Vira-latismo quer minar a paixão na Libertadores



Taça da Copa Libertadores (foto: divulgação)

Imagine se tivessem tirado o seu direito, são-paulino, de ter vivido numa arquibancada a festa da conquista da Libertadores de 1992, há exatos 25 anos, num Morumbi com mais de 100 mil pagantes. Tire do cruzeirense e do atleticano o Mineirão entupido do bi 1997 e do inédito título alvinegro em 2013. Imagine se o corintiano tivesse sido obrigado a trocar o Pacaembu cheio por um estádio em Lima para a grande decisão da tão sonhada Copa em 2012. Pergunte a um palmeirense se ele se arrepende de ter madrugado na fila do velho Palestra Itália para viver na arquibancada a noite de 16 de junho de 1999. Que pena seria se o colorado não tivesse tido a chance de ver seu Inter ser campeão continental no Beira-Rio. Pergunte ao torcedor do Boca, do River, do Peñarol, do Nacional, do Atlético Nacional…

O presidente da “nova Conmebol” quer dar ar de Champions League à Libertadores com final única, em país escolhido previamente, a partir de 2018. Os dirigentes dos clubes parecem dizer amém. Uma aberração. Nem tudo que está na Europa é melhor e deve ser copiado. Ignoram-se questões geográficas e culturais com um vira-latismo que na prática só colocará embalagem bonita em uma competição que tem outros tantos aspectos a serem melhorados. O modelo de final atual não está na lista de problemas.

Que se copie a segurança dos estádios, a qualidade do gramado, a negociação dos direitos de televisão, a venda de patrocínios, os canais de comunicação da Champions… Final única, com torcida repleta de turistas, não cabe num continente de difícil deslocamento e com problemas econômicos. Querem afastar os clubes de suas casas, de sua gente. Torcedor sul-americano não está nem aí para turismo quando vê seu clube de coração em uma final de Copa Libertadores. Dane-se se o Rio tem o Cristo ou se Buenos Aires tem Puerto Madero. O que importa é ter o direito de fazer de sua casa, seja na ida ou na volta, um diferencial para a conquista. O desejo da “nova Conmebol” lembra quem pede megashow, ao estilo de Super Bowl, em decisão de futebol por aqui. Não! É ótimo e digno de aplausos a maneira como os Estados Unidos valorizam seus esportes. Perfeito, na cultura deles. Ninguém está preocupado com show em intervalo de final por essas bandas. Respeite-se cada esporte, cada competição, cada povo.

A preocupação por aqui é apenas ter as maiores facilidades possíveis para estar do estádio, ou perto dele, numa grande decisão. Jogo único será mais uma barreira para quem já encontra inúmeras delas, como preços altos de ingressos em arenas, por exemplo. O que faria o torcedor do pequeno e valente Independiente Del Valle se a final de 2016 tivesse sido realizada em jogo único, contra o Atlético Nacional, no Maracanã? Quantos turistas sul-americanos, “neutros”, saíram de seus países para ir ao Rio ver essa final? Vamos supor que milhares topassem. E que vários cariocas lotassem o Maraca. Nada mais frio do que um público desse, alheio ao jogo, na final do torneio mais importante da América do Sul. Dividiriam espaços com alguns guerreiros colombianos e equatorianos, e outros abonados torcedores, que fariam a longa viagem.

A Champions League tem as maiores estrelas do mundo em campo, o que por si só atrai a atenção do planeta. A Libertadores, não. A Libertadores, como o próprio slogan da competição diz, é movida pela paixão. Final em campo neutro é mais um passo para minar justamente a paixão. Mesmo que todas finais únicas sejam disputadas com estádio cheio (é bem possível que sejam), com alguns malucos cruzando o continente e outras festas enlatadas. Jamais será a mesma coisa do que estar em casa. Com o direito de estar em casa. Na rua que você conhece, no bar que você consome. A diferença que faz “jogar de local” é a alma do futebol na América do Sul. Não destruam a final da Copa, por favor. Sem vira-latismo.



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