Filmes de futebol



E não é que ontem finalmente estreamos “Sobre Futebol e Barreiras” no Florianópolis Audiovisual Mercosul? Antes do nosso documentário estrear meus amigos, também diretores do filme, estavam ansiosos, eu percebia no olhar de cada um dos três, três profissionais de primeira _o José Menezes, o Lucas Justiniano e o Arturo Hartmann. Até brinquei: e se vaiarem? Às vezes o ódio é melhor do que a indiferença, pois não dizem que é o oposto do amor? É, talvez o pior seja a indiferença. Mas não neste caso, responderam eles. Não neste caso…

E foi interessante notar a reação das pessoas. Terminou a sessão e elas aplaudiram genuinamente o filme, pelo menos foi o que senti. Não foi um aplauso forçado ou protocolar.

É um filme que trata da questão de identidade nacional e do conflito entre judeus e palestinos no Oriente Médio, com o futebol e a Copa de 2010 como pano de fundo, como já expliquei no post retrasado, intitulado justamente “Sobre Futebol e Barreiras”.

Houve quem prestasse mais atenção nas cenas de futebol, as duas moças que estavam atrás de mim se importaram muito mais com as questões políticas, nem se lembravam de quem vencera a Copa, só “descobriram” no final… E cad um tem um olhar diferente e novo, o que é ótimo.

Eu mesmo vi, na telona, com outros olhos. Quando um dos personagens diz que a resistência palestina é 80% pacífica e legal, pensei, então, que 20% não é assim. E que estes 20% complicam tudo, porque podem levar ao terrorismo e à morte de muitos inocentes. Quando ele chama os judeus de inimigos, dificulta ainda mais a situação, por mais que os israelenses e o Estado judeu sejam, de fato, o lado mais forte neste momento da história. E por isso devem ser mais assertivos na hora de conceder e ceder para chegar à paz, se é que um dia ela será alcançada.

Mas o que achei bacana foi ver que, além do nosso filme, um dos que concorrem ao prêmio de melhor documentário do FAM, o filme convidado deste ano _no “ramo” documentários_ é Mundialito, sobre o torneio realizado no Uruguai em 1981, vencido pelos anfitriões e usado pela ditadura militar. Do Uruguai, no caso.

É fantástico ver filmes que contam com a temática do futebol e do esporte mesmo que como pano de fundo. Na Mostra Árabe de Cinema em SP um dos filmes era chamado “Um a Zero”, pelo que li uma comédia passada durante a Copa Africana de Nações. Lá estava mais uma vez o futebol…

Há anos vi “Machuca”, um filme sobre a ditadura chilena, que também tem o futebol como pano de fundo. Um filme belíssimo, acho que era esse mesmo o nome.

Para quem se interessa por Israel/Palestina, outro filme interessante é “Promessas de um novo mundo”, também acho que não errei o nome… Um filme sensível e lindíssimo sobre crianças e adolescentes judeus e palestinos. Um ponto é formidável, quando os dois lados percebem algo em comum, a torcida pela seleção brasileira.

Mas no nosso filme o que há de comum é o olhar de cada um dos personagens, um olhar que “fala” por si próprio. Um olhar angustiado, um olhar leve, um olhar profundo, um olhar com esperança, um olhar sem esperança… Um olhar.



  • Flavio Miranda

    Filmes de futebol deveriam ser feitos em mais quantidade mesmo. Gostei de ver quatro brasileiros filmando o futebol no Oriente Médio e vendo a Copa de uma outra perspectiva. Somos o país do futebol dentro do campo e é bom o tema ganhando as telas e falta ganhar a literatura, porque os livros de futebol são muito chatos. Quero ver o trabalho de vocês. Parabéns aos quatro brasileiros (são os quatro brasileiros?), Flavio

    • janca

      Obrigado, Flavio. E somos quatro brasileiros, sim. Em relação à literatura, de fato faltam bons livros com a temática “futebol”. Um bem interessante é de um gaúcho, cujo nome me escapa agora, acho que se chama “Segundo Tempo”. Fala da relação entre dois irmãos tendo o Gre-Nal como pano de fundo. Muito bonito. E o que tem de gaúcho e portanto de torcedores do Inter e do Grêmio em Floripa não está escrito… Mas hoje jogam Avaí, contra o Flu, que está hospedado num hotel perto do meu, e Figueirense, se não me engano às 18h30 contra o Inter, lá no Sul. O Inter de Falcão que está em crise… Vida de técnico não é facil…

