu me aproximar dos mais fracos. Ou talvez tenha me aproximado da Lusa justamente porque desde cedo a dor dos mais fracos me encantava mais.

Gosto dos pequenos grandes momentos da vida, inclusive no futebol. Mas também no cinema, que é uma arte que me encanta.

Ontem saiu o resultado do Florianópolis Audiovisual Mercosul, em que o filme “Sobre Futebol e Barreiras”, documentário que fizemos em cinco, sendo quatro diretores _José Menezes, Lucas Justiniano e Arturo Hartmann, além deste que vos escreve_ não foi premiado como o melhor.

Ganhou “Confesiones”, um filme argentino sobre a ditadura militar do país, decisão dos jurados. Tinha entrado como favorito e me disseram que é muito bom. O escolhido pelo juri, “Carne e Osso”, também não vi. Mas assisti ao que ganhou menção honrosa, “Perdão Mr. Fiel”, e achei muitíssimo interessante. Um ótimo filme sobre a ditadura militar no Brasil.

Acho legal ter vencido outro documentário que também tratava da ditadura na América do Sul e que o tema continue sendo abordado, pois lembrar é preciso. Como é preciso lembrar do que aconteceu na Segunda Guerra Mundial e que está na origem da criação do Estado de Israel, cujo direito de existir insisto em defender. E acho que pode ser um Estado judeu e democrático ao mesmo tempo, sim, uma das discussões travadas pelos personagens do nosso filme, embora discorde de todos eles, exceto do Gregory, um israelense na casa dos 20 anos que torce pela Alemanha e dá depoimentos interessantes defendendo Israel, um sujeito que assim como Yasser, um dos palestinos entrevistados, fala com o olhar.

Em 1948, quando foi criado o Estado de Israel, os judeus ganharam um deserto, que foi atacado pelos árabes que não aceitavam um Estado judeu. Venceram a guerra e depois outras duas, sempre para defender seu direito de existir. Hoje o deserto virou um dos países mais desenvolvidos do mundo, que poderia estar trocando experiência com os vizinhos árabes, mas não está. Porque há barreiras e mais barreiras de tudo quanto é lado. É o que penso, embora não seja necessariamente o que pensa o filme.

Nosso documentário é muito bonito. É humano. Gera discussões. Mas não venceu. Foi feito na raça e muito graças ao talento e à garra dos outros três diretores.

Não vou dizer que gol é um detalhe, mas como desde pequeno aprendi a entender o encanto de times como a Lusa, que enfrenta quatro gigantes em seu Estado e sobrevive, fiquei muito contente com o festival. Pela oportunidade que nos deu de estrear, de exibir o filme numa telona, pela receptividade, comentários elogiosos, troca de experiência, mas também pelos quatro dias que passei em Floripa, cidade de que gosto demais.

E vamos que vamos lá porque atrás vem gente!!!



  • Nilú

    Fantástico João !!!!
    Nem tem o que comentar!!!
    Diz tudo!!!
    Parabéns!!!
    Nilú

  • Daniela

    Lindo texto, adoro cinema e fiquei curiosa sobre o filme de vocês e sobre o que fala da ditadura brasileira. Quando passar em Brasília um dos dois você avisa? Daniela. E se conseguir continue escrevendo sobre outras coisas como vem fazendo, ligando tudo ao futebol. Dá um toque diferente, sabe o que quero dizer? Daniela

  • Felipe

    Gostei muito do que escreveu sobre Israel porque também é o que penso. Enquanto outros países no Oriente Médio estão se matando e não constroem nada de bom, os judeus transformaram o deserto numa nação. Têm técnicas de irrigação que poderiam ter sido aproveitadas pelos árabes e não foram. Os judeus souberam construir um país em pouco mais de meio século. Sobre a sua Lusa já vejo de um outro jeito. Não é o segundo time de todo torcedor de São Paulo? Se é é uma espécie de América do Rio, só que está em melhor fase. Ou seja, vocês não têm do que reclamar, companheiro. Abs. do Felipe

  • Sempre Timão

    O Mr. Fiel não é um dos filmes sobre o Corinthians?

    • janca

      Não, o filme sobre o Corinthians é outro e já está em circuito. Abs.

  • Viva Lusa

    Este ano somos nós na primeirona. Ninguém segura o Edno nem a Lusinha do Canindé.

  • janca

    Obrigado a todos pelos comentários. E vamos ver o que acontece com a Lusa logo mais… A Ponte venceu ontem e é a líder isolada da Série B. Um time para dar trabalho. Mas como são quatro os que sobem… Abs. e bom sábado a todos, João

  • janca

    E não é que a Lusa perdeu para o ASA de Arapiraca… 2 a 0. Há mesmo coisas que só acontecem com a Portuguesa…

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