Uma comovente história de espantoso talento



O que o esporte, a música, mas especialmente a força de vontade não podem fazer por um ser humano…

No final do ano passado fui entrevistar um amigo e tomar um café na região dos Jardins, em São Paulo. Ele nasceu com uma síndrome que tem um nome esquisito, mas chique _a síndrome de Hanhart. É uma deficiência congênita, de origem ainda não identificada, que impede o desenvolvimento das pernas e dos braços, de forma que a pessoa cresce com o tronco e a cabeça _e o órgão genital, claro.

Conheci Marcos Rossi quando ele tinha dois anos de idade, ia muito em concertos de música clássica, algo que eu também fazia com minha mãe e faço até hoje sozinho ou com os muitos amigos que conquistei durante a vida. Pois fazer e cultivar amigos também é uma arte.

Encontrei Marcos várias vezes na vida, em eventos esportivos, ele adora esportes, via-o no colégio em que estudou, em festas… Quando o revi no final do ano passado, certamente todos estavam olhando para ele, pois Marcos representa o diferente. A conversa com ele foi tão gostosa que passamos três horas falando e falando e falando e não observei nem liguei para os demais. Naquele momento não vi o olhar dos outros, vi o olhar do meu amigo Marcos.

Odeio o assunto “superação”, que virou um clichê na sociedade moderna e que, usado tão exaustivamente, tornou-se chato e banal, como se todos tivessem que se mirar num caso específico e não pudessem sofrer com seus próprios problemas. A dor faz parte da vida. Odeio quando as pessoas aparecem com fórmulas prontas, de autoajuda, do tipo: se fulano faz isso com um braço só por que você se deprime com um assalto se saiu ileso dele? Porque cada um é um. Porque somos diferentes uns dos outros, bolas!

Mas o caso do Marcos é ainda mais diferente. Ainda mais especial do que tantos outros que já vi. E adorei saber o que o esporte e o samba fazem por ele _ou o que ele faz pelo esporte e pelo samba. Não é que com apenas o tronco e a cabeça Marcos costuma mergulhar? Ele adora ver futebol, adora ver competições de luta in loco ou pela TV, adora esporte.

Na conversa que tivemos, ainda me contou que há oito anos trabalhava num banco em São Paulo, era vocalista de um conjunto de música, desfilava havia dez anos numa escola de samba paulistana. Sai na ala dos bateristas. Coloca uma fita isolante nos dois tocos de braço que tem e lá seguia para a avenida… Não leva a vida na flauta, mas na leveza.

Conta que foi rejeitado há dez anos por uma das principais escolas de samba de SP, que achava que ele poderia atrapalhar no quesito evolução, afinal tem que desfilar em uma cadeira de rodas levada por um amigo. Tocar bateria e levar a cadeira sozinho já seria demais, né? Ainda mais sem as mãos, sem os braços…

Mas a X-9 Paulistana, escola que ganhou minha admiração, aceitou o rapaz e lá foi ele batalhar nos ensaios e nos desfiles. Para os ensaios, pega sozinho o metrô na avenida Paulista, segue até a Parada Inglesa, que fica na Zona Norte da cidade, percorre com sua cadeira de rodas alguns quilômetros de uma avenida enorme até chegar a seu destino final.

Sua cadeira de rodas, aliás, é um capítulo à parte. É do último tipo, uma das mais bonitas e completas que já vi.

Como Marcos, adoro a vida. Tenho meus altos e baixos, às vezes mais baixos do que altos, certamente muitos altos e muitos baixos, e da minha maneira vivo intensamente.

Na conversa que tivemos, Marcos contou como o fato de não ter os braços e as pernas o ajudou. Porque pôde se aproximar de pessoas com as quais talvez não tivesse tanto contato. Como o motorista, porteiros do prédio, mendigos, gente que o levava de lá para cá, daqui para lá, gente que passou a fazer parte da vida dele e se tornou muito próxima e querida.

Ficou amigo dos ambulantes da Paulista pois ele próprio se tornou um ambulante. Apesar de a família ter recursos, decidiu bancar a própria faculdade vendendo objetos na principal avenida de São Paulo. Muitos paravam por pena e compravam. Outros porque gostavam. E assim Marcos foi enchendo o bolso e pagando seus gastos, suas baladas, quando muito filhinho de papai nem pensa em quitar seus estudos, fica sempre à espera da ajuda do… papai. Mas como cada um é um e ponto qual o problema se o pai pode pagar as contas? O problema é roubar, lesar os outros, discriminar… Isso sim é grave. Roubar, lesar os outros, discriminar… Repito: roubar, lesar os outros, discriminar…

Marcos vive. Casou, teve dois filhos, o que estava com dois anos pulava em seu colo para lhe dar de comer…

E o que é mais legal é que Marcos entende que os outros não são que nem ele, que todos têm o direito de se angustiar quando perdem o emprego, terminam um namoro, não são correspondidos num apaixonamento, que o que incomoda um não necessariamente incomoda o outro.

Marcos aprendeu a não se esconder. E a formar uma grande rede de apoio. Que é fundamental. Ele mantém o bom humor e como o humor pode aliviar as dores… Marcos conta histórias que seriam trágicas com a maior naturalidade.

Lembra de uma queda que sofreu na “tão bem cuidada” cidade de São Paulo, graças a um bueiro que lhe causou uma quebra de nariz e fratura de uma costela. No chão, ao lado de sua mulher, grávida de oito meses, pensou: Tenho que agir com os recursos que estão a meu alcance. Conseguiu. Apesar da chuva e do intenso frio_quando uma coisa está complicada, aparece outra para complicá-la ainda mais…_, apareceu uma senhora para ajudá-lo. Colocou uma manta em cima dele, um segundo cara abriu um guarda-chuva para protegê-lo das águas e então apareceu um terceiro que… Não é que começou a rezar?

