Como formar torcedores?



Um dos problemas no Brasil é a falta de uma política esportiva. Os Jogos de 2016, no Rio, representam uma oportunidade de criar uma para o país e começar a desenvolver modalidades pouco praticadas aqui.

Mas como? Sugestões são muito bem aceitas… Pelo menos por este blog.

A necessidade de popularizar alguns esportes, que podem ser vistos como importantes instrumentos de inserção social, é premente quando vemos casos como o do tênis de mesa, que teve jogos do Aberto do Brasil no Maracanãzinho vistos por menos de cem torcedores. Mesmo as finais não atraíram mais de 200 gatos pingados… Um problema sério já que o torneio era etapa do circuito mundial promovido pela Federação Internacional de Tênis de Mesa.  Algo parecido se deu na Taça Brasil de polo aquático, a segunda competição mais importante no país, que não despertou muito interesse no Paineiras.

Mesmo o vôlei, com tantas conquistas nas três últimas décadas, não chegou à massificação. Em conversa com José Roberto Guimarães, único técnico do mundo campeão com duas seleções, masculina e feminina, respectivamente nos Jogos de 1992, em Barcelona, e de 2008, em Pequim, ele me falava sobre a dificuldade que é implementar, de fato, um esporte no Brasil, ainda o país do futebol.

Lembra que o vôlei vive de momentos. Tem um boom, depois some do noticiário esportivo, volta com outro título e outro boom, cai novamente, enfim, enfrenta altos e baixos e sérias dificuldades apesar do dinheiro que atrai. Pois ainda é uma modalidade para poucos. E de poucos.  Segundo José Roberto, vive de núcleos de excelência, não da massificação. Ou seja, não podemos dizer que se tornou um esporte de massa.

E tem mídia, quando conquista torneios importantes _e títulos importantes não faltam à modalidade_, tem a TV por trás, tem ídolos… Então falta o quê? Talvez perder o estigma de esporte de ocasião. A questão é como perder tal estigma. Como ter seu dia a dia e não só seus grandes momentos acompanhado pelo povão…

No caso do tênis de mesa e do polo, por mais que adore assistir às duas modalidades, especialmente a segunda, que acho interessantíssima, a dificuldade é ainda maior. Uma saída pode estar na parceria com escolas e clubes esportivos. Iniciar um trabalho de formiguinha. É o que me disse Goran Sablic, técnico croata que dirige a seleção brasileira de polo. Para ele, tem de ser feito um trabalho de base. Não adianta receber um grande torneio ou outro porque não estamos criando público, mas apenas tomando medidas paliativas. Assim a modalidade ganha espaço por uma semana, não mais do que isso, e depois volta ao ostracismo. O ganho é pouco e não é proporcional ao gasto. Seu efeito dura pouco. É imediato. E temos de pensar no médio e longo prazo, não apenas no curto.

Uma modalidade que tem tudo para crescer é o handebol, sempre tão praticado nas escolas, mas com poucos resultados quando chegamos à ponta do funil. Diferentemente do vôlei, quase ninguém dá sequência à sua prática depois do colégio. A vida de um jogador de elite do handebol, em termos financeiros, é bem menos glamourosa do que a de um jogador de vôlei, a explicação pode passar por aí…

Outra modalidade que tem um vasto campo para crescer é a de lutas. No país do MMA, investir na luta livre e na greco-romana é um enorme desafio, pois são modalidades olímpicas que dão muitas medalhas.

Lembro dos Jogos de Sydney, em 2000, quando tive a curiosidade de assistir a algumas disputas de luta livre e greco-romana. O que mais me chamou a atenção foi a plateia. Havia muitos torcedores do Leste Europeu. E eles vibravam demais. Com cada lance. Muitos dos quais, reconheço, não compreendia. Quando achava que um lutador estava indo bem, era o outro que ganhava. Como muitas vezes acontece comigo ao ver uma partida de judô. Fiquei encantado, no entanto, ao perceber que parecia uma partida de futebol. Porque a cada movimento a torcida vibrava como se fosse um gol, uma bola na trave, um drible fenomenal… Cada esporte tem seu encanto. A questão é encontrá-lo.

Um ídolo ajuda, claro, mas não é tudo. Isso ficou evidente no tênis com o caso Guga, um ser humano humilde e carismático _e carismático também pela própria humildade. O esporte, com tantas brigas na confederação, disputas de ego e de dinheiro, deixou escapar uma oportunidade de ouro para ficar mais popular. Segue sendo um esporte de elite. Com torcedores de elite que acompanham, a maioria pela TV, os principais torneios do exterior e os atletas de fora.

A Argentina, pelo contrário, soube tratar o esporte de maneira diferente e lá o tênis tem maior número de praticantes do que o Brasil, um país infinitamente maior e que vem há anos atravessando um período político/econômico melhor. Não por acaso um ídolo sucede o outro. O último que me comoveu foi Del Potro, que fez uma das partidas mais emocionantes que já vi contra Federer, na final do Aberto dos EUA em 2009. Quando ganhou, comemorei como um louco. É sempre bom ver Davi vencer Golias. É um dos instantes em que o esporte fica mais humano. E humanizá-lo pode ser um dos caminhos para popularizá-lo. Uma das saídas para formarmos torcedores no Brasil.

Os Jogos de 2016 estão aí para isso. Não percamos a oportunidade, que é única. Preciosa demais para ser desperdiçada. Com todos os desafios que temos pela frente, continuo achando ótimo termos a chance de pela primeira vez na história abrigar uma Olimpíada. Comemorei muito quando o Rio conquistou o direito de recebê-la. Mas não pode e não mesmo repetir os erros do Pan de 2007. Que além de estourar a conta, deixou um legado praticamente nulo para os cariocas e o Brasil. Uma pena. Uma pena e um escândalo.



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