O outro lado de Israel



Por que Israel, um dos países mais modernos e avançados do mundo, especialmente em termos tecnológicos, não vai bem no futebol?

Um dos motivos que me deram para isso é a obrigatoriedade de os jovens servirem o Exército durante três anos e, mesmo quando passam para a reserva, terem que voltar ao serviço militar um mês por ano até passarem da faixa dos 40 anos de idade.

Pode ser… Mas a obrigatoriedade de servir o Exército leva a outras situações também. E hoje, neste post, vou abordar um lado de Israel que é pouco comentado, já que quando falam no país todos pensam nas guerras contra os árabes, nos conflitos, na situação dos palestinos, na questão dos assentamentos que deveriam, pelo menos eu penso, terem parado de invadir os territórios palestinos não ontem, nem anteontem, mas há muito mais tempo. Governos, governos…

No filme que fizemos sobre a região, o “Sobre Futebol e Barreiras”, um documentário que traz o futebol como pano de fundo e a Copa de 2010 também para mostrar os conflitos e os dilemas da região, um tema não foi abordado, embora tenha sido citado no blog que mantivemos durante a viagem. O milagre econômico em que se transformou Israel.

Estive lá pela primeira vez em 1989. Em 2010, era outro país, muito, mas muito mais avançado mesmo. Estou lendo um livro que se chama “Nação Empreendedora _O milagre econômico de Israel e o que ele nos ensina”, de Dan Senor e Saul Singer, que tem algumas ponderações que levam a pensar.

Há partes de que não gostei, mas outras que acho interessantes e quero discutir aqui. Uma das coisas que observamos em Israel é que o jovem, quando termina o Exército, depois de três anos lá passados quer logo sair do país, viajar pelo menos durante seis meses, conhecer o mundo… E um dos destinos preferidos é a América Latina, inclusive o Brasil.

Como aparece no livro que citei, o jovem israelense vira, depois do Exército, um andarilho profissional e aprende muito em suas viagens. Conhece outras culturas, o que é fundamental.

Para a maioria dos países árabes eles simplesmente não podem ir. Mesmo antes da criação do Estado judaico, muito antes, em 1891, já havia uma proibição por parte dos governantes otomanos que impediam a venda de terras a judeus na região, tentando barrar a imigração judaica. Em 1943, cinco anos antes da fundação de Israel e durante a Segunda Guerra Mundial, os 22 países da Liga Árabe baniram a compra de produtos da chamada indústria judaica na Palestina.

Então, como dizem os autores do livro “Nação Empreendedora”, ainda hoje, diante da pressão dos países árabes que não aceitam Israel, um dos pensamentos dos jovens locais é: “Quanto mais tentam me prender aqui, mais vou lhes mostrar que posso sair.” E acabam parando na Europa, na Oceania, na África e principalmente na América Latina.

Por motivo semelhante, os israelenses se interessaram por campos como o da tecnologia, que além de darem segurança ao país, permitem a integração com gente de regiões tão distantes, como México, Bolívia, Peru e Brasil.

No setor das telecomunicações, as distâncias e os custos de remessa são mínimos e tiram os israelenses daquela sensação claustrofóbica de viver em um país pequeno cercado de desafetos por todos os lados.

O governo, claro, e isso quem diz sou eu, poderia diminuir a animosidade se, em vez de tratar os árabes como inimigos, começasse a adotar novas políticas. A começar por parar imediatamente os assentamentos em territórios palestinos. Dois mil soldados para assegurar o “conforto” de 500 assentados parece uma piada… Mas isso é uma realidade. Entendo que há o risco de terrorismo, mas os assentamentos teriam que parar já. Viraram mais do que poder de barganha do governo israelense, viraram uma provocação enorme e sem sentido ao povo árabe. E só dificultam possíveis negociações de paz.

Mas como neste post a discussão é outra, o fenômeno que se tornou o empreendedorismo israelense é algo para ser estudado. E tem muita relação com o improviso, com a necessidade de tomar decisões rápidas, pelo pouco respeito à hierarquia, mesmo dentro do Exército, já que na hora H muitos jovens de 18, 19, 20 anos têm de agir sem consultar seus superiores, pelo fato de durante mais de 20 anos a turma que serviu no mesmo período se encontrar para mais um mês de trabalho e trocar experiências…

Enfim, talvez resida aí um dos segredos do sucesso de Israel na economia e na criação de empresas que têm como base o conhecimento e a inovação.

No tocante ao esporte, porém, formar grandes jogadores de futebol pode ser difícil porque, quando tendem a despontar, logo devem servir o Exército. Algumas exceções são abertas, claro, mas o futebol israelense ainda patina.

Para quem não sabe, Israel é o único país que, em pouco mais de 60 anos de existência, já disputou as eliminatórias para a Copa do Mundo em todos os continentes, sim, em todos os continentes, inclusive na América do Sul e na Oceania. Disputou apenas um Mundial, o de 1970. Hoje participa das eliminatórias na Europa, com adversários mais fortes, o que tem ajudado a melhorar um pouco seu futebol nos últimos 10, 15 anos. Seus clubes disputam ainda a Liga dos Campeões e outros torneios na Europa, com rivais da melhor qualidade.