  • Daniel Levine

    Oi João, parabéns pelo documentário e pelo seu blog. Seus textos são muito bons. Os mais interessantes, como os que você escreveu sobre seu filme, não tiveram a mesma repercussão de outros, mas foram os mais bonitos e profundos que você escreveu.
    Como judeu, me interessa muito ver o filme. Vou acompanhar o trabalho de vocês e ver pela mídia quando estreia em SP e no Rio.
    Também gostei muito do texto sobre seu amigo Marcos e o título que deu para o post foi muito bonito. Assinado Daniel Levine

    • janca

      Valeu mesmo pelo comentário, Daniel. Em SP esperamos estrear na Mostra de Cinema, ainda este ano, no Rio, no Festival que acontece um pouco antes. Assim que souber aviso. Ontem foi nossa estreia nacional e mundial, como disse o Arturo. E sem apoio oficial, patrocinador, nada. Na raça, como disse o Lucas, mas com parceria de muitos que acreditaram no projeto. Abs. e bom domingo, João

  • Nilú

    Impossível ficar indiferente, mas ódio e amor, podem às vezes trocar de posição!

    Não da para ficar isento nessa questão de judeus e palestinos.
    Eu particularmente, estudei em um colégio chamado “BRASIL EUROPA”, de um judia
    hungara, cuja a família veio para cá juntamente com o pai do patrão do meu pai, por 40 anos,
    Thomas Farkas, logo, convivi e convivo muito com judeus, que aprendi a respeitar e admirar.
    Mas nem por isso, me sinto apta à escolher um lado nesse conflito.
    E sabe porque?
    Porque se o conflito existe em primeiro lugar no nosso interior, da gente com a gente, na nossa
    vida diária, como opinar sobre um conflito que envolve povos, nações.
    Eu mudo de idéia constantemente em relação as minhas idéias, logo, fica difícil, não é mesmo?
    E eu com certeza não sou 80% pacífica, longe disso…rsrsrs
    Mas acho que isso que voce e tantos outros estão fazendo, chamando a atenção, através do
    futebol, para colocar questões de vital importância para o mundo, na minha opinião é genial!!!
    Parabéns João
    Um olhar de quem ainda não viu o flime, mas entendeu o recado!!!
    Abs. NILÚ

    • janca

      Oi Nilú, você tem razão, às vezes também fico pensando que é impossível ficarmos isentos ou indiferentes em relação a questões como essa. Mas o bacana do filme é que tentamos, num grupo heterogêneo, dar um novo olhar para a questão. Imagine a confusão _risos. Mas foi um trabalho bacana e que cada um pode ver de um jeito.
      Quando acabou a sessão, um cineasta veio conversar conosco dizendo que o auge do filme é quando o Shy, um judeu de Tel Aviv, diz que a sociedade israelense é baseada em morte, só se une para lembrar duas datas que têm a ver com morte, guerra. E o personagem pronuncia a palavra “morte” com um tom pesado. Daí para construir uma sociedade a partir disso, ele pergunta? Acho que sim. Porque pensar na morte é fundamental para pensarmos na vida. É a morte que dá sentido e significado à vida.
      E que sociedade contemporânea não foi construída a partir da morte? O Brasil que o diga. A escravidão é uma vergonha tão grande quanto o Holocausto, o que se fez com os negros, a dívida social que não foi paga com eles até hoje… E os índios. Enfim, nossa sociedade também foi de morte e mais morte e mais morte. A europeia é diferente? Onde aconteceu o Holocausto? E os guetos em que judeus eram perseguidos? E o que estão fazendo hoje com os imigrantes africanos e com os muçulmanos? É um assunto que não se esgota. Valeu pelo comentário mais uma vez e boa semana pra você, João

      • Nilu

        Uau! Boa semana. Nilu

  • André

    O cinema tem melhorado em relação à temática futebol, a literatura que não encontrou um caminho. Acho que sei o motivo. Futebol tem plasticidade, depende muito da imagem, muito mais do que de palavras. As palavras não consegue descrever um lance, as imagens sim. Abs. André

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