Livros de futebol



Num dos posts anteriores, quando eu dizia que o futebol quase nunca era tema de cinema ou de literatura _especialmente da boa literatura_, comentei que voltaria ao assunto.

E quero fazê-lo em torno daquele que acho um dos melhores livros sobre futebol escrito no Brasil. Não estou me referindo a “O Negro no Futebol Brasileiro”, de Mario Filho, autor que deu nome ao Maracanã e era irmão do imbatível Nelson Rodrigues. Há um outro tratado sociológico que merece destaque e recomendo a quem não leu. Trata-se de “Futebol _The Brazilian Way of Life”, traduzido para o português como “Futebol _O Brasil em Campo”. Curiosamente não foi escrito por um brasileiro, mas por um jornalista britânico.

Conheci Alex Bellos no Rio de Janeiro, no início da década passada, quando marcamos um café e ele me entrevistou, pedindo uma ajuda para o livro que escrevia. Ajudei-o no que foi possível e Alex, que era correspondente do “The Guardian” no Brasil, acabou me dando várias dicas.

Algumas delas viraram pauta, como uma matéria que escrevi sobre um time do Nordeste que jogava com a camisa homenageando Eurico Miranda, então alvo de uma CPI do futebol em Brasília. Sim, um time que defendia o então deputado federal e presidente do Vasco. Chegando ao Nordeste, fui logo vendo que tinha muitas pautas em mãos.

Porque as pautas surgem quando saímos a campo. Descobri um time que tinha sofrido um sequestro-relâmpago antes de um jogo da Série C, se não me engano, do Brasileirão. Com isso chegou atrasado à partida e perdeu por W.O., informação que não tinha visto no Sul ou no Sudeste do país.

Alex descreve, no livro sobre futebol, como o Brasil pode ser compreendido por meio do seu principal esporte. Mostra a visão de alguém que vem de fora e fica surpreso com as superstições dos torcedores e as mandingas quando a seleção joga numa Copa do Mundo.

Vai até Manaus, relata histórias de um campeonato com dezenas e dezenas de equipes em que o critério de classificação é tão maluco que uma delas pode ir para a repescagem e se classificar se sua musa for eleita a mais bonita de todas. Um campeonato que mistura futebol com concurso de miss.

Ele segue para as Ilhas Faroe, uma região autônoma da Dinamarca, país que adoro, para mostrar até onde vão parar jogadores brasileiros.

Escreve de um jeito fácil de entender, uma leitura não só agradável, mas ao mesmo tempo profunda. Indico para quem não conhece a obra, assim como indico o último livro do autor, “Alex no País dos Números _Uma Viagem ao Mundo Maravilhoso da Matemática”.

Ainda nem cheguei à  metade, só que posso dizer que o livro é bom e interessante. Formado em matemática e filosofia, Alex traz um panorama da história da matemática com exemplos muito bacanas e casos que fazem a gente parar para pensar. Não está sendo uma leitura fácil, embora produtiva. Recomendo mesmo para quem não gosta muito de números, como é meu caso.

Outro livro de que muitos gostam é o do jornalista Franklin Foer, “Como o Futebol Explica o Mundo”. Tive contato com o norte-americano, quando veio ao Brasil, mas acho que a obra poderia ter sido um pouco mais aprofundada. Há histórias interessantíssimas, embora não explique tão bem o futebol brasileiro. Concentra-se muito nos escândalos, quando nosso futebol não é só isso. Mesmo assim apresenta uma visão interessante sobre o futebol num mundo globalizado. Recomendo para quem não conhece.

E Franklin, conforme descobri depois, é irmão de Jonathan Foer, autor de “Extremamente Alto, Incrivelmente Perto”, um dos melhores livros que já li. Usa o 11 de Setembro como pano de fundo para contar a história de um garoto brilhante que tem de lidar com a morte do pai. É cômico, profundo, muito bem escrito, genial.

Há vários outros livros que poderiam ser mencionados, mas os de que mais gosto são os biográficos, como a vida de Garrincha, contada por Ruy Castro, a de Heleno de Freitas, de Marcos Eduardo Neves, a de Leônidas da Silva, relatada por André Ribeiro, que fez uma pesquisa primorosa…

Há livros sobre os principais times de futebol no Brasil, um dos quais foi encomendado a mim e ao jornalista Eugenio Goussinsky que trata da história do Coritiba, lançado em 2000, quando o clube completava 90 anos. Tive prazer em fazer, pois contamos também a história de Curitiba, a capital do Paraná, as fotos são belíssimas, é um livro de arte, um livro de colecionador.

Com a Copa de 2014 no Brasil o mercado editorial tende a se mexer e espero que muita coisa boa surja por aí. Muita coisa ruim certamente vai aparecer, inclusive livros de autoajuda, pois eles não faltam no mercado esportivo e sinceramente destes eu quero distância. A maioria é livro para o autor ganhar dinheiro, consumido por um público que… acaba ajudando o autor, simplesmente isso. Mas se surgir uma obra boa entre dez medíocres já está valendo. Porque o futebol, por mais plasticidade que tenha, também pode ser arte em outros campos. Inclusive na literatura.



  • Cassiano

    Finalmente um blog de alguém que pensa. Cansei de blogs de gente que fica falando depois da rodada, o velho chove no molhado. Cansei de achismo, quero ler coisas diferentes. Continue assim, Cassiano

  • Cassiano

    O livro do Heleno de Freitas não virou filme? Li alguma coisa a respeito, tô esperando ver quando vai sair, mas não vi na minha cidade. Se souber de alguma coisa nova, agradeço se puder avisar.

    • janca

      Pelo que eu saiba vai virar filme, sim. As filmagens já tinham até começado, devem ter terminado. O Rodrigo Santoro faria o papel do Heleno de Freitas e o Rodrigo Teixeira cuidaria da produção executiva, se não estou equivocado. Mas acho que não está pronto, não, nem foi lançado. Abs.

  • André

    Não se esqueça de avisar como foi o final do festival, não consegui mais ir lá e não vou estar na cidade no encerramento. Vou perder o Mundialito, que acho que deixaram pro final.

    • janca

      Também não vou estar presente no final do festival, mas meus três amigos estarão lá, representando nosso filme, e aviso sobre o resultado, ainda volto ao assunto, pode deixar, André. Abs. João

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