Não, não era hora da extrema-unção!!! Como o serviço público não prevê o resgate de uma pessoa que apenas fraturou o nariz (e a costela), um cidadão surge do nada e resolve agir por conta própria, levando-o ao hospital mais próximo.

Seu salvador sabia que no formulário do funcionário público não constava o que fazer caso uma pessoa que não tenha os braços e as pernas caia na calçada por conta de um bueiro abandonado. Ah! Santa burocracia!!!

Houve um instante mágico, durante a conversa, quando ele me perguntou: Não é bom viver? E é ótimo! Como foi ótimo entrevistá-lo, escutar suas histórias, trocar experiências e ligar o botão do… para o olhar dos outros. A vida é muito maior do que isso. Temos que olhar as diferenças e respeitá-las. Aproveitá-las para nosso crescimento e o crescimento de quem queremos bem. Essa é a riqueza do mundo.

Desde o início do ano não tenho contato com Marcos, não sei como ele está, hoje vou procurá-lo. Quando o encontrei, ele estava com 28 anos e me dizia que quando era adolescente médicos acreditavam que não passaria dos 30. Mas médicos também erram. Senti Marcos pronto para voos ainda mais altos. Não porque pense em pular de paraquedas _o que pensa de fato em fazer, ganhar os ares, como já ganhou os mares com seus mergulhos_, mas porque senti que voos mais altos o esperavam. Voos possíveis. E que não dependem do olhar dos outros.

PS. Pensei em dar o título a este post de “Voos possíveis”, mas no final optei por “Uma comovente história de espantoso talento”, que é o talento de viver, título de um dos melhores livros que já li, de Dave Eggers, escritor de primeira que tive a oportunidade de conhecer nos Estados Unidos e que tem um trabalho lindíssimo de inclusão social pela literatura. Hoje, em vez de “falar” das mazelas da Copa, preferi começar o dia com uma história edificante. Espero que gostem…



  • Nilú

    Existe vida, João !!!!
    Voce deveria fazer isso mais vezes.
    Trazer uma história dessas muda totalmente o foco, ou não…
    Serve com um momento de terapia, uma pausa para olhar para dentro e repensar…muitas coisas!!
    Terapia é bom, aliás, necessária…
    Pausa também!!!!
    Para cada um , um problema, ou vários, mas cada um do seu jeito deve e pode procurar supera-los.
    A vida não é simples, mas simplificando, ela pode ser muito boa!!!!
    Eu acredito nisso!!!
    Adorei!!!!
    Ps. Só espero que ” O Lance”, não crie “impedimentos”, para essas tuas ótimas “viagens”.
    Espero por outras….
    Abs

    • janca

      Obrigado pelo comentário, Nilú. Vou tentar fazer isso mais vezes, sim. Viajar é preciso. O Marcos é um cara extraordinário, que acabou de me mandar um lindo e-mail sobre o post. A vida é difícil para todos, mas pode ser muito bonita, especialmente quando há acolhimento. Abs. João

      • Nilú

        Pois é moço, viu o que eu falei?
        Só eu comentei…..
        Mas foi um post cheio de conteúdo, tenha certeza!
        E mais importante ainda , foi o Marcos ter lido, gostado e respondido.
        Só acolhe quem tem entendimento….
        Valeu João.
        Ótimo fds.

        • janca

          Não é que você tem razão? Às vezes a gente escreve… para a gente mesmo. Às vezes a gente tem apenas um leitor “de fora”. Às vezes várias e várias pessoas se manifestam. Parece clichê, mas não sei se é, não, acho que muitas vezes alcançar uma só pessoa é melhor do que alcançar várias. Bom final de semana para você, amanhã ainda postarei algo sobre o primeiro documentário que estou lançando, minha estreia como “cineasta” _risos_ no Florianópolis Audiovisual do Mercosul. Será sábado, em Floripa. Enfim, obrigado mais uma vez pelo comentário e um excelente feriado pela frente. Abs. João

          • Nilu

            Tive que xeretar o FAM… Muito boa a escolha do titulo, encaixou total na sinopse que li ! Fiquei muito curiosa, alias , eu sou muito curiosa, vai passar em Sao Paulo? Boa estreia…

          • janca

            Oi Nilu
            Vai passar em São Paulo no segundo semestre, quando souber a data te informo. Iremos nos inscrever na Mostra de Cinema de SP, assim como no festival do Rio, entre tantos outros no Brasil e no exterior, caso de Dubai, San Diego, é uma experiência divertida. Depois te conto como foi aqui em Floripa. Bom final de semana pra você, João

  • Rosana Costa

    João,
    Parabéns!
    Mas deveria ter nos avisado no inicio do texto: “Preparem seus lencinhos antes da leitura”.
    Assim como você tive o prazer de conhecer o Marcos, ele é exatamente tudo isso que você fabulosamente conseguiu descrever com suas palavras.
    Mas nem mesmo as palavras conseguem dar a dimensão do que ter conhecido o Marcos, ele permite um sentimento em nós que só quem esteve perto dele é capaz de sentir.
    Obrigada por nos presentear com um texto repleto de emoção.
    Abraço

    • janca

      Oi Rosana, muito obrigado pelo comentário! Então, assim como eu, você é uma privilegiada. O Marcos é uma pessoa cativante, que tem o maior talento de todos, conhece a arte de viver, uma arte às vezes tão difícil de encontrar, né? Sou eu que fico feliz com um comentário tão bonito como o seu, assim como com o e-mail que recebi do Marcos, um batalhador nato e uma pessoa que aprendi a admirar e de quem gosto muitíssimo, mas muitíssimo mesmo. Um abraço pra você e um belo feriado, João

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