Um dia talvez volte à Copa. Mas seria bom também ver os palestinos, que adoram tanto o futebol, num Mundial. Embora o sonho pareça distante. Porque para eles os obstáculos são outros. Como juntar um palestino de Gaza com um que mora na Cisjordânia, com outro que está no Líbano ou na Jordânia, com outro que vive em Israel e é cidadão israelense para formar uma seleção verdadeiramente palestina?

Aí estão as barreiras. Barreiras que deveriam ser derrubadas _como, não sei, pois a questão é muito, muito complexa_, barreiras que estão em nosso documentário, assim como estão no futebol.



  • Claudio

    João, seu blog é um dos melhores do grupo. É o que faz a diferença quando abro o Lancenet. Quero te dar os parabéns com atraso, porque não é o primeiro texto que li e gostei muito. Um material bem escrito sobre Israel. Uma sugestão: eu mudaria o título deste post para “Andarilho Profissional”. Você não acha mais bonito?

    • janca

      Talvez seu título seja melhor mesmo… De qualquer forma, sigo com o meu _rs. E valeu pelo comentário, valeu mesmo. Abs. João

  • Fabiana

    Seu texto mostra o que os dois lados estão perdendo se se entendessem. Mas enquanto a indústria militar continuar rendendo grana pra todo mundo e pros poderosos principalmente ninguém vai querer a paz, muito menos Israel. E o povo que sofra. É triste porque também estive duas vezes em Israel e o povo é muito simpático, tirando os religiosos dos dois lados. Religião só atrapalha. Boa sorte com o blog, Fabiana

    • janca

      De fato se os dois lados chegassem a um entendimento seria ótimo para a região, para árabes e para judeus. Mas não vejo uma solução próxima, não…

  • Fabricio

    Tudo muito bom, tudo muito bem, mas e os palestinos que não conseguem sair de Gaza? Os israelenses pelo menos podem sair do seu país.

    • janca

      É o que eu disse no texto, a dificuldade para a seleção palestina se reunir é impressionante. Também com Gaza pra lá, Cisjordânia pra cá, vários morando em Israel, outros em nações árabes… É realmente complicado. Tudo muito bom, tudo muito bem, como você diz, mas tudo muito mal também…

  • Nilú

    Oi João!
    Super texto!!!!
    Tudo isso que você conta, é meio novo para mim, mas muito interessante.
    Ao final, chego a conclusão que prestar exercito por três anos em Israel, e todas as restrições, impostas à esses jovens, pode se tornar uma coisa positiva e de crescimento para eles, fora o fato de não poderem se dedicar ao futebol, lógico!
    Mas quantas coisas eles criam e buscam, quantos caminhos percorrem, almejando de alguma forma, serem livres…
    Bem diferente dos nossos jovens, mimados, protegidos, que quase sempre até escapam do exercito, só pensam em baladas, consumo, etc…
    Poucos tem objetivos sólidos e vão a luta para melhorar seu futuro e do seu país.
    Futebol à parte, pergunto: Será que pela dor, se aprende melhor a ser gente?
    No trailer do filme “Sobre Futebol e Barreiras”, homens adultos falam de coisas serias, tristes, q, mas o diálogo é leve até alegre, eu diria, e eles ainda sabem sonhar….LINDO!!!! Parabéns
    Nilú

    • janca

      Valeu pelo comentário. Mas quando você tiver a oportunidade de ver o filme, vai sentir que ao mesmo tempo não é tão fácil fazer Exército, não. Conheci gente em Israel que adorou a experiência, mas tem muita gente que detestou. E tem quem decidiu enfrentar o governo e simplesmente não fazer, por não concordar com as diretrizes da instituição. E uma entrevistada diz que você faz Exército quando tem 18 anos _as mulheres também têm de fazer, dois anos_ porque com 18 anos você não pensa. Já com 30… Não sei se com 18 anos a gente não pensa, tem muita gente que pensa, sim, mas de fato com 18 anos e uma arma na mão muita gente se sente valentão. Enfim, é uma coisa para pensarmos…

      • Nilú

        Tens razão….
        Mas, essa sou eu, foco no que me encanta e deleto o resto….rsrs
        Parei com conclusões precipitadas….
        Vamos ao filme!
        Vai demorar?

        • janca

          E você faz muito bem, tem que focar no que te encanta e deletar o resto mesmo. Eu ainda não parei com conclusões precipitadas, mas estou caminhando para. Vamos ver se um dia chego lá. Quanto ao filme, esperamos estrear em SP na Mostra de Cinema. Assim que tiver novidades, aviso. O mais interessado em divulgar sou eu. E os demais diretores e produtores, claro. Uma boa noite pra você, João

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