Torcedor gosta de ME-RE-CI-MEN-TO



Tite abraça Neymar contra a Argentina (foto: Thomas Santos)

Tite abraça Neymar contra a Argentina (foto: Thomas Santos)

O torcedor brasileiro gosta mais de ganhar do que gosta de futebol. O torcedor brasileiro não tem por característica o incentivo incondicional. Quando o assunto é Seleção Brasileira, muito menos amada do que seu clube de coração, então… É ganhar, ganhar e ganhar dando show, como aconteceu na última quinta-feira, contra a Argentina. Mas o torcedor brasileiro gosta também de ver ME-RE-CI-MEN-TO, palavra tão usada por Tite há anos.

O técnico da Seleção merece estar no cargo. Preparou-se para isso, evoluiu como treinador, estudou. Ganhou tudo que era possível pelo Corinthians. Não começou ontem. Surgiu em clube grande ganhando, há 15 anos, pelo Grêmio. Foi criticado no percurso, chegou a ser visto como folclórico. Levantou-se, com trabalho. O bom Tite de 2011-12 ganhava, o ótimo Tite de 2015 ganhava jogando ainda melhor e o Tite de 2016 segue em evolução. Merece estar onde está. O ME-RE-CI-MEN-TO faz o torcedor voltar a se interessar pela Seleção. Faz o torcedor, em meio a uma grande exibição contra a Argentina, cantar no Mineirão “olê, olê, olê, olê, Tite Tite”. Ninguém torce contra, como já torceram.

O interesse e a vontade de apoiar voltaram porque o torcedor vê no banco de reservas alguém que teve ME-RE-CI-MEN-TO. A última vez que houve identificação com um treinador que ali estava por merecer foi com Luiz Felipe Scolari, em 2002. Pouco antes, com Vanderlei Luxemburgo. Entende-se que o técnico da Seleção tem de ser o melhor e mais preparado do momento: Luxa era, antes de sair de maneira polêmica. Felipão também. Desde então… Não deu para entender a volta de Carlos Alberto Parreira para a Copa de 2006 e Dunga, apesar do bom trabalho na primeira passagem, para 2010. Veio o bom Mano Menezes, mas ainda sem currículo suficiente para Seleção.

Felipão voltou para a Copa de 2014. Não dava para falar em ME-RE-CI-MEN-TO naquele momento. Pesaram o inegável carisma do treinador e sua história. As competições em casa, aquele baile contra a Espanha na final da Copa das Confederações, resgataram a vontade de torcer pelo Brasil. Torcedor brasileiro gosta de ganhar e gosta de Copa. Imagine uma Copa em casa. A alegria durou até o 7 a 1. Qualquer mínimo desejo de parar outra vez para ver a Seleção jogar sumiu de vez quando Dunga voltou. Cadê o ME-RE-CI-MEN-TO? O próprio Tite decepcionou-se por não ter a chance que esperava.

A rota foi corrigida a tempo. Talvez nem Tite esperava começar tão bem. O mundo da Seleção é novo para ele, que ainda está entendendo como trabalhar sem o dia a dia de clube. O torcedor brasileiro se identifica por ver no cargo alguém que batalhou por isso. A vida não será só de vitórias e jogo bonito. O Brasil ainda perderá jogos, talvez campeonatos, e jogará mal. Mas entende-se que quem está sentado no banco é o mais capacitado do momento.

É uma grande chance para que se mude a mentalidade de que treinador da Seleção está ali só para ganhar a Copa do Mundo. Tite nunca jogou uma Copa. Viverá tal experiência em 2018 e, qualificado como é, deve jogá-la com um time competitivo. Se o trabalho seguir bem feito como começou, não será uma eliminação, por detalhes de um jogo, que o fará menos competente. Tite vai seguir evoluindo. Como evoluiu de 2011 a 2016. Que se pense em manter quem tem competência por mais tempo, não apenas pela motivação do resultado. Óscar Tabarez dirige o Uruguai há dez anos, Joachim Löw idem, na Alemanha. Não caíram ao perderem Copas, mas sim ficaram pelo reconhecimento de bons trabalhos. E depois conquistaram títulos, resultados naturais para quem trabalha bem. Só dois treinadores na história do Brasil disputaram duas Copas seguidas: Zagalo 1970-74 e Telê 1982-86. O primeiro depois de um título incontestável, o outro depois de montar um dos maiores times da história.

Renato Augusto, jogador que tem um conhecimento do esporte que pratica acima da média dos “boleiros”, afirmou em entrevista ao amigo Alexandre Lozetti, do Globoesporte.com: “Muitos jogadores foram para Europa e voltaram com outro nível de exigência. Eu tive grandes treinadores, mas o maior foi o Tite. Ter o respeito de todos é um ponto forte, e acho que o Tite tem”. O treinador hoje soma grande habilidade de relacionamento com competência na hora de trabalhar no campo. Ganha atletas, ganha imprensa, ganha torcida. ME-RE-CI-MEN-TO. Ainda veremos a Seleção Brasileira perder, mas todos vão entender que no banco, hoje, está sentada a pessoa mais capacitada para reagir. O torcedor brasileiro seguirá gostando mais de ganhar do que de qualquer outra coisa. Perder fazendo o certo, no entanto, dará menos raiva do que perder fazendo tudo errado. Tite, hoje, é o certo. ME-RE-CI-MEN-TO.



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