Sobre Futebol e Barreiras



Amanhã (sábado, 25) estreia em Floripa o documentário “Sobre Futebol e Barreiras”, filmado durante a Copa do Mundo de 2010 em Israel e nos territórios palestinos.

Como um dos quatro diretores do filme, feito por cinco amigos, ou seja, cinco cabeças, vocês podem imaginar que o processo foi difícil, pois cada um tem uma visão sobre a região e os conflitos no Oriente Médio. As diferenças de opinião e de visão dentro do próprio grupo já podiam ser sentidas no blog que fizemos durante a Copa (http://sobrefutebolebarreiras.blogspot.com). Em alguns momentos se acirraram, em outros diminuíram, mas sempre estiveram lá, o que torna o filme mais interessante.

Não dá para contentar gregos e troianos e o documentário pode ser visto de vários ângulos. A fotografia é belíssima, a trilha sonora, idem, os personagens, bem interessantes, gosto mais de uns do que de outros, o que é natural, e acredito que o filme vá gerar discussão e polêmica. O debate e o diálogo não são só necessários. São imprescindíveis. Acredito sinceramente nisso.

Tendo o futebol e o Mundial da África do Sul como pano de fundo, o documentário de José Menezes, Lucas Justiniano e Arturo Hartmann _os outros três diretores_ humaniza o conflito e mostra o drama e os sonhos de judeus e palestinos que, cada um a seu modo, querem a paz. Uma paz difícil de ser encontrada se os dois lados não cederem, especialmente os judeus, que representam a parte mais forte.

Um dos personagens mais interessantes é Zahi Armaly, um dos melhores jogadores da história do futebol israelense. Causou muita polêmica quando vestiu a camisa de Israel nos anos 80 por se recusar a cantar o hino nacional, pois diz que não o representa, assim como a bandeira, pois ambos carregam símbolos do judaísmo. E apesar de ser israelense, Zahi não é judeu. É árabe.

O personagem com quem mais me identifiquei, porém, foi Gregory, um judeu que dá um depoimento emocionante sobre sua chegada a Israel, ainda criança, quando se livrou do regime soviético com o pai sionista. Ao pisar no aeroporto Ben Gurion, sentiu-se no paraíso.

Curiosamente, Gregory torceu para a Alemanha na Copa, mesmo enfrentando a oposição da maioria de seus compatriotas por conta, claro, da Segunda Guerra Mundial. Mas Gregory sabe que o futebol é apenas um jogo. Por mais importante que seja, por mais dinheiro que gere, ainda é apenas um jogo. E gosto dele porque é a contradição em pessoa. Como eu.

No processo percebi como é difícil ficar isento. Por ter raízes judaicas, minha avó materna era Segall, família judia que fugiu de Vilna antes da Primeira Guerra Mundial e que felizmente escapou do Holocausto, meu olhar não era isento.

Mas vendo o filme você consegue entender os dois lados. Vê o sofrimento dos palestinos, que pedem liberdade, a angústia dos judeus, perseguidos por séculos e séculos quase no mundo todo e que querem um lugar seguro para viver.

O filme me trouxe à mente a posição da historiadora e psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco, que diz que a universalidade do povo judeu e sua capacidade de resistir às catástrofes é uma maneira única de transmitir à humanidade a ideia de que nenhum homem pode ser reduzido à sua comunidade, a suas raízes e a seu território. Mas, apesar do que ela diz, ainda acho que os judeus precisam de um Estado próprio. Como os palestinos precisam do seu. Como chegar lá, porém, é outra história. Unanimidade na região era apenas Dunga, então técnico do Brasil, criticado por judeus e palestinos que não entendiam como ele não levara para a Copa jogadores como Neymar e Ganso. Ou mesmo Ronaldinho.

Sigo logo mais para Floripa, onde permaneço até dia 28, para acompanhar a estreia do filme, um dos selecionados para o Florianópolis Audiovisual Mercosul (FAM-2011). A exibição será no Auditório da Reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina, às 16hs de sábado. Na volta certamente trarei novidades. De futebol… e cinema.

 

 



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