Quando um estadual inteiro não enche um estádio



Jogo do Botafogo no Carioca: vazio… (foto: Vitor Silva/SSPress/Botafogo)

Você sabia que já há campeonato estadual com seis rodadas completas e que todos os públicos somados de seus jogos não seriam suficientes para encher nenhum dos principais estádios do Brasil? Você sabia que há outro campeonato estadual em que as rendas já somam um prejuízo de R$ 1,6 milhão? Pois saiba que o público total do Campeonato Pernambucano é de pouco mais de 33 mil pagantes, média de 1.213 por partida, e o torneio do prejuízo é o Campeonato Carioca, que tem média de renda negativa de R$ 34 mil por jogo (é o único deficitário entre os principais do país, e isso não é nenhum elogio aos demais).

Felizmente, o mundo evolui. Mas nem tudo se adapta. O que era legal ou comum nos anos 90 hoje pode ser ruim, ou até mesmo um absurdo. Com certeza você já fez coisas no passado que não repetiria hoje de maneira alguma. Evolução. O campeonato estadual é a raiz do futebol brasileiro, por óbvios motivos geográficos. Por anos, foram as competições mais importantes. Rivalidades nasceram nestas disputas, o título paulista de 1993 do Palmeiras teve mais peso do que Libertadores, assim como 1977 é ano sacro para o corintiano. Ninguém tira da memória incontáveis clássicos cariocas com o Maracanã abarrotado.

Passou. Não é mais cabível ter 18 datas do calendário para o Campeonato Paulista ou qualquer outro estadual. O Carioca inteiro soma apenas 91 mil pessoas de público, média de 1.872. O Baiano, já na quinta rodada, não chega a 49 mil (só a Arena Fonte Nova tem capacidade para 50 mil), média de 2,4 mil. Os clubes, sempre reféns da federações, mantém campeonatos com estádios desertos e apertam o calendário, prejudicando a si mesmos nas competições mais importantes.

A TV, apesar de exibir produtos pouco atrativos neste começo do ano, compensa com quantias consideráveis. No caso de São Paulo, cada clube grande recebe R$ 17 milhões de cota – no Rio de Janeiro os direitos de transmissão rendem R$ 15 milhões a cada um dos quatro. Grêmio, Inter, Atlético-MG e Cruzeiro recebem cerca de R$ 12 milhões. O campeão paulista recebe mais R$ 5 milhões da federação.

Não é necessário acabar com os estaduais. Mas seria possível a realização com menos datas, com os grandes entrando em fases decisivas. A desculpa para fórmulas atuais, mais especificamente nos casos de Rio e São Paulo, é a realização de todos os clássicos? Pois que os quatro grandes de cada estado abrissem a temporada em fevereiro com quadrangulares. A TV teria todos os clássicos para transmitir e estes definiriam vantagens e chaveamentos para um mata-mata com pequenos vindo de uma preliminar que poderia, inclusive, abranger mais clubes pequenos. Daria para resolver a questão com três datas na primeira fase e mais seis (quartas até a final, ida e volta) nas eliminatórias. Nove datas, a metade do modelo atual. A TV continua pagando, os jogos teriam todos caráter decisivo e por consequência o público seria maior.

Palmeiras e Corinthians são pontos fora da curva nacional em termos de público e arrecadação desde que abriram suas arenas. São exceções, souberam trabalhar sócios-torcedores. Conseguem encher estádios com renda alta mesmo no estadual. Só isso melhora os números do Paulistão, que ainda assim são baixos (e o Timão ainda não estreou em Itaquera em 2018). A média do campeonato, a melhor entre os torneios locais no Brasil, é de 8 mil, inflada por Verdão (32 mil) e Corinthians (23 mil). Os dois clubes somam metade do público total da competição até agora. O Palmeiras já colocou no bolso, livre de despesas, R$ 4 milhões em três jogos. Há um abismo que separa o clube dos demais neste quesito (a soma das rendas líquidas dos outros “11 grandes” não chega a tal valor).

O Cruzeiro, com a melhor média do país em 2018, é o fenômeno de arquibancada neste início de ano. Levou mais de 47 mil pagantes ao Mineirão num jogo contra o América-MG e tem mais de 33 mil por partida na temporada. Louvável e a torcida merece elogios – elevou a média do campeonato para cerca de 6,6 mil. Mas o clube não tem estádio próprio, cobra pouco e tem gasto alto: os boletins financeiros dos jogos apontam rendas líquidas pequenas. Os três jogos em casa da Raposa resultaram em R$ 840 mil nos cofres. É melhor assim, do que ter o estádio às moscas. Sem dúvidas. Mas melhor ainda seria um Mineiro enxuto e que não obrigasse o Cruzeiro a fazer tantos jogos de pouco apelo de janeiro a março. Talvez a Raposa jogasse menos, com casa cheia, e lucraria mais.

Em termos financeiros, só quem ri com os estaduais é o Palmeiras. Mérito do clube, uma façanha. Enquanto isso, o Campeonato Gaúcho tem média de 2,5 mil, pouco mais de 3 mil vão a campo no Paraná, mesma situação de Goiás e Santa Catarina. Em Pernambuco, a soma de todas as rendas, descontadas as despesas, não chega a R$ 20 mil. Remo e Paysandu de novo se destacam por boas médias (18 mil e 16 mil respectivamente), num Paraense de média baixa (4,6 mil). O primeiro clássico dos grandes do Pará em 2018 está entre os dez maiores públicos do ano no Brasil: 31 mil.

 



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